Outras Drogas

As descobertas da primeira pesquisa brasileira com LSD

A primeira pesquisa com LSD feita no Brasil já teve seus resultados divulgados! Venha entender quais as principais descobertas dos cientistas em relação aos efeitos do psicodélico.

A dietilamida do ácido lisérgico, mais conhecida como LSD, é uma das drogas psicodélicas mais famosas do mundo. Uma das maiores responsáveis pelo boom da psicodelia nas décadas de 60 e 70, ela foi proibida e altamente combatida por conta de seus poderes alteradores de consciência, por ser vista como uma arma potente da contra-cultura e por vários outros motivos, cujo espaço não nos permite explorar por aqui. Atualmente, os estudos com a substância estão sendo retomados e têm investigado seus efeitos em nossa psique. E uma das notícias mais incríveis, para quem é entusiasta como a gente, é que a primeira pesquisa brasileira com LSD saiu!

Sim: a pesquisa científica brasileira é extremamente importante no mundo inteiro, e um dos principais motivos pelos quais defendemos com unhas e dentes as universidades públicas. Viva a ciência, meus amores.

Aqui, vamos falar sobre os principais desdobramentos dessa experiência incrível, desenvolvida por um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — com nomes como os brasileiros Marcelo Falchi, Luís Fernando Tófoli e Sidarta Ribeiro e a alemã Isabel Wießner. Venha com a gente desvendar os efeitos do LSD e como se relacionam com nossa cognição, criatividade e o funcionamento da nossa mente.

 Estrutura do composto do LSD

O que o estudo buscava entender?

A experiência teve como principal objetivo entender como o LSD atua na mente dos seres humanos em diferentes campos. Para você ter uma ideia, ela já se dividiu em quatro artigos diferentes:

LSD, loucura e cura: experiências místicas como possível elo entre modelo de psicose e modelo de terapia

Aqui, os cientistas exploraram essa capacidade paradoxal do psicodélico em ter papéis em experiências psicóticas ou psicomiméticas e, ao mesmo tempo, apresentar poderes para o tratamento de depressão, ansiedade e transtornos causados por uso de substâncias. 

LSD de baixa dose e o fluxo de pensamento: aumento da descontinuidade da mente, pensamentos profundos e fluxo abstrato

Neste estudo, os pesquisadores buscaram analisar o impacto da substância no fluxo de pensamento ou consciência — ou seja, na natureza da mente quando ela vaga livremente, em um estado contínuo e dinâmico. 

LSD e criatividade: aumento da novidade e pensamento simbólico, diminuição da utilidade e pensamento convergente

É meio que senso comum que os psicodélicos podem deixar seus usuários e usuárias mais criativos. Mas será que é verdade? Esse estudo buscou as respostas para essa questão, observando como seus efeitos afetaram diferentes atividades.

LSD, afterglow e ressaca: aumento da memória episódica e fluência verbal, diminuição da flexibilidade cognitiva

Já se sabe que psicodélicos prejudicam de forma aguda as funções cognitivas, mas essas deficiências diminuem com experiências crescentes com psicodélicos, e microdoses podem até exercer efeitos contrários. Com as recentes descobertas de que os psicodélicos induzem a neuroplasticidade (ou seja, capacidade de “regeneração cerebral”), o estudo investigou o potencial dos psicodélicos para alterar a cognição de forma subaguda — ou seja, menos intensa e que se atenua lentamente. 

Foto colorida de um dedo apoiando um LSD cortado em microdoses
Microdoses de LSD

E como ele foi realizado?

É um estudo de desenho cruzado, duplo-cego, placebo-controlado e randomizado. Nele, 24 participantes saudáveis ​​receberam 50 μg de dietilamida de ácido lisérgico (LSD) ou placebo inativo. A partir daí, os participantes foram submetidos a diferentes atividades e tiveram que responder questionários, em avaliações antes, durante e depois do uso da substância. Por exemplo:

Para entender sua relação com loucura e terapia, foram avaliados fatores como saliência aberrante, que é uma característica ou fator central de desordem psicótica; potencial terapêutico por sugestibilidade e mindfulness; e experiência psicodélica por quatro questionários. 

