GIRLS IN GREEN

Quer saber sobre aventuras e informações sobre um dos maiores produtores de Haxixe do mundo? Vem com a gente embarcar nessa viagem incrível que foi conhecer esse país.

Hoje vamos falar um pouquinho sobre um dos maiores produtores de haxixe do mundo, o Marrocos. Falando dessa forma, até parece que é algo que está dentro da lei, não é mesmo? Mas não é exatamente assim que isso acontece. A produção de cannabis e o consumo recreativo e medicinal no Marrocos ainda são proibidos, mas os governantes fazem vista grossa para a produção de haxixe. Fica evidente que a proibição não alcançou o que se propôs. 

Estima-se que, em 1970, 8% da população do Marrocos fumava cannabis. Atualmente, a economia da cannabis representa no mínimo 10% do Produto Interno Bruto da nação. Pelo menos 800 mil marroquinos vivem da produção de maconha e haxixe. O preço de um quilo do produto é aproximadamente € 500. Esses são alguns dos números interessantes que nos deparamos nas nossas pesquisas.

Vamos explicar um pouco sobre como e porquê a cannabis e a produção de haxixe ficam em um limbo na legislação do país, e também contar da experiência das manas do Girls in Green, que embarcaram e algumas aventuras no Marrocos em viagens distintas. Vem com a gente!

Haxixe Marroquino
Haxixe Marroquino

Cannabis no Marrocos

O consumo de cannabis no Marrocos é algo tradicional e secular. Os marroquinos inventaram o kif com tabaco e também a arte de fumar no sebsi, um cachimbo de acrílico. Os usos medicinais e religiosos eram feitos pelos diferentes povos que habitavam a região do Marrocos, mas principalmente os povos bérberes do norte do país.

Durante séculos, a legislação foi oscilando entre a regulamentação e a proibição. Pensando na história do país, foi em torno de 1890 que o sultão Mulay Hassan confirmou e autorizou o cultivo de cannabis em cinco douars, aldeias, das zonas tribais berberes de Ketama, Beni Seedat e Benni Khaled. Os impostos da venda de tabaco e kif seriam para o sultão. Em 1956, quando o Marrocos se tornou independente, o cultivo foi proibido, mas ainda acontece hoje nas mesmas áreas.

Cannabis secando de ponta cabeça
Processo de secagem da cannabis

Marrocos atualmente

Se você alugar um carro e for se aventurar (mesmo que seja em locais turísticos) pelas montanhas do norte do Marrocos, ver plantas de cannabis crescendo lindas e livres pelas montanhas é algo comum.

A realidade é que não há uma regulamentação formal para o cultivo no Marrocos: acontece uma tolerância informal, ou a vista grossa. O atual rei do Marrocos (sim, eles ainda tem um rei!) decidiu perdoar os cultivos nas cinco douars históricas. Uma curiosidade não oficial é que uma parte do lucro é pago ao rei pelos produtores de cannabis. Parece que fez sentido para o governo fazer vista grossa diante do cultivo nas remotas montanhas das Rif Mountains.

Em 2003, uma pesquisa feita pela UNODC mostrou que haviam 134.000 hectares cultivados nas fazendas ao norte do Marrocos, número equivalente aproximado a 130 mil campos de futebol. Diante desse número, o governo marroquino não poderia mais ignorar tanto assim o cultivo e começou campanhas de corte e queima de cultivos e apreensão de maconha. Em 2011, esse número baixou para 47.500 hectares.

Desde 2013, o Parlamento marroquino está estudando a possibilidade de regular a cannabis para usos industriais e medicinais. Esse é um esforço do governo para mudar a situação de “limbo” do Marrocos até a regulamentação total da planta, com leis específicas de taxação de cultivo e vendas.

Ainda hoje, o Marrocos é um dos maiores produtores de maconha e haxixe do mundo e o principal exportador para o território europeu. Os principais consumidores são justamente os antigos colonos do país, França e Espanha. Estima-se que 80% do haxixe que chega na França é marroquino.

