Cultura

Salvia divinorum: O que é e para que serve?

Queimar sálvia pode ter vários significados, não é mesmo? Vem aqui com a gente entender porque essa erva se tornou tão popular, principalmente entre jovens americanos.

Menta Mágica, Maria Pastora, Sally-D… A Salvia divinorum tem vários nomes por aí. Ela se tornou bem popular nos últimos anos por ser uma alternativa “legal” aos alucinógenos comuns, como LSD e cogumelos. Inclusive, por ser fumada, muita gente acha que ela pode substituir a maconha — mas seus efeitos são bastante diferentes. 

A sálvia é nativa do sul do México, e cresce também em outras partes da América Central e do Sul. Lá, tem sido usado em cerimônias tradicionais pelos indígenas mazatecas há séculos.

E a gente já conhece essa história: diversas plantas e substâncias sagradas, como a mescalina, a psilocibina e a ayahuasca, também já passaram por processos de esvaziamento cultural simplesmente por provocar as “viagens” que muita gente procura. Nós acreditamos que elas devem ser usadas com respeito, responsabilidade e consciência — e tudo isso nasce na informação.

Por isso, hoje, viemos contar a você o que é e para que serve a Salvia divinorum, essa plantinha muito especial. Vem com a gente entender!

Ilustração botânica colorida da Sálvia Divinorum
Ilustração botânica da Sálvia Divinorum Fonte : Wikipedia

O que é a sálvia?

A Salvia divinorum é uma erva mexicana psicoativa perene da família Lamiaceae, mais comumente conhecida como família da menta. Pesquisas apontam que suas origens tenham sido o território que hoje é conhecido como Oaxaca, no México. E, embora tenha havido tentativas de cultivar a planta nos Estados Unidos, ela é nativa da Sierra Mazateca, onde cresce selvagem em ravinas muito úmidas e terras altas isoladas. 

Essa planta floresce em áreas sombreadas, cobertas e úmidas irregularmente de outubro a junho de cada ano. O povo indígena mazateca do México habita essa área, e até hoje usa a planta para fins cerimoniais. Para eles, o uso histórico de Salvia divinorum ainda permanece inalterado — e é profundamente espiritual.

Conta-se que seu nome, “divinorum”, significa “do vidente” e refere-se ao seu uso tradicional na adivinhação medicinal. Suas características psicodélicas e alucinógenas tornam a planta única e sagrada para o povo Mazatec.

Seu ingrediente ativo é a salvinorina A. Seus efeitos incluem:

  • Distorções visuais e alucinações;
  • Intensa dissociação e desconexão da realidade;
  • Desorientação ou tontura;
  • Sinestesia (“ouvir” cores ou “cheirar” sons)
  • Imagens semelhantes a desenhos animados;
  • Humor melhorado;
  • Riso incontrolável.

Esses efeitos da sálvia não duram tanto — geralmente cerca de oito minutos — e depois diminuem.

Tríptico de fotos coloridas de folhas de Sálvia Divinorum, flor e folhas  secas e trituradas, para fumar
A) Planta da Sálvia Divinorum B) Flor da Sálvia Divinorum C) Folhas secas e trituradas, para fumar Fonte:mdpi.com

Como a sálvia é consumida?

As pessoas tomam sálvia de várias maneiras, e ela pode ser:

Fumada em cachimbos, bongs, vapes ou baseados.

Mastigada, quando consumida em folhas frescas.

Bebida, em formato de extratos potentes.

Sublingualmente através de gotas de tintura colocadas sob a língua.

A sálvia normalmente cresce até mais de um metro de altura, com flores brancas e roxas e grandes folhas verdes em forma de pá que se parecem com a hortelã, sua prima próxima. 

E, como a gente já mencionou, além do fato de ser verde e fumada, a sálvia não tem nada em comum com a maconha. Portanto, não enxergamos como uma pode substituir o uso da outra quando o assunto é efeito. Se você deseja os benefícios medicinais e/ou terapêuticos da cannabis, a sálvia não é uma opção!

A sálvia pode ser vendida como sementes, folhas ou como um extrato líquido e, ao ser queimada, tem cheiro de incenso.

Como a sálvia pode ser dosada?

A quantidade de sálvia que é segura para ingerir depende do tipo de sálvia que você vai usar. A sálvia é potente, então pequenas doses podem produzir efeitos alucinógenos. O National Drug Intelligence Center (NDIC) recomenda não mais do que 500 microgramas, ou 0,0005 gramas.

  • Se você estiver fumando folhas secas, uma dose de 1/4 grama a 1 grama é considerada segura para consumo.
  • Se você usar extratos, menos é mais. O NDIC recomenda que quanto maior a concentração do extrato, menor a dose. Por exemplo, 0,1 a 0,3 gramas de extrato de sálvia 5x podem ser considerados seguros. Se você tentar o extrato de sálvia 10x, uma faixa segura pode estar entre 0,05 e 0,15 gramas.
  • Se você optar por mastigar folhas frescas de sálvia, uma dose de cerca de cinco folhas é considerada segura.
Homem deitado no chão de olhos fechados, vestido com poncho étnico, vivencia experiência com Sálvia Divinorum
Experiência com Sálvia Divinorum no México Fonte: Vice

O que a sálvia nos faz sentir?

O ingrediente ativo da erva sálvia é a salvinorina A, uma substância química que atua em certos receptores no cérebro e causa alucinações. Segundo pesquisas, somente quando uma quantidade suficiente de salvinorina A é absorvida pela mucosa oral ou pelos pulmões e entra na corrente sanguínea é que um efeito psicoativo pode ser produzido.

Algumas pessoas comparam fumar sálvia a “apertar um botão”: em poucos instantes, tudo muda do normal para um senso alterado de realidade e autoconsciência. Usuários costumam descrever os efeitos como uma “viagem de ácido de 20 minutos”, que pode começar menos de um minuto depois de fumar a erva. Essa curta duração atrai usuários iniciantes que têm medo de fazer uma viagem de horas. É tipo uma experiência versão pocket.

Acredita-se que a sálvia muda a interocepção, ou seja, a experiência do que está acontecendo em seu corpo. A erva cria sentimentos de desorientação e incerteza sobre o que é real.

Muitas pessoas que experimentam a sálvia não gostam, descrevendo a experiência como intensa, perturbadora e assustadora – nada divertida ou eufórica.

Molécula da Salvinorina
Molécula da Salvinorina A Fonte: Wikipedia

O que dizem os especialistas

De acordo com o Center for Substance Abuse Research, a salvinorina A é o alucinógeno natural mais potente. Por isso, todo cuidado é pouco para não sair da caixinha demais.

E um fato curioso: a salvinorina A é, tecnicamente, um terpeno!

Ainda está sendo estudado como a sálvia age no cérebro, mas sabe-se que ela altera o processo de sinalização dos neurônios no cérebro ao se ligar a receptores de células nervosas, os chamados receptores opioides kappa. Ela também influencia os receptores de dopamina.

No início dos anos 2000, você pode lembrar que vários adolescentes gravavam suas experiências com sálvia e divulgavam os vídeos (alguns chegaram a ter mais de 500.000 visualizações no YouTube). Mas, aparentemente, a popularidade da sálvia diminuiu entre os mais jovens desde então.

O estudo Monitoring the Future de 2018, com alunos da oitava, décima e décima segunda série nos Estados Unidos, mostrou que menos de 1% dos adolescentes usam sálvia. Pelo menos de acordo com suas entrevistas!

Foto colorida de um curandeiro e um psiconauta segurando folhas de Sálvia Divinorum, com parede de pedras ao fundo
Curandeiro e psiconauta segurando folhas de Sálvia Divinorum no México Fonte: Vice

Usos off-label da Salvia divinorum

A sálvia tem sido tradicionalmente usada pelos xamãs como uma ferramenta de cura e adivinhação. Mas não é só isso! De acordo com Daniel J. Siebert, que pesquisou a sálvia por mais de 20 anos, a erva foi usada para induzir um estado de transe visionário que possibilitou a esses curandeiros determinar a causa subjacente de doenças e aprender quais medidas tomar para remediá-las.

Neste momento, não há uso medicinal e terapêutico para a sálvia. No entanto, pesquisas estão em andamento para investigar o uso de salvinorina A no tratamento de demência e doença de Alzheimer, bem como de “dependências”.

Existe algum risco relacionado ao uso de sálvia?

Muitos dos efeitos da salvinorina A levantam preocupações sobre os perigos de dirigir sob a influência da sálvia. Além disso, qualquer substância que deixe o usuário incapacitado durante o tempo de ação aumenta o risco de ferimentos graves ou acidentes.

Não está claro se houve alguma morte associada à sálvia. O Observatório Europeu de Drogas e Toxicodependência observa que relatórios de emergência descreveram psicose duradoura em pessoas vulneráveis. Pelo menos um suicídio foi atribuído à sálvia. Ou seja: seu uso é desaconselhado caso você tenha um histórico de psicose ou outros distúrbios mentais.

Os efeitos a longo prazo do uso da droga também não são conhecidos. No entanto, estudos com animais mostraram que a sálvia pode prejudicar o aprendizado e a memória.

E aí, gostou dessas informações? Deixa aqui um comentário caso você já tenha passado por alguma experiência com essa substância e queira contar para a gente um pouquinho mais sobre como você se sentiu. A gente adora saber dos relatos, e acreditamos que eles nos ajudam a entender um pouco mais os efeitos de cada droga.

Não esquece de nos seguir lá no Instagram @girlsingreen710 para saber mais sobre uso de drogas, maconha, haxixe, Redução de Danos e muito mais.

Até a próxima!

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Jorge Luis Fernandes quarto
Jorge Luis Fernandes quarto
10 meses atrás

Salve ! Muito boas as informações.. aprendi muito sobre essa planta !

Eduardo
Eduardo
4 meses atrás

Ótimo conteúdo, obrigado! Sabe onde posso conseguir?