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Embora tenha sido muito utilizada por civilizações ancestrais e ainda seja comum entre povos nativos, a psicoterapia assistida com psicodélicos é relativamente nova na cultura ocidental. Vamos falar sobre essas possibilidades?

A terapia psicodélica assistida, ou PAP, pode até parecer papo recente – mas ela é muito mais antiga do que imaginamos. As cerimônias de cura xamânicas, práticas ancestrais cheias de significado, são também uma forma de terapia. A maior diferença entre elas e a terapia psicodélica moderna é que, na segunda, o uso de psicodélicos é normalmente combinado com a psicoterapia.

Uma série de substâncias psicodélicas que alteram a consciência estão sendo usadas ou pesquisadas para fins terapêuticos em ambientes clínicos e não clínicos. Alguns são derivados de plantas, como psilocibina (cogumelos mágicos), DMT, peyote, ayahuasca e ibogaína. Outros – incluindo ketamina, MDMA e LSD – são compostos químicos. Muitas dessas substâncias, como o MDMA e o LSD, já tiveram seus potenciais muito explorados pela ciência, e essa onda vem como uma retomada, após tanto tempo de banimento devido à Guerra às Drogas.

Ultimamente, o movimento ao redor da regulamentação e legalização de certas substâncias psicodélicas têm trazido à tona o potencial das mesmas dentro da pesquisa psicofarmacológica. E nós, como mulheres antiproibicionistas, não poderíamos estar mais felizes com essa revolução! Afinal, em um mundo onde mais de 700 milhões de pessoas sofrem com condições relacionadas à saúde mental, encontrar alternativas eficazes para o tratamento se torna uma missão fundamental na área da psiquiatria.

Aqui nesse texto, vamos falar sobre o que já sabemos sobre a psicoterapia assistida com psicodélicos, como ela funciona, quais substâncias são pesquisadas e para quais condições ela já é uma possibilidade.

Vamos lá?

fonte: pinterest

O que é a psicoterapia assistida com psicodélicos?

De acordo com o Manual de Yale para terapia assistida por psilocibina, o termo “psicoterapia psicodélica assistida” se refere a um tipo de uso substâncias psicodélicas nas quais os efeitos da droga, tanto biológicos quanto psicológicos, desempenham um papel significativo na facilitação de uma intervenção psicoterapêutica, que começa antes do sessão de dosagem psicodélica e continua depois dela.

As terapias psicodélicas têm certas características comuns reconhecíveis. A modalidade terapêutica dá ênfase:

  • Ao set and setting;

  • À preparação;

  • À integração;

  • À criação de um suporte terapêutico para focar e enquadrar os efeitos da droga psicodélica;

  • E à criação e manutenção de uma forte aliança terapêutica.

E o que acontece nelas?

Tradicionalmente, a terapia psicodélica assistida é composta por três partes: preparação, suporte e integração.

Sessões preparatórias, que ocorrem antes da sessão de medicação, cumprem várias tarefas importantes. Nelas, os terapeutas devem desenvolver relacionamento terapêutico com o participante, além de reunir informações sobre ele e sua história, fornecer psicoeducação sobre a experiência psicodélica e explicar a abordagem terapêutica a ser usada. Essas sessões ainda buscam esclarecer as expectativas da sessão de medicação, incluindo a logística da sessão (quanto tempo vai durar, o tipo de música a ser utilizada), e para delinear limites aceitáveis de interação entre o participante e o terapeuta.

Suporte, neste contexto, se refere à postura de apoio assumida pelos terapeutas enquanto acompanham os participantes durante as sessões de drogas experimentais. Em estudos com psilocibina, por exemplo, os terapeutas geralmente encorajam os participantes a terem um experiência durante as sessões de dosagem e fornecem suporte emocional ou incentivo para que eles se envolvam com pensamentos, sensações ou memórias difíceis que surgem no caminho. Eles também garantem a segurança e auxiliam o participante no atendimento de suas necessidades.