Islamismo e Cannabis

Algumas interpretações do islam consideram que o consumo de cannabis é haram, pecado; contrário ao islam, outras dizem que é uma erva sagrada e medicinal. O texto do alcorão diz:

“Ó vós que credes! As bebidas inebriantes, os jogos de azar, a dedicação às pedras e as adivinhações com setas, são manobras abomináveis de Satanás. Evitai-os, pois, para que prospereis.”

— (Alcorão 5: 90)

Assim como todo texto, tal passagem abre espaço para interpretação. Claramente, o uso de álcool é contrário à religião, mas quando  se fuma maconha, o pensamento muda, mas não o comportamento. Esse é o argumento dos seguidores do islam que fazem uso de cannabis.

Os árabes foram os primeiros a extrair o haxixe da forma tradicional – lembrando que nem todo árabe segue o islamismo, pois o primeiro se trata de uma etnia e o segundo de uma religião. Mas, entre os primeiros árabes seguidores do islam que fizeram uso do haxixe em rituais para se conectar com o espírito, estão os sufistas, corrente mística do islam. Além da cannabis, outras ervas sagradas são usadas por eles.

Plantação de cannabis no Marrocos
Plantação de cannabis no Marrocos

Como é feito o Haxixe no Marrocos

Durantes os séculos de consumo da cannabis no Marrocos, o famoso kif foi perdendo espaço para o Haxixe e as imensas plantações outdoors, que colorem e perfumam as estradas da região Rif. Todas essas plantas não são cultivadas para serem consumidas em forma de flor – na realidade no Marrocos ninguém fuma flor, vocês acreditam? As plantas esbeltas, tanto macho quanto fêmeas, misturadas pela montanha, são destinadas para a produção do famoso dry sift (o que em português pode ser traduzido como peneirado a seco).

O ritual não é apenas histórico. Além de carregar tradição, ele possui ritmo. As plantas, já secas, são colocadas em grandes tambores cobertos por uma tela fina (alguns já até utilizam as diferentes micragens de malha) e outra lona por cima. Os batuques da produção começam e, com a força e pressão correta, as folhas dançantes se transformam em haxixe.

O processo de descarboxilação do dry hash é bem diferente do que estamos acostumadas a ver por aí! E isso foi algo que nós, do Girls in Green, tivemos chance de ver de pertinho, e até colocamos a mão na massa. O Frenchy Cannoli lançou a moda da prensagem para descarboxilação usando uma garrafa de vidro e água quente. No Marrocos, tivemos a chance de ver uma técnica mais rudimentar: o produtor coloca o kief dentro de uma caminha feita de fita adesiva, fecha, e bate nessa “bola” com um taco (tipo um taco de beisebol). Engraçado, não é? Nesse momento, nos questionamos onde que a temperatura se encaixava nisso, mas logo que pegamos a bola depois desse procedimento, ela estava totalmente quente devido à pressão. Trabalhando com a técnica marroquina de pressão e temperatura, é possível quebrar as cabeças dos tricomas e obter diferentes texturas e cores.

O hash marroquino também tem diferentes qualidades. Uma das mais conhecidas e apreciados no mercado europeu é aquela apelidada de “huevos”, devido ao seu formato. Os ovos são famosos pelo mundo todo, já que são embalados de forma que pessoas ingerem essas bolas, e vocês já conseguem imaginar por onde tais ovos saem, não é mesmo? Sim, daquele lugar. É bizarro pensar como a proibição trouxe as mais diversas dinâmicas do tráfico internacional de substâncias.

Vale lembrar que muitos países sustentam a sua demanda de haxixe com as produções  marroquinas através do tráfico internacional de drogas. Locais como os Países Baixos, que inclusive tem uma flexibilidade para a venda de cannabis e haxixe nos coffee shops, suprem a demanda dos cidadãos e dos turistas com haxixes trazidos do Marrocos. O mundo está uma bagunça e ninguém reparou!

