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Entenda como o MDMA e o Ecstasy já foram e ainda são utilizados e o que a ciência diz sobre isso! Vamos abordar tanto os efeitos terapêuticos se utilizadas em settings adequados quanto os riscos associados ao uso.

Você pode lembrar de ter visto ele em baladas, raves e festivais, naquele famoso saquinho, quando um colega oferecia, ou pode apenas ter ouvido falar. O MDMA, assim como o  ecstasy, é uma droga muito usada em contexto de festa – mas, assim como a cannabis, ele já foi, e ainda é, usado medicinalmente e terapeuticamente nem que seja em cenas underground tem algum tempo.

A substância foi inicialmente isolada em laboratório e patenteada pela indústria farmacêutica, mas, depois de décadas, foi proibida pela Drug Enforcement Administration (DEA), agente legal que regula tudo o que é relacionado às drogas nos Estados Unidos. Isso porque, na época, havia uma crescente onda contra substâncias alteradoras de consciência – enquanto, nas ruas, seu uso apenas aumentava.

Hoje, existem muitos e muitos estudos que comprovam o seu poder terapêutico em diferentes campos, principalmente em relação a distúrbios mentais e problemas relacionados ao nosso cérebro. Mas como se dá o seu uso? E quais são os efeitos, os riscos, os contextos e as estratégias de redução de danos?

No nosso quarto texto da série “Cannabis e outras drogas”, vamos entender melhor essa substância e suas propriedades. Vem com a gente!

Alerta: a nossa série não tem como intuito o incentivo ao uso de substâncias, e sim fornecer informações sobre cada uma delas, bem como estratégias para reduzir possíveis danos do uso.

Cristal de MDMA sobre superfície branca
MDMA Foto: Rafael Beraldo

O que é o MDMA

O MDMA (metilenodioximetanfetamina) foi isolado acidentalmente em 1912, pelo químico alemão Anton Köllisch, mas apenas anos depois, na década de 50, foi ressintetizado e pesquisado a fundo pelo químico estadunidense Alex Shulgin. Os ancestrais vegetais do MDMA são óleos voláteis contidos na noz moscada e nas sementes de cálamo, açafrão, endro (ou dill, salsa e baunilha). Na década de 70, substâncias que se pareciam com o MDMA, como DOM (dimetoximetilnfetamina), DOB (dimetoxianfetamina), TMA (trimetilanfetamina) e o também o LSD, já eram usadas como substâncias recreativas.

O MDMA é um empatogênico, que age liberando os neurotransmissores serotonina, dopamina e norepinefrina – responsáveis pelo prazer, o bem-estar e o foco. Ele aflora os sentimentos, aumenta a empatia e destrói uma barreira que o ser humano coloca entre a realidade e seus desejos. A substância desconstrói obstáculos psicológicos, de forma que facilita a comunicação na terapia! Não é à toa que psicólogos estão na ansiedade para poder trazer o MDMA para o contexto terapêutico legalmente.

Por muito tempo, a substância seguiu inexplorada. Foi então que Shulgin começou a se interessar por compostos alucinógenos e experimentá-los. Na época, ele trabalhava na empresa farmacêutica Dow, onde criou o primeiro pesticida biodegradável do mundo. Isso deu a ele mais liberdade na hora de dirigir seus estudos. Em 1965, ele ressintetizou o MDMA – mas deixou a empresa, passando a trabalhar para o FDA prestando consultoria. Em 1976, tomou a droga pela primeira vez, e apresentou-a ao psiquiatra Leo Zeff, que começou a usá-la nas suas sessões por acreditar que é:

“Uma substância psicoativa que tem grande potencial como ferramenta de desenvolvimento e pesquisa da consciência, e pode melhorar a psicoterapia e o crescimento pessoal e, ocasionalmente, aliviar sintomas psicossomáticos, quando tomada em um ambiente e apoio e disposição”.

Ainda assim, o DEA, em 1985, decretou a proibição da substância, mesmo o uso medicinal da mesma. Logo ele surgiu no mercado ilegal e passou a ser vendido como afrodisíaco, e seu consumo de dava predominantemente no contexto noturno e de festa. Pesquisas feitas na Universidade de Stanford, Califórnia, indicam que 40% dos estudantes fizeram uso experimental de MDMA (Escohotado,1997).

Atualmente, a substância é encontrada em comprimido de diferentes formatos, cortes e tamanhos, em cristal, pó ou cápsulas. Geralmente são ingeridos, macerados ou aspirados (ResPire, 2016). Os efeitos normalmente são:

  • euforia;

  • sensação de prazer;

  • aumento da libido;

  • melhora na sociabilidade.

