Redução de Danos

Uso de cannabis na adolescência: Riscos e orientações

A busca pela alteração do estado de consciência é natural, feito por todas as culturas ao redor do mundo, e tanto para o ser humano quanto para outros animais. Mas é preciso refletir sobre o uso precoce da cannabis, e vamos explicar o porquê!

Ah, a juventude: época de descobertas e aprendizados sobre a vida, o outro, o mundo, e principalmente em relação a si mesmo. Na adolescência, vivemos algumas de nossas maiores aventuras, e ainda temos muitas primeiras vezes pela frente, como o primeiro beijo e início da vida sexual, inclusive quando o assunto é uso de drogas (incluindo álcool, café, farmacêuticos e outros).

Segundo dados do Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012, mais da metade dos usuários experimentaram a cannabis pela primeira vez antes dos 18 anos. A pesquisa ainda mostra que quase 600 mil adolescentes (4% da população) já usaram maconha pelo menos uma vez na vida, enquanto a taxa de uso no último ano foi idêntica à dos adultos (3%, equivalente a mais de 470 mil adolescentes).

Mas qual é o problema de experimentar a substância nessa época?

Na adolescência, a curiosidade fala alto, e todas nós aqui já passamos por isso. Mas o debate em relação ao uso precoce de maconha precisa ir de encontro com a realidade, afinal, por mais que o programas de abstinência existam, adolescentes seguem fumando maconha.

O desafio é: como informar o adolescente e estimular o autocuidado, ao mesmo tempo de que essa é a fase clássica da vida de experimentação, aventuras? Como romper estratégias de educação através do medo e de mitos para evitar o uso precoce? Uma ferramenta muito conhecida por isso é o PROERD: o Programa Educacional de Resistência às Drogas, feito em escolas em parceria com a Polícia Militar, que visa a coibição do uso através da propagação de valores proibicionistas e que trata os usuários como criminosos na sociedade.

Acreditamos que, ao contrário disso, é essencial nos distanciarmos de qualquer mentalidade proibicionista para navegarmos no mar da Redução de Danos e tornar possível falarmos abertamente sobre o assunto, sem tabus, e sobre as estratégias para quem, mesmo consciente dos riscos, decide que é a hora de provar.

E aí, jovens, vamos trocar uma ideia sobre isso?

ALERTA: esse texto não se aplica para adolescentes usuários de cannabis como uma estratégia medicinal e acompanhamento profissional.

Planta de maconha outdoor e céu azul
Planta de maconha

Por que tantos começam cedo?

São diversos os motivos que envolvem a escolha de alguém em utilizar ou não alguma substância. E essa escolha perpassa pela individualidade de cada um, em seus contextos familiares, profissionais, afetivos e sociais. Para os adolescentes, no entanto, a socialização e a necessidade de pertencimento são fatores bem expressivos no momento de escolher entre fazer ou não esse uso.

Uma pesquisa sobre o papel das drogas lícitas e do uso da cannabis por adolescentes na socialização, feita pela Paris Descartes Universities em 2010, concluiu que o consumo de tabaco e álcool parece ser igualmente influenciado pelo tempo gasto com os amigos. Os dados indicam que:

  • 57% dos usuários de cannabis já fizeram uso de tabaco, não necessariamente com o álcool;

  • 61% dos adolescentes que desenvolveram transtornos por uso de cannabis também são usuários de tabaco;

  • O papel do álcool isoladamente foi menor, em torno de 13%;

A influência dos colegas é relevante na questão do uso das substâncias entre adolescentes, por isso é importante fazer prevenção e reforçar a importância de desenvolver a própria identidade sem buscar copiar os outros. Por que não orientar de forma honesta?

Marcelo Sodelli, no seu livro “Uso de Drogas e Prevenção”, entende que a prevenção ao uso nocivo de drogas deveria estar direcionada em promover, nas pessoas, uma formação que possibilitasse maior conhecimento dela mesma, de sua vida e dos problemas do mundo, priorizando, em última análise, uma redução dos níveis de vulnerabilidade em relação ao uso nocivo de drogas – uma vez que é algo natural na história do ser humano querer alterar o estado de consciência.

E já diria nosso amado Dráuzio Varella: “A maconha faz parte do universo dos jovens de qualquer classe social; mesmo os abstêmios têm amigos que fumam. Em certas fases da juventude, o risco de uma filha ou filho experimentá-la, é alto. Condená-los por ter curiosidade, necessidade de aceitação no grupo ou por cair em tentação vai ajudá-los?”

Mas então, meninas, onde está o risco?

Nessa época é justamente quando temos nosso primeiro contato com diversas substâncias em um contexto onde podemos decidir experimentá-las ou não. Álcool, tabaco, cannabis… E nem sempre esse primeiro contato ocorre de maneira segura – ainda mais em um país proibicionista como o nosso, onde o próprio corre pode ser mais perigoso do que o que decidimos usar.

