Aqui no Girls in Green, a gente acredita que a plantinha vai muito além dos rótulos que tentam colar nela. Alguns ainda a veem só como uma droga, outros só como remédio—mas a verdade é que o cânhamo pode ser muita coisa. Uma das mais incríveis (e pouco faladas) é o seu potencial como matéria-prima para construções sustentáveis, em forma de hempcrete.
A construção civil, como a gente conhece hoje, é uma das grandes responsáveis pela destruição do planeta. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), o setor foi responsável por 38% das emissões globais de CO₂ relacionadas à energia em 2019. Ou seja: repensar a forma como construímos é urgente. E é aí que o hempcrete entra em cena.
Mas será que ele realmente funciona? Qual o cenário atual no Brasil? E o que falta pra vermos mais casas sendo construídas com cânhamo por aqui? Pra responder tudo isso, convidamos alguém que entende do assunto como poucos: Rodrigo Segamarchi, engenheiro civil e CEO da Hempower, uma iniciativa que está colocando o hempcrete no mapa brasileiro. Nesta entrevista, ele compartilha com a gente as possibilidades, os desafios e os sonhos que envolvem essa tecnologia verde.
Vem com a gente descobrir como o cânhamo pode virar tijolo, parede, e caminho pra um futuro mais justo e sustentável.
O que é o hempcrete e por que ele importa?
Você já ouviu falar em hempcrete? Também conhecido como concreto de cânhamo, esse material é uma alternativa sustentável aos insumos tradicionais da construção civil. Acima de tudo, ele pode ter um papel crucial na nossa transição para um futuro mais verde e saudável (que, convenhamos, está cada vez mais necessária.)
Feito a partir da mistura do miolo do caule do cânhamo, cal hidratada e água, o hempcrete não é estrutural como o concreto comum. No entanto, ele funciona como um excelente isolante térmico e acústico, além de ser resistente ao fogo, umidade e pragas. “O hempcrete representa uma ruptura com o alto impacto ambiental da construção convencional, oferecendo uma alternativa que alia desempenho técnico à sustentabilidade”, explica Rodrigo Segamarchi.
Entre seus principais diferenciais, está o fato de ser um material carbono-negativo. Ou seja, ele sequestra mais CO₂ do que emite ao longo de seu ciclo de vida. Também promove ambientes internos mais saudáveis por ser livre de compostos tóxicos, e é biodegradável, reduzindo o impacto ambiental mesmo após a demolição de uma construção.
Além disso, por suas propriedades naturais de regulação térmica e de umidade, o hempcrete contribui para construções mais eficientes energeticamente. Isso ajuda a reduzir o uso de ar-condicionado e aquecedores.
Com todas essas vantagens, o hempcrete se apresenta como uma alternativa não apenas viável, mas urgente em um cenário global de crise climática e necessidade de inovação nas formas de habitar o mundo.
Um futuro possível: o hempcrete no Brasil

O potencial do hempcrete para o Brasil é enorme, e ele não está restrito a um futuro distante! Apesar dos desafios, já existem iniciativas em andamento que mostram como esse material pode se encaixar perfeitamente nas necessidades ambientais, climáticas e urbanas do país.
“O hempcrete é extremamente versátil e adaptável a diferentes condições climáticas”, afirma Segamarchi. “Em países tropicais como o Brasil, onde o clima apresenta alta umidade e variações de temperatura, o material se comporta de forma exemplar.” Segundo ele, o biocompósito ajuda a manter o equilíbrio térmico e de umidade dentro das construções, criando ambientes internos mais saudáveis e estáveis. Isso é essencial em regiões quentes, litorâneas ou com alta incidência de chuvas.
Rodrigo também destaca a atuação da Hempower como uma das primeiras iniciativas a colocar o hempcrete em prática no país. A empresa promove workshops práticos e já apresentou, na ExpoCannabis Brasil 2023, a primeira parede construída com blocos de cânhamo do território nacional—um marco simbólico e pedagógico para o setor.
Além disso, pequenos projetos experimentais começam a surgir principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Ainda assim, a ausência de uma regulamentação clara para o cultivo do cânhamo industrial limita o crescimento dessa cadeia… pelo menos por enquanto.
Mas Rodrigo enxerga um cenário otimista: “Estamos em um momento estratégico. Com o avanço regulatório e o interesse crescente por soluções ecológicas, o Brasil tem tudo para abraçar o hempcrete como uma ferramenta real de transformação ambiental e social.”
O que ainda impede esse avanço?