A fase de integração geralmente começa no dia seguinte à sessão de dosagem e envolve uma revisão completa da experiência do participante durante a sessão de dosagem. Em alguns casos, também pode ocorrer a aplicação de técnicas terapêuticas para reforçar aspectos particulares da experiência, de modo que eles promovam a sustentação de padrões de pensamento e comportamento desejáveis. Em outras palavras, a integração pode ser entendida como a continuação de um processo terapêutico que começou durante as sessões de preparação, e intensificado durante uma experiência psicodélica. O papel do terapeuta é facilitar o processo de integração e ajudar a consolidar a mentalidade recém-desenvolvida.

Arte: Dewey Saunders

E o que ela torna possível tratar?

Entre as décadas de 1950 e 1970 – antes que o ex-presidente americano Richard Nixon os proibisse com a Lei de Substâncias Controladas e a declaração deu início a Guerra às Drogas que conhecemos até hoje – os cientistas produziram uma série de evidências verificando e apontando para o potencial terapêutico da terapia psicodélica para tratar:

  • Vício e dependências;

  • Condições de saúde mental como depressão e ansiedade;

  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Como já falamos acima, nos últimos anos, o interesse e o investimento renovados têm alimentado pesquisas adicionais – e muitas delas ainda estão em andamento. Mas, por enquanto, já temos uma lista com os usos potenciais de vários psicodélicos!

Ketamina

A ketamina é a droga psicodélica mais estudada para tratamentos relacionados à saúde mental. Sabia disso? (Guardem os memes de cavalo, pessoal!) Em doses baixas, a substância demonstrou ser benéfica em vários estudos que exploram seu potencial para tratar a depressão – mas, segundo as evidências encontradas, seus efeitos são de curta duração.

Para pessoas com depressão severa, por exemplo, pesquisas mostram uma melhora significativa após o tratamento e os resultados duram cerca de 6 a 8 semanas, em média.

Essas descobertas levaram ao desenvolvimento de uma droga chamada Spravato, um spray nasal que fornece o ingrediente ativo da ketamina. No entanto, a administração intravenosa de ketamina é considerada mais eficaz e menos cara.

MDMA

Vários ensaios clínicos de fase 2 – que são feitos para discernir se um tratamento funciona – sugerem que o MDMA pode tratar os sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático por até 4 anos. A gente até já falou sobre essa temática por aqui!

Os pesquisadores também concluíram um ensaio de fase 3, que determina se um tratamento funciona melhor do que o que está disponível atualmente, envolvendo terapia assistida por MDMA para TEPT. Este foi o primeiro ensaio de fase 3 de qualquer terapia psicodélica assistida.

E olha só que incrível: entre 90 participantes com TEPT grave, 67% já não se qualificaram para um diagnóstico de TEPT após três administrações e 88% tinham sintomas reduzidos do transtorno.

O patrocinador do estudo, a Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, afirma que os resultados podem abrir caminho para a aprovação da Food and Drug Administration (FDA) até 2023.

Psilocibina

A psilocibina, substância presente em diferentes espécies de cogumelos mágicos, tem diferentes poderes – especialistas acreditam que ela pode ajudar a tratar diversas condições – que vão de comportamentos relacionados à “dependência”, além de depressão e ansiedade existenciais em pacientes terminais.

Em um estudo de 2017 analisando o uso do tabaco, ela produziu resultados impressionantes que ultrapassam de longe qualquer opção de tratamento convencional. 12 meses após a experiência, 67% dos participantes estavam livres do fumo. A substância, em 2015, também foi eficaz ao tratar um grupo de indivíduos com problemas relacionados ao consumo de álcool.

Outro estudo de acompanhamento relatou que, seis meses após a sessão com psilocibina, 31% dos participantes com depressão resistente ao tratamento relataram efeitos antidepressivos duradouros. Um estudo de acompanhamento de seis meses revelou uma mudança de uma sensação de desconexão (de si mesmo, dos outros e do mundo) para a conexão, e de um estado de bloqueio emocional para aceitação e início de um processo interno.