Para medir a divagação mental, foram feitos dois testes: o Amsterdam Resting State Questionnaire (ARSQ) e o Forward Flow Task (FFT) para três tipos de palavras — animais, objetos e palavras abstratas. Eles foram avaliados antes de uso, e 2h, 4h, 6h, 8h e 24h após o uso. 

Para medir efeitos na criatividade, perto do pico da droga, uma bateria de tarefas de criatividade foi aplicada, incluindo tarefas de significado de padrões (PMT), de usos alternativos (AUT), de conceito de imagem (PCT), de metáforas criativas (MET) e de criatividade figural (FIG). Os critérios de pontuação foram criatividade, cálculo de pensamento divergente e pensamento convergente, cálculo de distâncias semânticas (por técnica computacional de análise da linguagem) e uma nova técnica de análise da criatividade, desenvolvida pelos pesquisadores a partir dos próprios dados, que demonstrou maior número de respostas do tipo “abstratas” ou simbólicas com LSD vs placebo.

E, para efeitos na cognição, possíveis alterações foram medidas 24h após a dosagem, incluindo memória, fluência verbal, fluência de design, flexibilidade cognitiva, atenção sustentada e alternada, controle inibitório e raciocínio perceptivo. 

Imagem com diversos olhos distorcidos, com filtro colorido
Distorções visuais são  alterações bem características ao uso de LSD

E o que foi descoberto?

O que não faltaram foram aprendizados incríveis sobre essa substância! Vamos falar sobre alguns dos principais e mais interessantes:

Quanto aos processos de loucura e cura

Mesmo com uma dosagem baixa, de 50 μg, foi confirmado o aumento de saliência aberrante e algo chamado de atribuição patológica de significado — um tipo de distorção cognitiva comum tanto aos estágios iniciais de psicose quanto às viagens psicodélicas.

Os testes ainda indicaram alterações bem características ao uso de LSD, como distorções visuais. Mas elas acontecem de formas diferentes: por exemplo, pacientes com esquizofrenia crônica tendem a relatar alucinações auditivas mais comumente do que ligadas às visões. Outra diferença é que, em pacientes em quadros psicóticos, existe a ideia delirante, ou seja, uma convicção de que a alucinação é real.

Além disso, a sugestionabilidade provocada pela substância é um ponto positivo para o seu uso em terapia. Essa alteração pode facilitar a superação de barreiras, já que o paciente pode se tornar mais inclinado a se aprofundar em memórias, pessoas ou temáticas dolorosas ou traumáticas, e a criar símbolos e associações.

Os pesquisadores apontaram que o LSD induziu: 

  • experiências psicodélicas, incluindo alteração da consciência;
  • experiências místicas; 
  • dissolução do ego e experiências levemente desafiadoras;
  • aumento da saliência e sugestionabilidade aberrantes, mas não da atenção plena. 

Para eles, seus efeitos se assemelham a uma experiência psicótica e podem sim operar como uma ferramenta de cura. O que liga a loucura e a cura aqui, segundo suas conjecturas, é justamente a experiência mística. Seu uso em terapia pode se beneficiar da misticidade ao atribuir significados a essas alterações de consciência.

Interessante, né?

Quanto ao fluxo de pensamento

Através de um dos questionários, o estudo descobriu que, como esperado, o LSD acentuou aspectos caóticos, significativos e sensoriais do pensamento. No pico do efeito, esse caos, caracterizado por descontinuidade da mente, diminuição da sonolência, planejamento, pensamentos sob controle, pensamentos sobre o trabalho e pensamentos sobre o passado, dificultou a comunicação e aumentou a arbitrariedade nas respostas dos participantes. 

A substância ainda induziu diferentes facetas de divagação mental além do caos, que foram conceituadas pelos pesquisadores como “significado” (pensamentos profundos, não compartilhados) e “sensação” (pensamentos sobre odores e sons). 

Por volta das quatro horas depois da ingestão, a entropia mental passava do polo caótico para um fluxo mais livre e flexível nas associações — o oposto do fluxo disfuncional e rígido causado por alguns transtornos como a depressão. Essa foi apontada pelos cientistas como uma possível janela terapêutica!

