GIRLS IN GREEN

Teoria da conspiração ou realidade? Documentos, cartas e julgamentos confirmam a existência do MK-Ultra, programa secreto do governo estadunidense que usou do LSD para experimentos bem duvidosos. Vem entender mais!

Se você já assistiu Stranger Things, da Netflix, deve ter pensado: “esse roteirista estava muito louco quando escreveu essa série”. Mas a verdade é que algumas das histórias que a inspiraram são reais, e bem assustadoras – como o experimento MK-Ultra, que buscava meios de controlar a mente de inimigos em plena Guerra Fria. 

Em uma história que envolve mortes, experiências análogas à tortura e substâncias psicodélicas, como o LSD (mas não apenas ele), esse episódio obscuro do serviço de inteligência estadunidense só nos mostra o quanto o ser humano pode ser, bem, desumano. E não é o único, mas é talvez um dos mais surpreendentes pelos ares de teoria da conspiração que assume.

Além disso, ele apresenta um papel importante para as discussões sobre o proibicionismo. Afinal, as drogas só valem para um governo se podem cumprir funções que os beneficiem? Aparentemente sim. 

Mas bora conhecer esse caso e entender a realidade por trás da ficção!

Afinal, o que foi MK-Ultra?

Para falar sobre isso, temos que voltar lá para as décadas de 1950 e 1960 – no auge da Guerra Fria. Nessa época, o governo dos Estados Unidos estava a todo vapor tentando deter os avanços de países comunistas, e a fabricar mil e uma tramoias e propagandas para justificar seus temores. Eis que toda a paranoia os fez começar a acreditar que agentes soviéticos, chineses e norte-coreanos estivessem usando o controle mental para fazer lavagem cerebral em prisioneiros de guerra norte-americanos na Coreia.

Ou pelo menos essa foi a justificativa para dar início ao projeto chamado MK-Ultra.

Em 1953, Allan Dulles, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), aprovou a iniciativa secreta, que visava desenvolver técnicas que pudessem ser usadas contra os inimigos do bloco soviético. O maior objetivo? É aí que entra a parte mais absurda: seu desejo era controlar o comportamento humano com drogas e outros manipuladores psicológicos. 

Diferentes fontes e pesquisadores, como o jornalista investigativo Stephen Kinzer, apontam que o programa envolveu mais de 150 experimentos humanos envolvendo drogas psicodélicas, paralíticos e eletrochoques. Às vezes, os sujeitos do teste sabiam que estavam participando de um estudo – mas, em outros momentos, eles não tinham ideia, mesmo quando os alucinógenos começaram a fazer efeito.

Muitos dos testes foram realizados em universidades, hospitais ou prisões nos Estados Unidos e no Canadá. A maioria deles ocorreu entre 1953 e 1964, mas não está claro quantas pessoas estavam envolvidas nos testes. A agência manteve registros notoriamente ruins e destruiu a maioria dos documentos MK-Ultra quando o programa foi oficialmente interrompido em 1973. Mas a gente tem alguns nomes no mínimo curiosos de participantes:

  • Ken Kesey, autor do livro Um Estranho no Ninho;
  • Robert Hunter, do Grateful Dead;
  • Ted Kaczynski, o “Unabomber” (SIM!);
  • e James Joseph “Whitey” Bulger, notório mafioso de Boston.
Fonte: R7

E o que o LSD tem a ver com isso?

A CIA começou a experimentar o LSD (o famoso ácido lisérgico, sobre o qual você pode entender mais aqui) sob a direção do químico da agência, Sidney Gottlieb – que também era especialista em venenos e possíveis armas químicas e biológicas. Ele acreditava que a agência poderia aproveitar as propriedades de alteração da mente da droga para lavagem cerebral ou tortura psicológica.

Segundo Kinzer, que escreveu um livro inteiro sobre esse caso absurdo, Gottlieb queria criar uma maneira de controlar a mente das pessoas e percebeu que era um processo de duas partes. O primeiro passo era explodir a mente existente. O segundo era encontrar uma maneira de inserir uma nova mente, com lembranças pré-fabricadas, nesse vazio resultante. 

Para fazer isso, a CIA começou a financiar estudos na Universidade de Columbia, Stanford e outras faculdades sobre os efeitos da droga. Após uma série de testes, ela foi considerada imprevisível demais para uso em contra-inteligência.

Quer curiosidade? Então toma: Sidney Gottlieb pode ser visto como o homem que trouxe o LSD para a América. Ele foi o padrinho involuntário de toda a contracultura do LSD! Isso porque, no início da década de 1950, ele conseguiu que a CIA pagasse US$ 240.000 para comprar todo o suprimento mundial da substância. Ele a trouxe para os Estados Unidos e começou a espalhar por hospitais e outras instituições, pedindo-lhes que realizassem projetos de pesquisa e descobrissem o que era o LSD, como as pessoas reagiam a ele e como poderia ser usado.

Então, basicamente, a CIA trouxe o LSD para a América sem querer. E olha que irônico: foi o ácido que acabou alimentando uma rebelião geracional que se dedicava a destruir tudo o que a agência prezava e defendia!

O MK-Ultra também incluiu experimentos com MDMA, mescalina, heroína, barbitúricos, metanfetamina e psilocibina, o princípio ativo dos cogumelos mágicos.

Fonte: uol

Operação Clímax da Meia-Noite

Achou que estava bizarro? Espera que tem mais: a Operação Midnight Climax foi um projeto MK-Ultra no qual prostitutas empregadas pelo governo atraíam homens desavisados ​​para “casas seguras” da CIA, onde aconteciam experimentos com drogas. 

A CIA dosava os homens com LSD ou outros psicodélicos, e então os observava através de espelhos de duas faces, bebendo coquetéis, para entender os efeitos da droga no comportamento dos homens. Sim, como se fossem meros ratos de laboratórios, violando uns trinta direitos humanos diferentes em uma tacada só! Além disso, dispositivos de gravação eram instalados nos quartos das prostitutas, disfarçados de tomadas elétricas.

A maioria dos experimentos acontecia em São Francisco e Marin County, na Califórnia, e na cidade de Nova York. O programa tinha pouca supervisão e os agentes da CIA envolvidos admitiram que prevalecia uma atmosfera de “festa e liberdade”.

Um agente chamado George White escreveu a Gottlieb em 1971: “Onde mais um garoto americano de sangue vermelho poderia mentir, matar e enganar, roubar, enganar, estuprar e pilhar com a sanção e bênção do Altíssimo?”. 

Basicamente, os agentes tinham carta branca para abusar de seu lugar de poder em “nome da ciência”.

Bad trips, mortes e… Governo acobertando

O que não faltam são desdobramentos malucos no que se refere a essa história. Um deles é o assassinato de Frank Olson – um cientista que trabalhava para a CIA. Em um retiro da agência, em 1953, Olson bebeu um coquetel adulterado com LSD. Poucos dias depois, ele “caiu” da janela de um quarto de hotel em Nova York, em uma morte que foi classificada como suicídio.

Clássico, certo?

A família de Frank Olson decidiu fazer uma segunda autópsia em 1994, e a equipe forense encontrou ferimentos no corpo que ocorreram antes da queda. As descobertas provocaram teorias da conspiração de que Olson poderia ter sido assassinado pela CIA – provavelmente por ter falado demais sobre o projeto secreto MK-Ultra. Seus parentes receberam uma indenização quase milionária para sair do radar.

Mas tem mais – sim, nesse caso aqui sempre tem mais.

Esse causo aqui a gente recomenda que você leia na íntegra, nessa matéria completíssima do Intercept. Mas vamos resumir aqui: basicamente, no dia 4 de julho de 1954, o estupro seguido de assassinato de uma menina de 3 anos chocou uma pequena cidade do Texas. Jimmy Shaver, o acusado do crime, era um piloto sem antecedentes criminais da Base Aérea de Lackland, que ficava na região. Ele alegou não lembrar de nada.

Dois meses depois de sua prisão, suas memórias de Shaver ainda não haviam retornado. O comandante do hospital militar pediu uma avaliação psiquiátrica a um tal Dr. Louis Jolyon West.

O problema é que West estava enfiado até o pescoço no MK-Ultra, que realizou experimentos em Shaver e apenas “falhou” em comentar no julgamento. Shaver foi condenado à cadeira-elétrica por um crime que nunca reconheceu ter cometido, e que nunca saberemos exatamente quem cometeu.

Fonte: r7

Mas meninas, como se sabe de tudo isso?

O fim da carreira de Gottlieb veio em 1973, quando o então presidente Richard Nixon mudou o chefe da CIA. À época, os envolvidos concordaram que deveriam destruir todos os registros do MK-Ultra, e muito – mas muito mesmo – do que foi a operação foi perdido para sempre. 

Mas 8.000 páginas de registros, principalmente documentos financeiros que não foram destruídos por engano em 1973, foram encontrados em 1977, lançando uma segunda rodada de investigações sobre o MK-Ultra.

Embora o inquérito renovado tenha resultado em interesse público e até mesmo em dois processos, os documentos de 1977 ainda deixam um registro incompleto de tudo que se passou, e ninguém nunca respondeu pelos danos causados pelo MK-Ultra. Dois processos relacionados ao programa chegaram à Suprema Corte na década de 1980, mas ambos protegiam o governo sobre os direitos dos cidadãos. Como ser mais estadunidense que isso, né?

Hoje, tudo o que se sabe é fruto destes poucos documentos, além da ação corajosa de vários jornalistas, que se propuseram a investigar essa iniciativa macabra.

E aí, também ficou em choque? A gente ainda tá tentando digerir essa informação, e pensando em como as instituições que supostamente devem “proteger” o povo são as que, geralmente, causam mais estrago. Conta pra gente aqui nos comentários o que você achou dessa história toda, e não esqueça de nos seguir lá no Instagram @girlsingreen710 para saber de todas as novidades.

Até a próxima!

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