GIRLS IN GREEN

A discussão sobre o uso terapêutico e medicinal da cannabis não é apenas para humanos, e os tratamentos veterinários já são uma realidade. Ela pode ajudar nossos amiguinhos em diversas situações. Entretanto, é bem importante que você mantenha o seu consumo pessoal longe deles para não ocorrer um consumo acidental! Aqui, a gente explica os motivos.

Quando adotamos um bichinho de estimação, queremos sempre o melhor para ele – desde que são pequeninos até seus últimos anos. E, conforme a idade deles vai avançando, problemas como artrite, artrose, falta de apetite e até outros mais sérios podem aparecer. Atualmente, temos mais um meio de ajudá-los a lidar com isso: a cannabis e alguns produtos feitos a partir dessa planta especial têm se mostrado promissores em diversos tratamentos veterinários.

Mas o que se sabe sobre a ciência da medicina canábica e animais de estimação?

Desde a regulamentação da cannabis em alguns estados americanos, as pesquisas passaram a aumentar: em julho de 2018, o primeiro estudo clínico examinando os efeitos do canabidiol à base de cânhamo em cães artríticos foi publicado na Frontiers in Veterinary Science, um importante jornal internacional. Os resultados foram extremamente encorajadores, e vamos falar sobre eles mais adiante no texto.

Mas nem tudo são flores também: a maconha pode ajudar os pets quando prescritas por profissionais da área e com produtos específicos, como óleos e extratos, mas você não pode de forma alguma medicar seu bichinho sem conversar com um veterinário. Além disso, um risco grande em relação à maconha e pets como cães e gatos é o consumo acidental da maconha de seus donos, algo que pode ser extremamente perigoso.

Aqui, vamos contar um pouco mais sobre a relação entre animais e a nossa plantinha favorita, e como ela pode ajudar ou atrapalhar a saúde deles, caso seja usada de maneira errada. Além da situação da cannabis medicinal na veterinária no Brasil. Vem com a gente!

pets e maconha

O que dizem as pesquisas?

O estudo que mencionamos acima, intitulado “Farmacocinética: segurança e eficácia clínica do tratamento com canabidiol em cães com osteoartrite”, mediu os efeitos de um determinado produto de canabidiol à base de cânhamo – mistura de óleo de cânhamo de propriedade da ElleVet Sciences – na dor e artrite em uma pequena amostra de cães. Os resultados foram notáveis: mais de 80% dos cães no estudo viram uma redução significativa na dor e tiveram a mobilidade melhorada.

Outro estudo mais recente, de 2019, mostrou que o CBD também pode ser uma forma viável de tratamento para animais com episódios convulsivos – assim como para os humanos. Embora sejam poucos, eles já abrem caminho para mais descobertas sobre dosagens ideais e também sobre as diversas formas como o canabidiol pode ajudar nossos pets a terem mais qualidade de vida.

A boa notícia é que vários veterinários têm adotado e prescrito o CBD pelos seus benefícios, e eles não são observados apenas em cães (mães e pais de gatos, estou falando com vocês). De acordo com a Dr. Angie, da Boulder Holistic Vet, os bichanos também podem ter melhora em diversos quadros clínicos e comportamentais com a ajuda da substância!

Embora muitas das pesquisas iniciais falem bastante sobre o CBD, já existem estudos com medicamentos full spectrum, como o Sativex e o Bedrocan. Após o tratamento, foram avaliados o níveis de CBD e THC no organismo, o tempo que os mesmos levam para eliminar essas substâncias e se haveria possibilidade de acúmulo. Ambos os estudos demonstraram que os cães toleram bem o tratamento, o que é um ótimo indicativo para canabistas mães e pais de pets!

O que preferir: canabinoides isolados ou full spectrum?

Aqui no blog, sempre falamos sobre como os óleos full spectrum são a melhor opção devido ao efeito entourage. Mas vemos muitas pesquisas falando sobre o uso de CBD isoladamente por um motivo principal: a legislação americana.

A maconha é atualmente legal apenas em alguns estados dos EUA, e os produtos canábicos estão cada vez mais comuns. Entretanto, o que é legal federalmente são os extratos de CBD derivados do cânhamo– espécie de cannabis com menos de 0,3% de THC. Embora o THC tenha muitas propriedades terapêuticas, é necessária legislação para torná-lo legal.

É necessário lembrar também que, aqui no Brasil, o tratamento com derivados de cannabis é permitido (embora altamente burocrático) para humanos, mas ainda não é uma realidade legalmente possível quando falamos em animais. Entretanto, existem veterinários que trabalham, prescrevem e são entusiastas do uso deste tipo de medicamento em animais. Por exemplo, o Dr. Pet Cannabis (Dr. Fábio Mercante de San Juan) e o Dr. Erik Amazonas, são profissionais que lutam pela regulamentação do uso de cannabis em nossos bichinhos.

