GIRLS IN GREEN

Muito além do uso adulto, a ketamina ou cetamina já é usada em diferentes partes do mundo em terapias assistidas por seus efeitos antidepressivos. Mas como isso acontece? Vem entender!

Ora, ora, olha só, quem diria: a ketamina, conhecida por muitos como cetamina, key, keta ou até mesmo como “anestésico de cavalo”, pode ser muito mais do que os olhos (ou memes) nos mostram. A substância, que já foi usada principalmente como anestésico em campos de batalha e em salas de operação, está ganhando terreno como um tratamento promissor para alguns casos de depressão severa – a principal causa de incapacidade em todo o mundo.

De acordo com a Escola de Medicina da Harvard, nos Estados Unidos, estimativas recentes mostram que 16 milhões de adultos tiveram um episódio de depressão grave no decorrer de um ano. Além disso, as taxas de suicídio aumentaram substancialmente entre 1999 e 2016, aumentando em mais de 30% em 25 estados. Em todo o mundo, estima-se que 10% da população sofra com o distúrbio.

E, por causa de sua ação rápida, a ketamina pode ter um papel importante na prevenção do suicídio!

Mas precisamos entender que o uso terapêutico da substância é diferente de seu uso adulto. Também é importante lembrar que, como qualquer substância, existem pessoas que têm ótimas experiências, e outras que passam por momentos mais desafiadores. Aqui, vamos abordar esses dois espectros da ketamina – tanto o medicinal quanto em contextos – além de seus riscos, benefícios e estratégias de Redução de Danos.

Vamos entender mais sobre isso? Vem com a gente!

Frascos de ketamina com filtro distorcido
Frascos de ketamina fonte: Pinterest

O que é, exatamente, a ketamina?

A ketamina foi criada na Bélgica, na década de 1960, como um medicamento anestésico para animais. Entretanto, em 1970, o FDA aprovou a substância como anestésico para pessoas também. A partir de então, foi usada no tratamento de soldados feridos nos campos de batalha na Guerra do Vietnã. Ao contrário de outros anestésicos, a ketamina não desacelera a respiração ou a frequência cardíaca, então os pacientes não precisam estar em um respirador para recebê-la.

Por sua ação calmante e anestésica, equipes de emergências podem administrar a ketamina a pacientes agitados em resgates de tentativas de suicídio. Médico emergencial e fundador da Insight Ketamine, em Santa Fé, Ken Stewart conta que foi assim que os médicos começaram a perceber que a droga tinha efeitos poderosos contra a depressão e pensamentos suicidas. Segundo ele, mesmo em acompanhamentos até nove meses após a tentativa, os pacientes continuavam sem apresentar novos pensamentos suicidas.

A ketamina causa o que podemos chamar de “experiência dissociativa”, ou seja, uma viagem. Foi por isso que se tornou uma droga tão famosa em contextos sociais e de festa.

A viagem dura cerca de 2 horas, e ela pode causar:

  • sentimentos de irrealidade;

  • distorções visuais e sensoriais;

  • uma sensação distorcida sobre o corpo;

  • pensamentos e crenças temporários incomuns;

  • euforia.

Mas existem riscos de uso casual. Os mais graves são inconsciência, pressão alta e respiração perigosamente lenta. O medicamento também pode causar problemas de longo prazo, como úlceras e dores na bexiga; problemas renais; dor de estômago; depressão; e memória fraca. A ketamina pode ser fatal para pessoas que abusam do álcool ou se você tomar enquanto está bêbado. Unir compostos depressores com outros depressores pode oferecer risco de morte. Por isso, você deve sempre prestar atenção às tabelas de interação de substâncias, que sempre mostramos por aqui!

O uso casual não é um tratamento para a depressão. Mas os médicos desenvolveram um protocolo para uso terapêutico que pode ajudar as pessoas que não obtêm alívio com outros medicamentos.

tabela de interação de substâncias

Mas como exatamente ela funciona?

Na verdade, não está totalmente claro como a ketamina funciona. Por exercer um efeito antidepressivo por meio de um novo mecanismo, ela pode ajudar as pessoas a controlar a depressão com sucesso quando outros tratamentos não funcionaram – como já falamos acima.

Ainda segundo a Escola de Medicina de Harvard, um alvo provável para a ketamina são os receptores NMDA no cérebro. Ao se ligar a esses receptores, a substância parece aumentar a quantidade de um neurotransmissor chamado glutamato nos espaços entre os neurônios. O glutamato ativa as conexões em outro receptor, chamado receptor AMPA.

