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Encontrada em diferentes tipos de cacto, a mescalina é um psicodélico sagrado para diferentes culturas nativas. Vem conhecer seus efeitos e usos!

Quando começamos a mergulhar mais profundamente nos psicodélicos, nos deparamos com inúmeras substâncias sagradas para culturas ancestrais. A mescalina, assim como os cogumelos mágicos e a ayahuasca, conta com uma história rica e espiritualizada. Proveniente de alguns tipos diferentes de cacto, alguns consideram que a substância tenha sido o primeiro psicodélico do mundo — e tem até livro sobre isso. Mas há controvérsias no título!

Algo que sabemos com certeza é que, assim como acontece com os outros psicodélicos que citamos, existem muitos debates sobre a ética no consumo da mescalina. Afinal, pessoas de fora das culturas que a utilizavam originalmente estão descobrindo seus poderes e a busca pela substância começou a aumentar. Entretanto, os impactos podem prejudicar povos nativos, que sofrem com as consequências do colonialismo até os dias de hoje.

E agora?

Para falar um pouco mais sobre tudo isso, nos inspiramos na série Como Mudar a Sua Mente, onde Michael Pollan explora esse e outros psicodélicos e suas histórias. Além disso, também trazemos algumas informações de seu mais novo livro This Is Your Mind On Plants, ainda sem tradução.

Vem com a gente!

Foto colorida de 9 cactos peiote sobre a mão de uma pessoa no deserto
Cacto peiote (Lophophora williamsii)  Fonte: forbes

O que é mescalina?

A mescalina, também conhecida como 3,4,5-trimetoxifenetilamina, é uma substância alucinógena naturalmente produzida por certas plantas de cactos nativas do sudoeste dos Estados Unidos, México e América do Sul. Essas plantas incluem o cacto peiote (Lophophora williamsii), o cacto San Pedro (Trichocereus pachanoi) e o cacto tocha peruana (Trichocereus peruvianus).

De acordo com Pollan, a mescalina tem sido usada pelos nativos americanos há milhares de anos em cerimônias religiosas e para o tratamento de várias doenças. E, embora o uso de produtos de mescalina ainda seja ilegal nos Estados Unidos e no resto do mundo, o peiote é reconhecido como um sacramento na Igreja Nativa Americana da América do Norte.

Ou seja: se o peiote é usado em cerimônias religiosas, está isento de sua classificação como uma droga controlada da Lista I sob a Lei de Liberdade Religiosa dos Índios Americanos de 1994 (AIRFA).

Como muitas substâncias sagradas, ela é rodeada de mitos e lendas sobre sua descoberta. Uma das mais comuns, relatada em Como Mudar Sua Mente, é que uma mulher nativa encontrou essa medicina enquanto fugia de inimigos. Ela estava fraca, com fome e sede, e entrando em desespero. Foi então que a medicina falou com ela. Ela comeu o cacto e, com as forças dadas por ele, conseguiu continuar sua jornada em segurança. Embora tenha sido utilizada por séculos, a inquisição espanhola, a partir de 1620, começa a coibir o uso da substância em suas colônias latinas. 

Foto colorida do livro “As portas da percepção” de Aldous Huxley
O livro “As portas da percepção” de Aldous Huxley

Um grande responsável pelo aumento do interesse na mescalina no século passado foi Aldous Huxley, que conta sua experiência com ela no livro As Portas da Percepção. E é importante lembrarmos que ela pode ser natural ou sintetizada!

Ilustração colorida de cactos num deserto ensolarado
Os efeitos da mescalina

Quais são os efeitos da mescalina?

Os efeitos da mescalina duram de 10 a 12 horas, embora o uso da mescalina como sacramento possa durar até dois dias. Como uma substância psicodélica, a mescalina induz um estado alterado de consciência, no qual os indivíduos experimentam mudanças nos fluxos de pensamento e na percepção. As pessoas costumam descrever esse estado como agradável, eufórico e onírico.

Alucinações visuais podem ser um efeito do uso de mescalina, e as pessoas geralmente descrevem distorções em sua experiência de tempo.

Mas, segundo Pollan, os efeitos visuais não são tão fortes quanto os experimentados com outros psicodélicos. Ela promove um mergulho mais profundo na realidade, envolvendo nossos sentidos sem suprimi-los por completo, mas trazendo à tona sensações e sentimentos do mundo físico. Ele descreve:

“Relendo Huxley após ter essas experiências, pude apreciar o quão distinta é a mescalina dos outros psicodélicos. Huxley não descreve a sensação de deixar o universo conhecido, em uma jornada para o ‘além’ povoado por personagens estranhas ou decorado com padrões visuais extraordinários, ou qualquer tipo de alucinação. Ele não viajou para dentro das profundezas de sua psique ou recuperou memórias reprimidas. Seu ego não foi dissolvido, permitindo que ele se unisse a Deus ou à natureza. Ele não falou sobre a (clássica) epifania psicodélica de que o amor é a coisa mais importante do universo.