Um fator que pode aumentar as chances de uma regulamentação de derivados full spectrum é o fato de que recentes pesquisas relataram como funciona o sistema endocanabinoide em cães e outros mamíferos, e que seus cérebros – assim como os nossos – reconhecem e modulam o THC.

cbd pra gatinhos lindos

O sistema endocanabinoide nos animais

Como explica este estudo, um grande avanço em nossa compreensão de como a cannabis funciona foi a descoberta de proteínas receptoras específicas no cérebro que reconhecem os canabinoides, incluindo o THC. Tudo isso, como você deve lembrar, é feito pelo nosso sistema endocanabinoide.

Entre vários que foram identificados, os dois tipos primários de receptores de canabinoides são CB1 e CB2, e eles também já foram identificados em ratos, cães, gatos, aves, cavalos, macacos, porcos e vários outros animais. Os receptores CB1 são amplamente distribuídos pelo sistema nervoso central e se correlacionam com os efeitos dos canabinoides na cognição, apetite, emoções, memória, percepção e controle do movimento.

Uma variação interespécies na localização anatômica dos receptores CB1 é observada em cães. Os cães, em particular, têm uma densidade maior de receptores CB1 em seu cerebelo em comparação com qualquer outra espécie estudada.

Os receptores CB2 são encontrados com menos frequência no sistema nervoso central, mas estão altamente concentrados no sistema nervoso periférico e no sistema imunológico, onde desempenham um papel na inflamação e na regulação da dor.

É por causa desse sistema que os animais, assim como nós, podem ser tratados com fitocanabinoides – ou seja, os canabinoides, como CBD e THC, encontrados na nossa amada plantinha juntamente com terpenoides, flavonoides e outras substâncias benéficas para o organismo.

Possíveis benefícios de derivados de cannabis

De acordo com o Dr. Patrick Mahaney, dono da California Pet Acupuncture and Wellness (CPAW) em Los Angeles, a cannabis pode ter propriedades antioxidantes, anti convulsivantes, anti inflamatórias, analgésicas, sedativas e outros efeitos positivos, como prevenir diferentes tipos de câncer. Ela tem sido usada para ajudar a tratar animais que sofrem de uma variedade de doenças desde o final de 1800, segundo ele.

Dentre as doenças e males, estão:

  • artrite e outros tipos de dor relacionada à inflamação;

  • problemas de comportamento;

  • câncer;

  • perturbação do trato digestivo;

  • doença inflamatória intestinal;

  • infecções (bacterianas, fúngicas, etc);

  • doença do disco intervertebral (IVDD);

  • doenças renais e hepáticas;

  • glaucoma;

  • convulsões e outros distúrbios do sistema nervoso;

  • doença de pele;

  • dor crônica;

  • ansiedade de separação;

  • fobias de ruído (um estudo mostra que o CBD ajudou a reduzir a pressão arterial e outros sintomas físicos relacionados ao medo em animais).

Embora os especialistas alertem que os derivados de cannabis para animais e produtos relacionados não são uma cura milagrosa, eles demonstraram benefícios à saúde para animais de estimação e não têm os mesmos efeitos colaterais que muitos medicamentos prescritos.

O mercado de derivados de cannabis para pets

As pesquisas ao redor dos derivados de cannabis não apenas para humanos, mas também para pets, têm gerado um crescente interesse – tanto nos EUA quanto aqui no Brasil. Recentemente, um relatório divulgado pela Forbes mostrou que existe uma grande oportunidade de mercado para produtos para animais de estimação à base de CBD. De acordo com o documento, os produtos de CBD à base de cânhamo representarão de 3 a 5% de todas as vendas de cânhamo nos EUA em 2025.

Outras descobertas incluem:

  • 74% dos compradores de CBD têm animais de estimação.

  • Produtos para animais de estimação acumularam mais de US$9,4 milhões em vendas em varejistas regulamentados de cannabis para uso adulto na Califórnia, Colorado, Nevada e Washington combinados. Isso cobre o período do primeiro trimestre de 2018 até o terceiro trimestre de 2019.

Segundo o The Green Hub, coletivo brasileiro de empresas canábicas, já existem opções nacionais para quem está procurando por esse tipo de ajuda para o pet. São elas:

Abracepet Esperança

A Abracepet Esperança é uma ONG paraibana voltada ao uso terapêutico da cannabis para animais. O criador desse projeto é Cassiano Teixeira, fundador da Abrace Esperança, associação modelo em cultivo e produção de óleo para pacientes sem recursos.

Linha Canabica

A Linha Canabica é uma startup brasileira incrível, fundada em 2019 pela biomédica e pesquisadora Bárbara Arranz. Ela produz uma linha vegana de produtos à base de cannabis – inclusive o óleo Full Spectrum CBD, com indicação para uso humano e animal.

E qual a dosagem ideal?

A dose certa para animais depende muito do peso corporal de cada pet. Geralmente, o tratamento começa com menores quantidades, que vão aumentando conforme o organismo se acostuma com a medicação. Uma dose por dia é suficiente em condições mais leves e quadros menos graves – mas, para condições extremas, o número de doses pode ser aumentado. Para a grande maioria dos cães e gatos podemos utilizar cerca de 2 gotas para cada cinco quilos.