Dry Sift do Marrocos, com plantação ao fundo
Dry Sift do Marrocos

Experiência do Girls in Green no Marrocos

Uma das coisas que mais gostamos de fazer é viajar para destinos relacionados com a temática que escolhemos estudar e, por isso, vamos compartilhar um pouco da experiência e impressões que tivemos em diferentes viagens pelo Marrocos.

Sinceramente, não é fácil ser mulher interessada em maconha e viajar em um país fechado como o Marrocos, com o objetivo de conhecer mais sobre a erva. Sabemos e fomos descobrindo pelo caminho a importância em ter determinados cuidados ao longo dessa viagem. Comportamentos, incluindo a forma que devemos nos vestir, mudam muito em um país tão dominado pela cultura patriarcal.

O patriarcado no Marrocos é apresentado de uma forma diferente que no Brasil. Mulheres têm menos oportunidades de se estabelecer em carreiras públicas ou de empreenderem, a maioria tem a vida de “dona de casa”. A maior parte da população segue o islamismo e por isso a maioria das mulheres cobrem pernas, ombros e o cabelo em respeito à religião.

Na maioria dos lugares, mulheres não trabalham com cannabis. O plantio, colheita e momento de fazer o tradicional haxixe é dominado por homens. Agora vocês conseguem imaginar como três mulheres brasileiras são recebidas na hora de querer visitar um espaço desses? Vale lembrar que a maioria das plantações se encontram em zonas rurais e mais remotas, nas montanhas do Marrocos.

Entre nós e amigas, que compartilham da experiência de desbravar fazendas de haxixe no Marrocos, existe um sentimento em comum de alerta e precaução. Os turistas são sempre avisados que o Rif não é uma região para passear e a realidade não foge muito dos alertas. Como em outros lugares que acontece uma atividade irregular, envolvendo muito dinheiro, é preciso cuidado. Isso acabou dificultando o objetivo que era subir adentro nas montanhas para ver as plantações e produções de haxixe.

Alice andando na plantação de cannabis no Marrocos
Plantação de cannabis no Marrocos

Ir com um contato é essencial, seja alguém que faz disso um tour canábico, ou com o de algum dono de fazenda. A Maria, quando foi, conseguiu subir com um guia e ver plantas esbeltas crescendo nas montanhas. A Alice tinha um contato, mas, devido à surpresas no caminho, esse contato não estava mais com a sua fazenda. Com jogo de cintura e sorte, todas nós conseguimos. A Alice acabou se aventurando em um pedido para entrar numa fazenda que dirigiu na frente. Mas mesmo assim, não era tão a fundo na montanha quanto o desejado.

A reação dos fazendeiros com mulheres tão interessadas em tal universo foi algo que nos surpreendeu. Era como se eles não entendessem que era uma possibilidade que tivéssemos essa paixão. A sensação que dá é que tivemos sorte, de encontrar uma pessoa legal pela estrada e pedir para visitarmos a sua fazenda. Mas mulheres, não recomendamos fazerem os mesmos e colocarem seus corpos em situações vulneráveis.

Cada uma, em sua viagem, conseguiu experimentar e mergulhar um pouco no universo do que é fazer haxixe no Marrocos. Tradição, cultura e paixão. Assim eu definiria o papel do haxixe na famílias, que conhecemos. Cannabis entre eles é coisa muito séria e exige respeito. Fumar um baseado é um momento especial, muitas vezes acompanhado de um bom chá de hortelã fresco. Apesar de não poder contar sempre com a sorte, considero uma das experiências mais marcantes que já tivemos viajando.

O que acharam dessas informações e aventuras pelo Marrocos?

Tem uma LIVE disponível no nosso IGTV que fala um pouco mais sobre e de forma super descontraída, se quiserem assistir.

Até a próxima aventura!

FONTES

Periódicos digitais

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT340675-17770,00.html

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/na-rota-do-kif/

https://maryjuana.com.br/2016/11/khize-profeta-islamico-maconha/

https://www.islamreligion.com/pt/articles/2229/o-alcool-no-isla/

Publicações impressas

Revista Cañamo, Barcelona, maio de 2014

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