Não, Huxley continuou aqui na Terra, sentado em seu jardim em Los Angeles, observando o familiar mundo físico — mas através de olhos completamente novos.”

Bem diferente, né?

Foto colorida de um olho claro com filtro multicolor e foco de luz artificial
O atual renascimento psicodélico traz à tona pesquisas com enfoque nos usos terapêuticos da mescalina. Fonte: nymag Foto: Photo Bobby Doherty

Usos terapêuticos da mescalina

A pesquisa sobre o potencial psicoterapêutico da mescalina ainda é limitada, mas o interesse foi renovado por conta do renascimento psicodélico que estamos vivendo! 

Estudos sugerem que a mescalina pode aumentar o fluxo sanguíneo e a atividade no córtex pré-frontal do cérebro, responsável pelo planejamento, resolução de problemas, regulação emocional e comportamento. Sua baixa atividade está ligada à depressão e ansiedade, levando os cientistas a entender que a substância poderia ajudar quem sofre com esses distúrbios.

A mescalina também ativa os receptores de serotonina e dopamina, que podem ajudar a melhorar o humor e a tratar a depressão. Curiosamente, um dos usos terapêuticos tradicionais do peiote era como antidepressivo, e os índices de depressão são baixos entre os membros da Igreja Nativa Americana, onde seu uso é comum. A gente achou isso incrível!

A mescalina pode ajudar a reduzir pensamentos suicidas, de acordo com pesquisas da Universidade do Alabama. Outro estudo de 2013 também descobriu que o uso de mescalina ou peiote ao longo da vida estava significativamente ligado a uma taxa mais baixa de agorafobia, um transtorno de ansiedade em que os indivíduos sentem medo do ambiente que os cerca.

O tratamento do uso problemático de substâncias é outro potencial terapêutico da mescalina. Um pesquisador da Harvard Medical School, que passou anos estudando o uso de peiote, descobriu que a substância reduziu as taxas de alcoolismo e de uso problemático de outras drogas entre os nativos americanos. Ele também concluiu que as próprias cerimônias são um elemento importante para os efeitos curativos da planta.

Foto colorida de um nativo colhendo mescalina no deserto
Existem muitas problematizações quando pensamos no uso da mescalina natural. Fonte: The economist

Debates éticos sobre o uso da mescalina

Assim como acontece com a ayahuasca e até mesmo com os cogumelos mágicos, existem muitas problematizações quando pensamos no uso da mescalina natural — ou seja, proveniente das plantas. E isso aí não é a gente que tá falando, não! Na série Como Mudar Sua Mente, podemos ver autoridades indígenas nativas trazendo essas questões. 

Sandor Iron Rope, dos Oglala Lakota, afirma que um dos maiores desafios das tribos nativas atualmente é justamente o renascimento psicodélico. Seu medo é que, com o aumento da busca e a possível descriminalização do peiote, que já é debatida nos Estados Unidos junto com outras plantas psicodélicas, as pessoas não-nativas passem a roubar o peiote — uma ferramenta rara, que cresce lentamente e em poucos lugares.

De acordo com Sandor, é preciso preservar e respeitar a cultura indígena. Toda a América foi construída em terras roubadas, e a exploração e apropriação acontecem muito mais do que deveriam acontecer. Se todas as pessoas de fora da cultura receberem o peiote e tiverem livre acesso à sua medicina, o que sobraria para eles?

Retirar uma substância de seu contexto religioso e espiritual e tirar dela seu significado pode até parecer bobagem para quem não faz parte de uma cultura nativa. Mas, para quem faz, é outra maneira de despir as substâncias de sua essência sagrada. 

Portanto, antes de procurar qualquer psicodélico, se pergunte se existem outras alternativas e se você está fazendo isso com o respeito necessário. Toda substância sagrada é uma cura, e existem outras maneiras de alterar a consciência se tudo o que você procura é o efeito e a diversão.

Inclusive, uma enorme referência sobre esse debate é a Bia Labate, criadora do Instituto Chacruna. A brasileira é uma das maiores figuras na pesquisa sobre o peiote, a mescalina e seus usos, e seu livro “Peyote: History, Tradition, Politics, and Conservation” pode ser incrível para quem quer se aprofundar e mergulhar na temática.

E aí, curtiram saber mais sobre a mescalina? A gente adora os psicodélicos e se apaixona cada vez mais por sua magia — e esperamos despertar pelo menos um pouquinho dessa curiosidade em você. E, se a resposta for positiva, não deixe de ler os livros e as pesquisas sugeridas aqui nos hiperlinks espalhados pelo texto. Garantimos que você vai gostar!

Para ficar sempre por dentro de tudo que anda rolando por aqui, fica de olho no nosso Instagram @girlsingreen710. 

Até a próxima!

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