Além disso, a surpresa foi o encontro de um fluxo mais livre de pensamento estimulado por palavras abstratas, em comparação a animais e objetos. Uma das possíveis interpretações é que elas estimulam pensamentos mais amplos, em termos de distâncias semânticas, mais viagens mentais e na linguagem. Outra interpretação é que os termos abstratos são mais complexos de processar em um estado de consciência alterado — assim, o cérebro perde o controle e se mostra mais caótico ao se deparar com eles. E o caos aqui não é algo necessariamente negativo: ele é desejável pois demonstra atividades ocorrendo em diferentes áreas, com diferentes conexões permitindo a integração funcional dos diversos recursos cognitivos — desde a integração do que se vê ao sentido atribuído àquilo que se vê. 

Quanto à criatividade

Os pesquisadores classificam as descobertas em relação à criatividade após o uso de LSD em três fenômenos:

  1. quebra de padrão, através do aumento da novidade, surpresa, originalidade e distâncias semânticas;
  2. diminuição da organização, refletida pela diminuição da utilidade, pensamento convergente e elaboração;
  3. significado, mostrado pelo aumento do pensamento simbólico e ambiguidade dos resultados.

Por exemplo: observe esses desenhos. Os da primeira fila foram feitos por um participante ao tomar LSD. Os da segunda foram feitos pelo mesmo participante ao receber placebo. Neles, podemos observar claramente a presença (e a falta) dos elementos citados acima:

Desenhos feitos por participante sob efeito de LSD (primeira coluna) e sob efeito de placebo (segunda coluna)

Segundo os cientistas, o LSD mudou a expressão criativa em todas as modalidades e abordagens de medição. Esses fenômenos de quebra de padrão, desorganização e significado parecem então influenciar tanto a cognição criativa quanto o comportamento, apontando para mudanças em direção ao novo, ultrapassando as barreiras do “normal”. 

Para eles, esse pensamento simbólico induzido pelo LSD pode fornecer uma ferramenta de apoio poderosa em processos de terapia assistida por psicodélicos.

A partir disso, uma dica trazida a partir desses resultados é talvez tomar LSD possa ser uma boa naquela etapa crucial do brainstorming, que pode levar você a escolher a ideia por onde irá dedicar seus esforços. Entretanto, pode não ser tão legal assim tomá-lo no momento em que precisa atuar de forma pragmática. Ou seja: tome para ter ideias, não tome para executar tarefas!

E, quando o assunto é cognição…

Na manhã após a administração da substância, os participantes do estudo foram submetidos a testes como jogos de memória, reprodução de desenhos, adivinhação de sequências lógicas e associação de palavras. O objetivo era analisar se o LSD produz efeitos residuais positivos ou negativos na cognição.

Por um lado, eles foram melhores em jogos de memória e séries verbais. Por outro, tiveram mais dificuldades na adivinhação de sequências lógicas.

A interpretação de um dos pesquisadores é que o estado psicodélico induzido pelo LSD é de hiperconectividade, ou algo que ele gosta de chamar de efeito neuropsicoplástico. Isso significa que a substância aumenta a “trama” de conexões que um indivíduo precisa para “recuperar” alguma informação da memória. Ou seja, o LSD “aumentou o aprendizado” pois aumentou a capacidade de “costurar” informações em outras, facilitando a evocação destas já que foram mais intensamente consolidadas.

Importante explicar que neuropsicoplastia é um termo adaptado da concepção de Olson: “neuropsychoplastogen” (em português, neuropsicoplastógenos). Ele designa esse efeito que os psicodélicos trazem à mente humana: novas conexões sinápticas, aumento de densidade dendrítica (neuroplasticidade), e quebra de padrões rígidos de pensamentos (psicoplasticidade), além do aumento da entropia cerebral e estado de hiperconectividade de funções psíquicas.

Esses resultados apontaram potenciais positivos no tratamento de pacientes com demência, acidente vascular cerebral ou perdas cognitivas naturais durante o envelhecimento.

Esses resultados foram importantes e podem ser o início de investigações mais profundas relacionadas ao campo dos psicodélicos, da saúde mental e do cérebro. Nós estamos extremamente animadas e queremos muito ver o fortalecimento dessa área — afinal, após anos e anos de perseguição, sabemos que essas substâncias têm um potencial fantástico e ainda pouco explorado. Mas isso está prestes a mudar!

E você, curtiu saber mais sobre isso? Deixa aqui seu comentário e não esquece de nos seguir lá no Instagram @girlsingreen710 e para saber ainda mais sobre tudo isso.

Até a próxima!

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