  • Em animais de até dez quilos: de quatro a seis gotas diárias de óleo de cannabis.

  • Em animais de dez a 25 quilos: de oito a 12 gotas diárias de óleo de cannabis.

  • Em animais com peso superior a 25 quilos = cerca de 15 gotas diárias de óleo de cannabis.

fonte: petz

Meu pet comeu minha maconha. E agora?

Muito diferente dos remédios à base de cannabis, a cannabis que você consome nunca, jamais, sob hipótese alguma, deve ser dada (de forma intencional ou acidentalmente) para um animal de estimação.

Cães e gatos podem ficar intoxicados com cannabis de várias maneiras; inalando fumaça, comendo alimentos feitos com a erva ou ingerindo ela diretamente. A maioria das exposições é acidental quando animais de estimação curiosos descobrem o acesso à droga ou quando estão presentes na mesma sala com uma pessoa fumando maconha.

Os cães têm mais receptores canabinoides em seus cérebros, o que significa que os efeitos da cannabis são mais dramáticos e potencialmente mais tóxicos quando comparados aos humanos. Uma pequena quantidade da planta é suficiente para causar toxicidade neles e em felinos.

Felizmente, a intoxicação por cannabis raramente é fatal, já que o cigarro médio de maconha contém cerca de 150 mg de THC. A dose oral letal mínima de THC em animais de estimação é bastante alta; no entanto, foram observadas mortes após a ingestão de alimentos contendo cannabis concentrada. Por isso, todo cuidado é pouco!

Como perceber se meu pet está intoxicado?

  • Alguns dos principais sinais de intoxicação são neurológicos:

  • Eles podem ficar instáveis e descoordenados;

  • Eles podem ficar hiperativos, desorientados e muito vocais.

  • Suas pupilas podem dilatar, dando-lhes uma aparência de olhos arregalados.

  • Eles podem babar excessivamente ou vomitar.

  • Eles podem desenvolver incontinência urinária (ou seja, perda de urina).

  • Em casos graves, podem ocorrer tremores, convulsões e coma.

Os sinais físicos incluem frequência cardíaca e pressão arterial baixas ou elevadas e frequência respiratória lenta (frequência respiratória). Além disso, letargia e aumento ou diminuição da temperatura corporal também podem ser observados. Felizmente, esses efeitos colaterais geralmente duram pouco, mas ainda podem ser perigosos e deixar o animal de estimação bem tristinho.

Como a intoxicação é tratada?

Quando você perceber alguns dos sinais acima, a recomendação principal é correr com seu pet para o veterinário.

Quando uma toxina entra no corpo, geralmente a primeira forma de lidar com isso é retirá-la. Logo após a ingestão, seu veterinário pode induzir o vômito para evitar uma maior absorção da toxina. Em casos de risco de vida, o pet também pode passar por um procedimento de lavagem gástrica. O carvão ativado pode ser administrado a cada 6-8 horas para neutralizar a toxina, e enemas também são usados para reduzir a absorção de toxinas do trato gastrointestinal.

A segunda linha de ação para conter os danos da toxicidade da cannabis envolve dar suporte ao animalzinho até que os efeitos da droga desapareçam. Se necessário, são usados medicamentos para regular a frequência cardíaca, a respiração e a temperatura corporal do animal. Como o animal de estimação pode estar letárgico, sem vontade de comer ou beber, os fluidos intravenosos podem ajudar a prevenir a desidratação, sustentar a pressão arterial e manter o funcionamento dos órgãos.

Os medicamentos ansiolíticos podem minimizar a agitação. Para evitar traumas e machucados enquanto o animal está desorientado e descoordenado, o confinamento em um espaço seguro e confortável é útil. O ruído também deve ser mínimo para diminuir a estimulação sensorial.

Como evitar tudo isso?

A gente nunca quer ver nossos amados bichinhos doentes, e sabemos como isso pode ser traumatizante. Para não passar por essa experiência, a dica é manter sempre sua cannabis, comestíveis e derivados bem guardadinhos e longe dos pets. Além disso, quando for fumar, procure fazer em um bem cômodo ventilado e sem a presença do seu bichinho. Tem muito dono de pet que assopra a fumaça perto deles, ou “bafora” diretamente no focinho. Não faça isso nunca! Pode ser extremamente prejudicial para a saúde do animal.

Tomando todos esses cuidados, você, seu pet e sua cannabis podem ter uma vida longa e feliz juntos. Além disso, se o seu animalzinho está apresentando sintomas de alguma doença, pergunte ao veterinário sobre a possibilidade de tratá-lo com CBD. Pode ser uma forma muito mais natural, com menos efeitos colaterais, de melhorar a qualidade de vida do seu animalzinho.

Gostou do post? Ficou com alguma dúvida? Fala aqui pra gente nos comentários!

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