Além disso, algumas alterações podem ser notadas no corpo do usuário. Esses efeitos físicos são:

  • aceleração cardíaca;

  • elevação da temperatura corporal;

  • tensão maxilar;

  • dores musculares;

  • diminuição do sono e do apetite;

  • náuseas e vômito.

Os efeitos são sentidos aproximadamente 20 minutos após a ingestão e podem durar de 4 a 6 horas.

Seus usos a partir da ciência

Muito além de dar um pique extra para curtir eventos sociais, o MDMA já foi até patenteado pela indústria farmacêutica e, como falamos lá em cima, usado terapeuticamente por psiquiatras e terapeutas. Embora hoje ainda esteja proibido, ele ainda é alvo de várias pesquisas e estudos, que enxergam o valor medicinal que a substância tem quando utilizada em ambientes controlados.

O MDMA como facilitador da psicoterapia foi observado pela primeira vez por Sasha Shulgin, que desenvolveu um método para sintetizar a droga em 1965 e observou que produzia um “estado alterado de consciência facilmente controlado com nuances emocionais e sensuais”. Por causa desse fenômeno, o MDMA é frequentemente referido como um “entactogênio” (que significa “tocar por dentro”) ou um “empatogênico” (“que gera empatia”). Ele já foi usado com sucesso à época para tratar distúrbios emocionais, como Transtorno do Estresse Pós Traumático (TEPT). Mais pesquisas são necessárias para entender completamente como esse efeito é produzido, embora estudos anteriores tenham descoberto que o composto aumenta as concentrações de neurotransmissores como serotonina, dopamina e norepinefrina no cérebro.

Ainda esse ano, a FDA aprovou, nos Estados Unidos, uma expansão nos estudos controlados com MDMA. Ele está na última fase de testes, e, após realizado, o órgão irá decidir se aprova a substância como um tratamento prescrito legalmente para TEPT, necessário para ser usado em conjunto com psicoterapia em um ambiente ambulatorial com uma estadia residencial. Caso seja positivo, será um enorme avanço para os pacientes – incluindo veteranos de guerra e até vítimas de abuso sexual.

  • Em sua segunda fase, o estudo da MAPS demonstraram que o MDMA pode reduzir o medo e os mecanismos de defesa, melhorando a comunicação e aumentando a empatia e a compaixão, o que aprimora o processo terapêutico para pessoas que sofrem de TEPT.

Aqui no Brasil, a substância empatogênica, também conhecida como Droga do Amor, também está sendo investigada como uma possível aliada no tratamento de TEPT relacionado a experiências com a violência epidêmica. O pesquisador Eduardo E. Schenberg, responsável pela pesquisa, é Ph.D., possui Bacharelado em Biomedicina e Mestre em Ciências em Psicofarmacologia (Universidade Federal de São Paulo) e Doutor em Neurociências (Universidade de São Paulo), tendo realizado pós-doutorado no neurociência da Ayahuasca e LSD, na Universidade Federal de São Paulo e Imperial College London, respectivamente. Desde 2014 ele é o Pesquisador Principal da primeira pesquisa de terapia psicodélica com um psicodélico controlado na história do Brasil, em parceria com a MAPS (Multidisciplinary Association of Psychedelic Studies). Agora, os pesquisadores estão em busca de preencher os requisitos legais para o primeiro processo de importação de um psicodélico controlado para mais investigações. O grupo apresenta um modelo de como avançar no desenvolvimento do MDMA como medicamento legalmente disponível no Brasil, que espera ter sucesso junto com a fase 3 de testes da MAPS. 3 até 2021.

Também existem pesquisas que investigam a possibilidade de utilizar o MDMA em pacientes autistas para reduzir sua ansiedade social – como a do Grobb. A MAPS está patrocinando um estudo piloto exploratório randomizado para avaliar a segurança e a viabilidade da terapia assistida com a substância, inicialmente com 12 indivíduos no espectro – caso os resultados positivos, mais pesquisas serão feitas. Como já vimos por aqui, a cannabis também é usada para isso!

Mesa contendo tesoura, e recipientes específicos para realização do teste colorimétrico de substancias
Teste colorimétrico de substancias

Seus usos em outros contextos

Em contextos de festa e de uso adulto, muitos usuários (e até não usuários) têm uma dúvida comum relativa à substância: afinal, ecstasy e MDMA são a mesma coisa?

Sim e não! Confuse? Quer saber mais sobre?

O ecstasy contém o MDMA junto de várias outras substâncias, como cafeína, anfetaminas e outros químicos. Já o MDMA é a substância pura, geralmente encontrada em cristal ou em pó. Ah, e não é porque ela está nessa consistência que necessariamente é MDMA. Existem várias possíveis adulterações, que fazem com que as substâncias, por conta do proibicionismo, não cheguem no consumidor de forma regulamentada e controlada.

O ecstasy é conhecido também como bala, e é geralmente usado em contextos de festa e festivais. O grande problema é que, também pela falta de regulamentação e consequentemente de controle de qualidade, é praticamente impossível saber o que é ingerido e qual a sua concentração exata.

Por isso que, mesmo tendo potencial terapêutico, é preciso ter cuidado: o uso crônico – principalmente o recreativo, sem controle de dosagens – pode levar a prejuízos de memória, atenção e o desenvolvimento de patologia depressiva (ResPire, 2016).

Como ocorre sua interação com outras drogas? E o MDMA e a Cannabis?

De acordo com o guia de combinação segura de drogas, a combinação cannabis e MDMA é “segura”, e as substâncias agem em sinergia – ou seja, uma estimula os efeitos da outra. O único problema dessa interação, e que deve ser observado com atenção pelos usuários, é que, caso você queira parar a sua onda de MDMA, usar a cannabis vai causar justamente o efeito contrário!

Segundo publicação no Mapa da Maconha, 95% dos usuários de MDMA também consomem cannabis, o que abriu espaços para alguns estudos sobre o tema – inclusive a possibilidade da Cannabis.

“O co-uso freqüente de ambas as drogas torna particularmente interessante estudar os efeitos da sua combinação, uma vez que o MDMA e a maconha induzem diversas respostas farmacológicas opostas. Enquanto o MDMA causa hipertermia, hiperlocomoção, ansiedade, inflamação, estresse oxidativo e dano neuronal (favorecido por temperaturas elevadas); o THC, principal composto psicoativo da cannabis, produz hipotermia, hipo-locomoção, apresentando efeitos ansiolíticos, anti-inflamatórios e antioxidantes.”

Mas é isso mesmo, THC como agente redutor de danos?

Segundo a pesquisa desenvolvida pela neurocientista Clara Tourino, e o THC pode ajudar na atenuação a formação e a absorção de metabólitos tóxicos e prevenir a neurotoxicidade do MDMA! Tal estudo foi realizado em ratos e não em humanos, mas entendem-se que tal fato aconteceu não apenas à temperatura ambiente, mas também na temperatura mais elevada, onde os efeitos neurotóxicos do MDMA são fortemente potenciados.

Mão segurando MDMA dentro de um saquinho ziplock
MDMA Foto: Rafael Beraldo

MDMA outras drogas

Um dos alertas principais é contra seu uso concomitante com opióides, como codeína, heroína e morfina. Também é preciso ser cauteloso ao misturá-lo ao álcool, à cafeína, à cocaína e ao GHB.

Dicas de Redução de Danos

  • Saiba o que você está usando. Pesquise bem sobre a substância antes de tomá-la para entender seus efeitos e possíveis riscos.

  • Esteja com algum amigo ou pessoa de confiança ao usar a substância! Assim, caso bata qualquer bad, fica mais fácil de obter ajuda.

  • Não misture substâncias! O risco de interações pode ser alto, principalmente as citadas acima.

  • Manter a hidratação durante o uso é essencial para que se tenha uma experiência mais segura (cuidado pra não tomar MUITA água)

  • O MDMA pode elevar a temperatura corporal, causando hipertermia. Por isso, pausas nas danças e refrescadas banheiro são importantes! Vale lembrar que essa é a causa da maioria das partes dos episódios fatais em relação ao uso da droga.

  • Use-a em um local seguro, onde você não possa se machucar.

  • É importante manter o espaço entre uma dose e outra, pois é uma substância que, principalmente quando consumida em forma de cristais, pode ser difícil de dosar. Além disso, algumas anfetaminas demoram mais para atuarem no corpo.

  • O uso do MDMA e outras anfetaminas inibem o apetite. Por isso, se alimentar bem antes do uso é necessário.

  • Com o consumo de MDMA as pupilas ficam dilatadas, e por isso recomenda-se a utilização de óculos escuros se o indivíduo ficar exposto a luzes intensas e raios solares (Respire, 2016).

E aí, gostou de aprender tudo isso? É incrível como grande parte do que é considerado como droga hoje já foi usado medicinalmente. É aí que vemos que o maior “problema” não são as substâncias em si, e sim as relações perigosas que podem ser criadas com elas. A gente já conversou aqui sobre isso – e é realmente algo bem interessante de se trazer para o diálogo!

Dúvidas e comentários estão sempre abertos para quem quiser saber mais! Até a próxima.

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barbarabarbosa01@hotmail.com
1 ano atrás

Oii, onde moro chamamos os cristais de MD, seria de fato apenas uma substância? Ou o correto é MDMA?

Barbara
Barbara
1 ano atrás

Oii, onde moro chamamos os cristais de MD, seria de fato apenas uma substância? Ou o correto é MDMA?