Juntos, o bloqueio inicial dos receptores NMDA e a ativação dos receptores AMPA levam à liberação de outras moléculas que ajudam os neurônios a se comunicarem entre si ao longo de novas vias. Conhecido como sinaptogênese, esse processo provavelmente afeta o humor, os padrões de pensamento e a cognição! Demais, né?

A ketamina também pode influenciar a depressão de outras maneiras. Por exemplo, pode reduzir os sinais envolvidos na inflamação, que tem sido associada a transtornos de humor, ou facilitar a comunicação em áreas específicas do cérebro. Muito provavelmente, ela atua de várias maneiras ao mesmo tempo, muitas das quais estão sendo estudadas.

Mas o mais importante é a rapidez de sua ação: pesquisas mostram que a substância tem um efeito robusto e rápido na depressão, que foi observada imediatamente após a administração e mantida até o final de um mês.

E como ela é usada na terapia?

Como já falamos aqui no blog, existe um protocolo de administração de psicodélicos em terapias assistidas.

No caso da ketamina, essa administração vem em várias formas. A única realmente aprovada pelo FDA até hoje como medicamento para a depressão é um spray nasal chamado esketamina (Spravato). Ele serve para adultos que não tiveram alívio em seus sintomas com antidepressivos convencionais, têm transtorno depressivo maior ou pensamentos suicidas. Eles continuam com seu antidepressivo e recebem esketamina em um consultório médico ou em uma clínica, onde um profissional de saúde os supervisiona por 2 horas após a dose.

Para depressão resistente ao tratamento, os pacientes geralmente recebem o spray nasal duas vezes por semana durante uma a quatro semanas; depois, uma vez por semana, nas semanas cinco a nove; e uma vez por semana ou duas depois disso.

Outras formas de ketamina não aprovadas pelo FDA incluem infusão intravenosa, injeção no braço ou pastilhas. A maioria das pesquisas analisa a substância administrada por via intravenosa. Ela só pode ser utilizada por via intravenosa ou com injeção em um consultório médico. Alguns médicos prescrevem pastilhas para uso doméstico – geralmente para evitar a depressão entre as sessões.

Geralmente, os pacientes começam com duas aplicações por semana, e então eles diminuem para uma por semana, e então a maioria das pessoas diminui para, eventualmente, uma a cada duas a quatro semanas. A maioria das pesquisas interrompe o tratamento inicial em seis semanas, e não existem ainda pesquisas que sugiram que mais de seis semanas consecutivas trazem mais benefícios – embora as pessoas voltem para os reforços se os sintomas retornarem.

A aplicação intravenosa dura cerca de 40 minutos. A experiência dissociativa começa rapidamente e leva cerca de 15 a 20 minutos para passar após o fim do gotejamento. Um médico está sempre presente durante todo o processo. O médico não está necessariamente na sala com a pessoa que está sendo tratada, mas está disponível se ela precisar de alguma coisa ou ficar ansiosa e confusa.

foto do medicamento esketamina, um spray antidepressivo
esketamina, spray antidepressivo
fonte: G1

E como é essa experiência dissociativa?

Essa experiência geralmente é chamada de K-hole, e é descrita como uma experiência fora do corpo; ou uma sensação intensa de estar desconectado do corpo. Alguns dizem que é como se estivessem flutuando acima do corpo. Outros sentem como se estivessem sendo teletransportados para outros lugares, ou uma sensação de “derretimento”.

Para alguns, ela é agradável. Outros acham isso assustador e o comparam a uma experiência de quase morte. Várias coisas podem afetar a forma como você experimenta um K-hole, incluindo a quantidade que você ingere, se você o mistura com álcool ou outras substâncias e o seu set/setting.

Geralmente, os efeitos psicológicos de um K-hole podem incluir:

  • sentimentos de desapego ou dissociação de si mesmo e do seu entorno;

  • pânico e ansiedade;

  • alucinações;

  • paranoia;

  • mudanças na percepção sensorial, como imagens, sons e tempo;

  • confusão;

  • desorientaçao.

Os efeitos físicos também podem ser bastante assustadores para algumas pessoas. Quando você está em um K-hole, a dormência pode tornar desafiador, se não impossível, falar ou se mover. Nem todo mundo gosta dessa sensação de impotência.

Outros efeitos físicos podem incluir:

  • tontura;

  • náusea;

  • movimento descoordenado;

  • mudanças na pressão arterial e frequência cardíaca.

Essa experiência pode ser atingida no uso casual, mas, sem um terapeuta para cuidar das fases de integração e apoio, ela pode perder seu potencial terapêutico. Mas isso não significa que não existem dicas de Redução de Danos que possam ajudar a criar uma experiência mais segura!

  • Saiba o que você está tomando. A ketamina é uma substância controlada que pode ser difícil de obter. Por isso, há uma chance de que o que você acredita ser ketamina seja na verdade um medicamento falsificado que contém outras substâncias. Os kits de teste de drogas podem confirmar o que realmente está na pílula ou no pó.

  • Não coma por uma ou duas horas antes de tomar a substância. A náusea é um efeito colateral bastante comum da ketamina, e pode ser que você vomite (ninguém quer isso né?). Isso pode ser especialmente perigoso se você não conseguir se mover ou se sentar direito. Recomendamos evitar comer por uma hora e meia a duas horas antes para reduzir essas chances.

  • Comece com uma dose baixa. Você não pode prever como uma droga vai afetar seu organismo. Comece com a menor dose possível para minimizar o risco de uma reação potencialmente perigosa. Além disso, resista ao impulso de dosar novamente até que você tenha dado a substância tempo suficiente para fazer efeito.

  • Não o use regularmente. A ketamina carrega um alto risco de desenvolver relações desafiadoras de uso.

  • Não faça isso sozinho. Tenha um amigo com você. O ideal é que essa pessoa não use ketamina com você, mas esteja familiarizada com seus efeitos. Crie um bom ambiente para esse uso também – o setting é importantíssimo!

  • Cuidado com a higiene. Uma boa higiene é importante para reduzir o risco de infecção ou lesão. Se cheirar a ketamina, faça isso em uma superfície limpa com algo estéril (ou seja, não uma nota de dinheiro). Enxágue o nariz com água quando terminar. Se estiver injetando ketamina, use uma agulha nova e estéril e nunca compartilhe agulhas. Compartilhar agulhas coloca você em risco de contrair hepatite B e C e HIV.

  • Não misture. Tomar ketamina com álcool, outras substâncias de uso adulto ou medicamentos pode causar interações perigosas. Se você toma medicamentos prescritos, é melhor evitar o uso inteiramente, a não ser que seja com acompanhamento médico.

Ketamina e saúde mental fonte: pinterest

E onde posso encontrar acompanhamento médico?

Como já falamos no post sobre terapia com psicodélicos, com o buzz ao redor desse tipo de prática, muitos novos terapeutas, gurus, retiros internacionais e clínicas estão sendo abertos – mas é preciso ter um cuidado especial na hora de selecionar quem irá conduzir a sua sessão.

No Brasil, temos a Associação Psicodélica do Brasil (APB), onde nasceu a TRIP: Terapeutas em Rede pela Integração Psicodélica. O projeto é uma rede nacional de terapeutas de formações e abordagens diversas, membros da APB, que têm em comum a experiência no cuidado a usuários de psicodélicos, seja no atendimento clínico de pessoas que fazem ou declaram interesse em fazer uso de psicodélicos, seja durante o uso (como na redução de danos em contexto de festa), ou na terapia de integração, para ajudar a elaborar experiências mais impactantes de quem já tenha feito uso de psicodélicos.

Também existem terapêutas em clínicas próprias que já oferecem esse tipo de tratamento, mas é sempre bom procurar por referências antes. Leia as análises, avalie o credenciamento e considere como você pode garantir a responsabilidade caso algo dê errado durante ou após o tratamento.

E aí, curtiu saber mais sobre essa temática? Deu vontade de se aventurar nessa nova terapia? Faça sua pesquisa e entenda se ela realmente pode ajudar você a ter uma qualidade de vida melhor. Afinal, saúde mental é sobre isso, não é mesmo?

Se você já teve uma experiência com esse tipo de terapia, conte para a gente aqui nos comentários ou lá no nosso Instagram @girlsingreen710. Vai ser muito valioso pra gente entender suas visões nesse assunto!

Até a próxima, galerinha linda!

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dioca_1@hotmail.com
8 meses atrás

Lembrei da série da Amazon, Nine Perfect Strangers. Interessantíssimo o post, parabéns!

Amanda
Amanda
8 meses atrás

Lembrei da série da Amazon, Nine Perfect Strangers. Interessantíssimo o post, parabéns!