E também existem as questões mais científicas. Você já deve ter ouvido milhares de vezes aquela mentira que diz que maconha queima neurônios, certo? Descobrir se isso é verdade já motivou centenas de estudos ao redor do mundo, e algumas observações foram levantadas:

  • Dificuldade de aprendizado:

No livro “Maconha, cérebro e saúde”, Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro trazem essas considerações, explicando que, embora a cannabis possa apresentar pouquíssimos riscos em um uso adulto e controlado, ela pode ser bastante prejudicial para indivíduos em desenvolvimento e amadurecimento. Isso porque, segundo os autores, os canabinoides presentes na planta agem diretamente sobre os sistemas neurais que regulam o aprendizado – seja por reforço, recompensa ou punição. Além disso, eles também atuam na percepção, atenção, formação de memórias e na coordenação motora de indivíduos mais jovens.

  • Desempenhos escolares mais baixos:

Estudos também apontaram como uma das possíveis consequências do uso da cannabis na juventude a evasão escolar, além de casos de depressão e ansiedade. Com 60 participantes entre 14 e 17 anos, 30 usuários e 30 não usuários, a pesquisa ainda constatou que os adolescentes usuários de maconha apresentaram um desempenho inferior, no que tange às funções cognitivas, quando comparados ao grupo de adolescentes não usuários de maconha. Isso confirma o que também sugerem Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro, que a maconha pode afetar o funcionamento neuropsicológico de usuários durante seus anos formativos.

  • Falta de motivação:

Problemas nos estudos podem estar ligados ao que Sidarta Ribeiro chama de síndrome amotivacional. Segundo ele, o uso da cannabis é muito diferente quando a vida está normal e quando não está, e ela pode contribuir para a sensação de dúvidas que é normal nessa fase e ainda gerar uma prostração ainda maior.

  • Depressão e ansiedade:

Em um estudo com jovens meninas, pesquisadores descobriram que ouso frequente de cannabis em adolescentes prevê depressão e ansiedade posteriores, com os usuários diários sendo os de maior risco. Por isso, o mais indicado para quem deseja matar a curiosidade é experimentar de forma segura, esporádica, sem fazer um uso crônico (a não ser que seja prescrito por médicos).

Alice fumando um baseado com piteira longa  e segurando as piteiras da Bem Bolado para reduzir danos
Baseado com piteira longa da Bem Bolado para reduzir danos

E por que os adolescentes podem ser mais afetados negativamente pelo uso da cannabis?

A explicação está na vulnerabilidade do tecido cerebral na infância e adolescência: nessa fase, o córtex pré-frontal, responsável por funções superiores como julgamento, tomada de decisões e controle da impulsividade, não está totalmente formado. Segundo Varella, ele só completa a fase de amadurecimento ao redor dos 25 anos de idade, muito mais tarde do que as áreas encarregadas do processamento das emoções.

Uso contínuo X uso esporádico

A frequência e quantidade de cannabis que o jovem usa também vão ditar a percepção dos efeitos negativos. Quando você decide experimentar e o uso é feito poucas vezes, eles podem ser leves ou nem mesmo aparecer. Já quando o uso é contínuo, eles podem ficar mais evidentes aos adolescentes – principalmente a longo prazo. E essa é uma das razões pelas quais, mesmo em estados onde a planta é legalizada, geralmente as idades mínimas para uso variam entre 19 e 21 anos.

Um estudo da Nova Zelândia conduzido em parte por pesquisadores da Duke University mostrou que indivíduos que começaram a fumar a planta continuamente na adolescência e tiveram um transtorno por uso de cannabis perderam em média 8 pontos de QI entre os 13 e 38 anos. Essas habilidades não retornaram de maneira completa naqueles que pararam de maconha quando adultos.

Já aqueles que começaram a fumar maconha quando adultos não apresentaram declínios notáveis de QI.

Em outro estudo recente, aqueles que usaram a substância mostraram um declínio significativo no conhecimento geral e na habilidade verbal (equivalente a 4 pontos de QI) entre os anos pré-adolescentes e o início da idade adulta, mas nenhuma diferença previsível foi encontrada entre pares quando um deles usava maconha e o outro não. Isso sugere que o declínio do QI em usuários de maconha pode ser causado por algo diferente da erva, como fatores familiares compartilhados (por exemplo, genética ou ambiente familiar).

Ou seja, embora seja cedo para afirmar que a cannabis é a única causa que provoca um atraso no desenvolvimento cerebral, também não podemos dizer que ela não tem nada a ver com isso!

Bud maravilhoso com pistilos rosas
Bud maravilhoso com pistilos rosas

Então, quais são as soluções?

Aqui no Girls in Green, não incentivamos o uso da cannabis precoce, sem informação e conhecimento de técnicas de Redução de Danos, mas também acreditamos que a repressão não é uma solução plausível e eficaz – o proibicionismo já provou isso para a gente há decadas, sem qualquer evidência de resultados positivos. Afinal, se tivesse funcionado, teríamos erradicado as drogas e seus usos, não é mesmo?

“Meu filho está usando maconha. O que fazer?”