Apesar de todas as vantagens e do crescente interesse por soluções sustentáveis, o hempcrete ainda enfrenta obstáculos importantes para se consolidar no Brasil. O principal deles? Acertou: a legislação.
“O maior desafio hoje é a falta de regulamentação clara para o cultivo de cânhamo industrial”, explica Rodrigo. Sem essa base legal, não é possível estabelecer uma cadeia de produção local. Isso eleva os custos e torna o material menos competitivo frente aos insumos tradicionais da construção civil.
Além disso, Rodrigo destaca outros entraves, como o baixo conhecimento técnico no setor. “É essencial capacitar engenheiros, arquitetos e construtores sobre as vantagens e formas de uso do material”, aponta. Sem essa formação, o hempcrete ainda é visto como experimental ou alternativo demais para projetos em larga escala.
A cultura de investimento conservador também pesa. Muitas empresas do setor preferem continuar com o que já conhecem, mesmo que isso signifique mais impacto ambiental e menos eficiência energética. Para completar, o Brasil ainda não possui normativas específicas que reconheçam e regulamentem o uso do hempcrete como material certificado. Isso dificulta muito sua inserção formal em obras.
Ainda assim, há sinais de mudança. “A decisão do STJ sobre o IAC 16, que abre precedente para o cultivo de cânhamo no Brasil, marca um momento estratégico”, afirma Rodrigo. A expectativa é que, com mais regulamentação, educação e incentivo, o hempcrete possa finalmente ganhar espaço como um material do presente, e pra ontem.
Cânhamo como caminho: o sonho e a revolução verde

Mais do que um material de construção promissor, o hempcrete faz parte de uma visão maior. A de um Brasil que usa o cânhamo como motor de transformação ambiental, econômica e social. Para Rodrigo, esse sonho não está tão distante. e começa com o reconhecimento do cânhamo como uma matriz regenerativa.
“Meu sonho é ver o cânhamo como uma matriz central no Brasil. Não apenas na construção civil, mas como um material amplamente utilizado por outras indústrias, como a moda, a alimentação e a energia”, conta Rodrigo. Em sua visão, o cânhamo pode ser o elo que une tecnologia, sustentabilidade e justiça socioambiental. Ao mesmo tempo, ele fortalece a economia verde e gera oportunidades em diferentes territórios.
O uso do cânhamo, segundo ele, representa uma chance real de romper com práticas industriais poluentes e predatórias. “Quero que o cânhamo seja o catalisador de uma transição para uma economia de baixo carbono, em que cada etapa da cadeia produtiva contribua para devolver à natureza mais do que consome.”
Esse sonho ganha força com os avanços regulatórios recentes e o interesse crescente de quem busca construir um mundo mais equilibrado. Rodrigo acredita que, com educação, investimento e vontade política, o Brasil tem tudo para se tornar uma referência global no uso do cânhamo—mostrando que é possível aliar inovação, tradição e regeneração.
“Estamos caminhando para isso”, afirma. E, com cada novo tijolo de cânhamo colocado no chão, essa revolução verde vai se tornando mais real, e mais urgente.
FAQ
O hempcrete é um tipo de concreto tradicional?
Não. O hempcrete não é estrutural como o concreto comum. Ele funciona como um biocompósito usado para isolamento térmico e acústico, além de preencher paredes e estruturas. É leve, respirável e altamente sustentável.
Do que ele é feito?
Hempcrete é produzido a partir da mistura de hurds (o miolo do caule do cânhamo), cal hidratada e água. Esses ingredientes criam um material resistente, isolante e com baixo impacto ambiental.
Posso construir uma casa inteira com hempcrete?
O hempcrete pode ser usado nas paredes, pisos e tetos como material de enchimento ou isolamento. Mas ainda requer uma estrutura de suporte (geralmente de madeira ou metal). Ele não substitui o concreto estrutural.
O hempcrete funciona bem no clima do Brasil?
Sim! O material é ideal para climas tropicais, pois regula naturalmente a umidade e a temperatura interna. Isso reduz a necessidade de ar-condicionado e ventilação artificial.
Já existe hempcrete sendo usado no Brasil?
Sim, mas ainda de forma limitada. A Hempower tem liderado iniciativas e oficinas sobre o tema. Inclusive, eles fizeram a construção da primeira parede de cânhamo apresentada na ExpoCannabis Brasil 2023. Ainda assim, o uso em larga escala depende de regulamentações mais claras.
O que impede o avanço do hempcrete por aqui?
A principal barreira é a falta de regulamentação para o cultivo de cânhamo industrial no Brasil. Há também a ausência de normativas técnicas específicas e o desconhecimento do setor da construção civil.