Enquanto isso, três estudos separados, na UCLA, Johns Hopkins e NYU, exploraram o potencial da psilocibina para tratar a ansiedade existencial em pacientes com câncer em estado terminal. Eles construíram a base de evidências mais forte, de longe, para qualquer indicação contra a qual a psilocibina já foi testada. Não apenas uma única experiência com psilocibina foi considerada altamente eficaz na maioria dos participantes, os benefícios também parecem ser altamente duradouros, com efeitos antidepressivos e ansiolíticos sustentados.

LSD

O LSD foi muito usado entre os anos 1950 e 1970 para alcançar mudanças comportamentais e de personalidade, bem como remissão de sintomas psiquiátricos em vários transtornos – como ansiedade, depressão, doenças psicossomáticas e dependência. Durante esse tempo, também foi observado que o LSD, junto de um acompanhamento adequado durante sua administração, pode reduzir a dor, ansiedade e depressão em pacientes com câncer avançado.

Outros estudos envolvendo amostras maiores de pacientes também estabeleceram sua segurança e resultados promissores em pacientes com câncer terminal. Atualmente, essas pesquisas foram retomadas até mesmo por brasileiros.

A Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS) está dando seguimento a pesquisas sobre o uso acompanhado de LSD durante sessões de psicoterapia. O estudo piloto de Fase 2, concluído em 12 indivíduos, encontrou tendências positivas na redução da ansiedade após duas sessões de psicoterapia assistida por LSD. Os resultados do estudo também indicam que a psicoterapia assistida por LSD pode ser administrada com segurança nesses sujeitos e justificam pesquisas futuras.

De acordo com a associação, a MAPS está interessada nesta substância por seu potencial para ajudar pessoas com uma variedade de condições, focando principalmente no tratamento da ansiedade associada a doenças fatais, bem como para usos espirituais, criatividade e crescimento pessoal.

Existem também estudos que descobriram o potencial do LSD em “harmonizar” o cérebro, fazendo uma espécie de reset no órgão – algo muito promissor para indivíduos que sofrem com depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Ayahuasca

Em estudos aqui no Brasil, pesquisadores observam a possibilidade do uso da ayahuasca como tratamento para a depressão. E, embora sejam muito promissores, para Luis Fernando Tófoli, professor do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e um dos coautores do trabalho, ainda é necessário averiguar as causas da melhora apresentada pelos pacientes envolvidos. Entre as possibilidades estão a experiência holística e emocional associada aos psicodélicos, o aspecto ritualístico e terapêutico da situação ou até mesmo o efeito fisiológico da substância, como a redução da atividade cerebral em áreas associadas à depressão ou o estímulo na formação de sinapses (conexões entre neurônios).

Um de seus outros usos modernos é na recuperação de pessoas que fazem uso problemático de substâncias. Existem muitos centros que realizam esse tipo de tratamento, tanto no Brasil quanto no Peru e em outros países da América do Sul, e pesquisas apontam que a substância pode ser mais do que uma mera “terapia de substituição”.

LSD, beck e cogumelo

Quais são os riscos dessas terapias?

Assim como qualquer tratamento com uso de medicação, a psicoterapia assistida com psicodélicos pode conter alguns riscos.

Alguns especialistas expressaram preocupação com o aumento da automedicação, principalmente depois que a Pesquisa Global de Drogas de 2020 mostrou um aumento no número de pessoas que afirmam estar tratando com psicodélicos vários problemas de saúde mental por conta própria. Muitas dessas preocupações surgem da potencial contaminação de substâncias que não vêm para uma fonte testada em laboratório, juntamente com a falta de supervisão médica.

Caso contrário, as substâncias psicodélicas são geralmente consideradas de baixo risco, especialmente quando usadas em um ambiente clínico.

O MDMA pode, às vezes, causar pressão alta em curto prazo, aumento da frequência cardíaca e temperatura corporal elevada, mas esses efeitos geralmente desaparecem após o uso.

A psilocibina também pode elevar temporariamente a pressão arterial ou causar leves dores de cabeça.

Dito isso, os psicodélicos foram associados a um risco aumentado de psicose em pessoas com transtornos psicóticos ou uma predisposição a eles.

Há também o risco, particularmente com o uso de LSD, de distúrbio de percepção persistente de alucinógeno (HPPD). Esta é uma condição rara que envolve flashbacks intensos e alucinações. No entanto, os especialistas observam que ele parece ser mais comum quando se usa substâncias sem supervisão médica.

Existem algumas preocupações sobre a ibogaína, incluindo uma possível ligação com arritmias cardíacas potencialmente fatais. Como resultado, a substância tem sido limitada a testes de observação até agora com foco no tratamento da dependência de opioides.

Como posso ter acesso a esses tratamentos?

Há muita empolgação em torno do potencial das terapias psicodélicas. Como resultado, muitos novos terapeutas, gurus, retiros internacionais e clínicas estão sendo abertos – mas é preciso ter cautela na hora de selecionar quem irá conduzir a sua sessão.

Se você estiver interessado em participar de um tratamento psicodélico assistido em um ambiente clínico, com o apoio de um especialista, um bom lugar para começar é em universidades e locais onde são feitas as pesquisas com esse tipo de substância – a Alice já até participou de uma delas, e ainda vai contar essa experiência para a gente.

No Brasil, temos a Associação Psicodélica do Brasil (APB), que foi criada em 2015 por um grupo de usuários e usuárias, profissionais, ativistas e pesquisadores e pesquisadoras. Juntos, eles conceberam a TRIP: Terapeutas em Rede pela Integração Psicodélica. O projeto é uma rede nacional de terapeutas de formações e abordagens diversas, membros da APB, que têm em comum a experiência no cuidado a usuários de psicodélicos, seja no atendimento clínico de pessoas que fazem ou declaram interesse em fazer uso de psicodélicos, seja durante o uso (como na redução de danos em contexto de festa), ou na terapia de integração, para ajudar a elaborar experiências mais impactantes de quem já tenha feito uso de psicodélicos.

Outro lugar para ficar de olho é o Chacruna (Institute for Psychedelic Plant Medicines). Criado pela pesquisadora brasileira Beatriz Labate, o instituto oferece educação pública e compreensão cultural sobre medicamentos de plantas psicodélicas, além de ser uma ponte entre o uso cerimonial de plantas sagradas e a ciência psicodélica.

Seja um ambiente clínico ou um retiro, é importante entender que a ingestão de substâncias psicodélicas altera a consciência e pode torná-lo vulnerável.

Como resultado, alguns participantes de estudos ou tratamentos alegaram comportamento antiético e, às vezes, até mesmo criminoso. Leia as análises, avalie o credenciamento e considere como você pode garantir a responsabilidade caso algo dê errado durante ou após o tratamento.

E aí, curtiram saber mais sobre essa temática que promete trazer muitos avanços na área da saúde mental? Nós estamos ansiosas para que a psicoterapia assistida com psicodélicos se torne algo mais acessível, para que os testes e estudos sigam encontrados possibilidades de tratamentos que não envolvam os meios tradicionais – como ansiolíticos e antidepressivos pesados.

E vocês, o que acham disso? Nos contem aqui nos comentários e não esqueçam de nos seguir no Instagram @girlsingreen710 para ficar por dentro das novidades!

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Cristiane Fernanda
Cristiane Fernanda
2 meses atrás

Olá, eu estou muito interessada na possibilidade de fazer esse tratamento com o LSD. Hoje tenho 38 anos e carrego muito trauma, há anos estou lutando com a depressão e ansiedade o que me levaram a conhecer e ser controlada por vícios. Tais esses que estão destruindo