Primeiro, acreditamos que o diálogo é a melhor solução – e não o confronto. A repressão pode fazer com que o seu filho/a se afaste das estruturas familiares, e no contato com substâncias, esse afastamento pode ser o maior perigo. E nesse momento, acreditamos que fortalecer os laços familiares pode ser a maior forma de reduzir os possíveis danos do uso precoce de maconha. O mais importante é informar, acolher e usar do momento para criar um espaço aberto de confiança mútua.

“Se ainda assim decidirem fumar, não é a repressão que os impedirá nem será uma tragédia familiar. A maioria dos que experimentam na adolescência abandona o uso por conta própria, ou fuma com intervalos de semanas ou meses. Maconha não é droga compulsiva como cigarro ou cocaína. Desesperar-se porque a filha ou o filho “caiu no mundo das drogas”, só por fumar maconha ocasionalmente, é criar drama de novela mexicana.” – Dráuzio Varella.

Para ajudar a melhorar o diálogo entre pais e filhos adolescentes sobre cannabis, fortalecer a estrutura familiar através da verdade, nós criamos um guia cheio de informações sobre como falar sobre cannabis em casa! Baseado em pesquisas e estudos científicos, ele pode ajudar a fortalecer a comunicação e a tomada de decisões mais conscientes, sem transformar a substância em um tabu (o que gera ainda mais curiosidade, não é mesmo?).

Além disso, caso a decisão seja pelo uso, é ESSENCIAL que tal esteja atrelado às estratégias de Redução de Danos:

  • Procedência: a primeira estratégia para reduzir os danos é garantir a procedência da maconha usada. Se ela não for de qualidade, fazer um uso seguro dela fica muito mais desafiador! E nós sabemos o quanto é difícil o acesso a flores de qualidade em uma realidade proibicionista.

  • Prensado: caso a maconha seja prensada, uma realidade bem comum do Brasil, a melhor forma de garantir que ela fique mais segura para o consumo é lavar o bloco e retirar qualquer tipo de impureza. E nada de usar prensado mofo!

  • Filtros: não fume sem e dê preferência aos biodegradáveis! Nenhum filtro diminui a quantidade de THC absorvido. Isso é mito, ok?

  • Sedas: fumar apenas com sedas de qualidade, se não o papelzinho pode fazer mal sim. Sedanapo? Nem pensar!

  • Piteiras: a piteira longa ajuda no resfriamento da fumaça, o que preserva a saúde da garganta de quem está fumando. Por isso, ela é essencial quando estamos falando em reduzir danos – mesmo se o uso for esporádico

  • Vaporização: usar o método de vaporização ao invés da carburação também é uma forma de reduzir danos, já que garante que seu corpo não terá que lidar com substâncias tóxicas provenientes da queima. Os bongs também podem ser uma ótima alternativa!

  • Pontas: não é legal fumar beck de pontas. Eles contêm apenas os restos gerados pela carburação e são péssimos para os pulmões. Descarte as pontas, mesmo que pareça tentador passar adiante na hora que a vontade de fumar um bater.

  • Ambiente seguro: evitar fumar na rua é regra básica de segurança, e é essencial estar em um contexto seguro, como em casa, com amigos ou pessoas confiáveis. Por isso é tão importante abrirmos o debate sobre o uso de substâncias primeiro dentro do nosso próprio lar.

  • Qualidade e frequência: isso serve para qualquer idade, mas precisamos frisar que garantir que a cannabis usada é de boa qualidade é essencial. Menos é mais. A dica é fumar menos e fumar melhor.

  • Concentrados: as altas quantidades de THC e outros canabinoides presentes nos concentrados não são recomendadas para adolescentes.

Aqui, nós falamos sobre como usar a cannabis pela primeira vez de diversas formas, o que também pode ajudar a orientar a um uso mais seguro.

No nosso Instagram, interagimos com seguidores para perguntar com que idade eles tinham iniciado o uso de maconha e se achavam que essa era a idade ideal. Muitos começaram na adolescência, e ao mesmo relataram que, se tivessem as informações que têm hoje, tomariam uma decisão diferente. A ideia é: jovens, temos a vida toda pela frente. É normal querer experimentar – mas que tal deixar o uso contínuo para mais tarde e lidar com mais maturidade ao se decidir?

Se você que está lendo é jovem e está pensando em fazer uso de qualquer substância, converse com um adulto responsável, tire suas dúvidas e reflita se esse é o melhor momento para fazer isso. A gente acredita que vale a pena esperar mais um pouquinho!

Se você é o adulto responsável por um adolescente e está procurando por informações para um diálogo mais aberto, parabéns pela iniciativa de acolher sem julgar! A preocupação e a conversa são sempre passos essenciais para fortalecer a confiança na relação familiar, respeitando também a autonomia dos mais jovens.

E você, quando começou a fazer o uso? Você acha que tinha informações suficientes para tomar uma boa decisão? Conta aqui pra gente nos comentários e aproveite também para tirar as suas dúvidas.

Esperamos que tenham gostado das informações. Até a próxima!

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments