GIRLS IN GREEN

Coluna: A Cria da Periferia

Texto por: Cinthya Santos

Hoje vim aqui escrever um texto que pode ser difícil de ler. Mas eu peço compreensão e disposição para mergulhar em uma realidade que muito provavelmente pode não ser sua

Pare… respire… e pense…

Você já reparou que existe uma constante violação de direitos de uma população específica? E que essa tem seus direitos restringidos por agentes que deveriam estar nos protegendo, como o Poder Público e o restante da sociedade?

Tem gente que está na mira da violência, e hoje nós vamos falar sobre isso…

Eu sou a Cinthya, e venho aqui compartilhar o porque me sinto uma sobrevivente.

Quero trazer aqui algumas reflexões para que nós possamos juntos pensar estratégias para minimizar e eliminar as desigualdades sociais e discriminações, e vou fazer isso a partir de histórias reais que vivo no meu dia dia, sendo como moradora da periferia e também como agente de transformação em vários espaços que ocupei e ocupo.

Sabe aquela frase “isso é coisa de pobre”?

Hoje quero dar a luz para um tipo de violência que a sociedade em geral, desde pessoas a instituições, são responsáveis pela reprodução e manutenção.

Comecei atuar com vulnerabilidade social no final de 2015 (indo para o 5º semestre de Psicologia). Foi quando me vi dentro de uma ocupação de moradia sob domínio do comércio varejista de venda de substâncias ilícitas, conhecido como Tráfico de Drogas – ou Artigo 33, segundo nossa legislação.

O cenário era: a maioria da população preta, com acesso à educação limitada, desde as crianças até adultos com ensino fundamental incompleto, boa parte das pessoas com passagem pelo sistema prisional, famílias que ganhavam 60 reais do bolsa família por mês, alto índice de contágio de HIV, gravidez na adolescência, violência contra mulher… a nítida cena de um território desprotegido.

E por que essas pessoas que formam esse cenário vulnerável têm características tão parecidas?

Resposta: a pobreza e a criminalidade precisam estar sempre atreladas para justificar a desproteção e a violência sem a indignação popular.

Te sugiro que agora tire o óculos que dá nome às coisas e, assim, enxergue a realidade que está como plano de fundo de TODAS – senão todas, boa parte – das problemáticas excludentes da sociedade.

Pode ser difícil ler isso, mas: a escravidão não acabou, e as ocupações de moradia são os novos quilombos.

Você pode não concordar e sentir que essa talvez não seja a sua realidade, mas te convido a uma imersão na minha.

E prometo que nao vai doer nada… a não ser que você tenha empatia pelo próximo.

Minha família, que antes vivia em barracos em área de ocupação de moradia, se mudou para uma casa de alvenaria antes de eu nascer. Essa casa ficava em meio a conflitos entre moradores e policiais. A calçada, lavada de sangue quase todo dia, era o cenário em que vivemos até o início dos anos 2000.

Nasci em Diadema, na Favela Naval. Flertei com a guerra às drogas e a violação de direitos desde o primeiro dia fora do útero. Tiroteios, chacinas e corpos carbonizados somavam junto ao produto de um projeto político iniciado no período pós-abolição da escravatura: a necessidade do branco em criar mecanismos legais para controle de corpos pretos, periféricos e marginalizados.

A violência só se dá e se mantém no campo da desproteção, e entender essa violência requer que se olhe com carinho para a maior camada da população, que, quando somada, damos forma à “minoria” com relação a acesso a direitos e possibilidades de escolhas. Sou cria desses espaços, onde a moradia foi ocupada a partir da necessidade e faltas de possibilidades de escolha dessa sociedade escravocrata!

Ação da Cinthya na Favela do Boi, mostrando um cartão à uma senhora Fotos: Thaina Prado
Ação da Cinthya na Favela do Boi. Fotos: Thaina Prado

Li em Vigiar e Punir que Foucault (1987) explicita uma das maneiras que foram encontradas para que determinada cidade se mantivesse sobre total dominação. Assim foi criado, por Bentham, o Panoptismo, um sistema de vigilância e controle, dispositivo esse que propicia a visibilidade e o controle social.

“Em primeiro lugar, um policiamento estrito: fechamento, claro, da cidade e da “terra”, proibição de sair sob pena de morte, fim de todos os animais errantes; divisão da cidade em quarteirões diversos onde se estabelece o poder de um intendente. Cada rua é colocada sob a autoridade de um síndico; ele a vigia; se a deixar, será punido de morte. No dia designado, ordena-se todos eu se fechem em suas casas: proibido sair sob pena de morte”. (FOUCAULT, 1987)

A falsa liberdade concedida ao povo preto reflete nas estruturas de instituições e relações até nos dias de hoje. Vamos fazer um teste rápido?

Nos noticiários, você já reparou ou tem a impressão que a maior parte das pessoas que cometem crime são preta e moradoras de periferia?

Você muda de calçada quando vê alguém preto em sua direção?

Ou pessoas com trajes e estereótipos de quebrada?

Sente um medo e tremor involuntário?

Isso faz parte da naturalização à criminalização da pobreza!

Um pacote de conceitos, comportamentos e ações que advém de uma sociedade projetada para ser desigual, gerando uma população sobrante. E, para dar conta dessas sobras, criam-se políticas públicas de segurança e encarceramento.

Muitas vezes, por não ter o básico, o corpo acaba se alimentando da raiva e revolta, tudo que querem que nós cultivemos dentro de nossos territórios, intensificadores para qualquer aparelho de poder, para produzir um Estado de constante insegurança e de apoio às práticas de violência e punição.

Em 2016, passei para um concurso de estágio com contrato de 2 anos pela Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, na Central de Penas e Medidas Alternativas de Campinas, equipamento vinculado a Coordenadoria de Reintegração Social e Cidadania. Me vi vivenciando prisões, vulnerabilidades e realidades que não eram mais de pessoas do meus convívio social comunitário, mas sim se transferindo para minha prática profissional.

Ação da Cinthya nos corredores da Favela do Boi
Ação da Cinthya na Favela do Boi. Fotos: Thaina Prado

E sabe qual foi minha sensação? Identificação!

O cenário só confirmava tudo que escrevi até agora. E, pasme, nem aqueles que são atendidos esperam que alguém o acolha como igual!

A Psicologia é uma das ferramentas que me possibilitou uma maior compreensão da minha realidade, das brechas que o Estado mantém para nos dominar e da falta de interesse popular em diminuir esse ciclo de violência!

Quem vigia e pune faz parte do projeto político que, até hoje, se perpetua para o controle de corpos e dominação social, julgando os indivíduos pelo seu CEP e por quem se é, não pelo ato que tenha cometido de fato!

A real é que eu perdi as contas de quantas vezes eu vi um revólver apontado na minha cara e na cara dos meus. Só por estarmos em um ambiente público que não fica no território da nossa quebrada.

Eu queria mesmo era perder o medo, não as contas.

Qual foi a última vez que você se preocupou se seria expulso de determinado lugar, só porque não era no seu bairro?

Córrego poluído com barracos na margem
Ação da Cinthya na Favela do Boi. Fotos: Thaina Prado

Nós, moradores de periferia, estamos na mira da bala perdida, coerção e punição. Muito se fala sobre a guerra à drogas ser um projeto para “dar certo” e “acabar com a  criminalidade”, mas a verdade é que essa guerra é feita contra PESSOAS, e não substâncias. Afinal, se o humano não colocar ela na boca, ela não vai parar ali sozinha, não é mesmo?

A pandemia é só um agravante para dificultar a vida da população. A verdadeira pandemia que mata todo dia está na rua, concursado do Estado com aval e validação popular para nos eliminar.

Eita Cinthya, percebi que tenho vários conceitos que contribuem para uma sociedade excludente e punitiva, será que também sou responsável por isso?

Todos nós somos. A responsabilidade é coletiva!

E agora, o que eu faço pra minimizar e eliminar essas violências e desigualdades?

Como uma sobrevivente, quero trazer histórias reais, de entes queridos que estão aqui comigo e aqueles que não sobreviveram a esse projeto. E, assim, trazer mais pra perto de vocês a questão do por quê relações são mediadas pela violência e opressão, e qual é o desejo por trás de manter esses ciclos.

Minimizar e eliminar as desigualdades requer reconhecer e abrir mão de privilégios, entendendo que outros têm o mesmo direito que você. Direito aos espaços lazer, cultura, educação, saúde, segurança…

Sua contribuição está na hora que você é ouvinte, e também quando pontua pessoas em seu entorno sobre as discriminações que cometem.

“Isso é coisa de pobre”.

Rebata: O que é ser pobre pra você?

E coisa de rico é ficar discriminando o outro?

Você pode contribuir com nossa luta refletindo sobre qual sua posição na sociedade e quais são suas ações diárias para a construção de espaços comuns que possibilitem o nosso acesso. A dívida é imensa, e nós estamos atrás dos ACERTOS!

Cinthya Santos

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meriscala@gmail.com
1 ano atrás

eu to toda arrepiada

moacir.mecatronica@gmail.com
1 ano atrás

É muito bom, encontrar uma matéria que fala sobre a periferia, sobre a discriminação e sobre o Estado proibicionista no qual vivemos, ou melhor dizendo, sobrevivemos.
Deixo aqui meus parabéns, que possamos sempre estar sendo presenteados pelos seus trabalhos.

meriscala@gmail.com
1 ano atrás

eu to toda arrepiada

moacir.mecatronica@gmail.com
1 ano atrás

É muito bom, encontrar uma matéria que fala sobre a periferia, sobre a discriminação e sobre o Estado proibicionista no qual vivemos, ou melhor dizendo, sobrevivemos.
Deixo aqui meus parabéns, que possamos sempre estar sendo presenteados pelos seus trabalhos.

meriscala@gmail.com
1 ano atrás

eu to toda arrepiada

moacir.mecatronica@gmail.com
1 ano atrás

É muito bom, encontrar uma matéria que fala sobre a periferia, sobre a discriminação e sobre o Estado proibicionista no qual vivemos, ou melhor dizendo, sobrevivemos.
Deixo aqui meus parabéns, que possamos sempre estar sendo presenteados pelos seus trabalhos.

maria
maria
1 ano atrás

eu to toda arrepiada

Moacir
Moacir
1 ano atrás

É muito bom, encontrar uma matéria que fala sobre a periferia, sobre a discriminação e sobre o Estado proibicionista no qual vivemos, ou melhor dizendo, sobrevivemos.
Deixo aqui meus parabéns, que possamos sempre estar sendo presenteados pelos seus trabalhos.