Cultura

MARIA SABINA E A SABEDORIA DOS COGUMELOS MÁGICOS

Quando o assunto é o saber por trás da psilocibina e dos cogumelos mágicos, uma mulher especial se destaca. Hoje, falaremos mais sobre a história dela: Maria Sabina.

“Sou a mulher pedra do sol.

Sou a mulher luz do dia.

Sou a mulher que faz girar.

Sou a mulher do céu.

Sou a mulher do bem.

Sou a mulher espírito

porque posso entrar e posso sair

do reino da morte.”

— María Sabina Magadalena García

 

Nascida em 22 de julho de 1894 em Huautla de Jimenez, María Sabina é uma referência nos saberes originários mazatecas — principalmente quando o assunto são cogumelos mágicos. Essa xamã e curandeira foi quem abriu para o mundo as portas desse vasto universo, à custo de grandes perdas pessoais. 

A história de María Sabina envolve não apenas potentes saberes relacionados ao divino e à religião de seu povo, mas também abusos, traições e profundas feridas colonialistas. Como explica Osiris Sinuhé González Romero, o encontro forçado da mulher indígena com o antigo banqueiro estadunidense vice-presidente de J.P. Morgan, Robert Gordon Wasson, trouxe a ele todas as glórias por ter “descoberto” a psilocibina. A ela, restou a raiva por revelar os segredos de seu povo a alguém de fora.

Hoje, queremos trazer mais informações sobre María Sabina e suas “crianças”: os cogumelos mágicos. Acreditamos que ela merece muito mais reconhecimento e atenção, e que nos ensina lições preciosas não apenas em relação à substância, mas ao respeito que devemos aos povos nativos.

Vamos lá?

 

Como María Sabina conheceu os cogumelos mágicos

maría sabina
María Sabina em seus rituais com cogumelos mágicos, suas crianças. Imagens: DoubleBlind Magazine e David Ryan Photography.

A tradição mazateca, à qual María Sabina pertencia, tem uma longa história de uso ritualístico de cogumelos mágicos. Esses fungos eram considerados sagrados e eram utilizados em cerimônias religiosas e curativas para entrar em contato com o mundo espiritual e obter insights profundos.

María Sabina relatou que teve seu primeiro encontro com os cogumelos mágicos quando ainda era uma criança. De acordo com ela, aos seis ou sete anos de idade, um sábio ancião (Chotá-a-Tchi-née) foi chamado para curar seu tio. Esse xamã, então, deu ao seu tio alguns pares de cogumelos. Os outros adultos da família também participaram do ritual. Nele, cantos sagrados foram entoados para louvar aos espíritos de montanhas, fontes e plantas.

Isso foi o suficiente para instigar sua curiosidade ao redor dos fungos. Como eles eram encontrados facilmente em bosques ao redor de seu vilarejo, Sabina e sua irmã, María Ana, começaram a comê-los e entender como funcionavam. Quando essa irmã ficou doente, a indígena usou todas as suas experiências para desenvolver um ritual de cura com psilocibina que salvou sua vida. Então, a palavra sobre seus poderes místicos se espalhou pela região.

Ao longo dos anos, María Sabina se tornou uma curandeira respeitada e reconhecida por suas habilidades xamânicas. Sua abordagem ao uso dos cogumelos era profundamente enraizada na tradição mazateca e na espiritualidade indígena. Ela acreditava que os cogumelos eram mensageiros dos deuses, intermediários entre os seres humanos e o divino. Em suas cerimônias, ela cantava cânticos especiais e invocava os espíritos sagrados para guiar e curar os participantes.

Eventualmente, isso chamou a atenção de forasteiros.

 

Como Robert Gordon Wasson chegou até María Sabina?

O prestígio que María Sabina detinha em sua comunidade foi o que a conduziu a um encontro com Robert Gordon Wasson, um banqueiro poderoso e cheio de dinheiro, em 1955. Wasson já havia investigado em Oaxaca e até mesmo em Huautla, buscando compreender os usos rituais dos cogumelos sagrados. Esse encontro foi um momento paradigmático para o estudo e compreensão desses usos rituais e terapêuticos dos cogumelos.

Tanto em escritos voltados para o público em geral quanto na literatura científica do ocidente, havia uma crença equivocada de que os rituais com cogumelos mágicos haviam desaparecido após a colonização. Portanto, o encontro entre María Sabina e Wasson é de especial importância. Segundo Wasson, foi a primeira vez que essa medicina foi apresentada a (e dividida com) um homem branco.

Esse encontro traz à tona a assimetria de poder. Wasson, um ex-banqueiro que se tornou vice-presidente de J.P. Morgan, possuía recursos abundantes para financiar suas explorações. Em contraste, María Sabina era uma sábia reconhecida em sua comunidade. Apesar disso, ela não cobrou nada por suas cerimônias com cogumelos sagrados. Ela foi influenciada a aceitar o encontro com Gordon Wasson pelo administrador municipal de Huautla, Don Cayetano. Em uma entrevista nos anos 70, Wasson admitiu que a mazateca foi “convidada” por Don a realizar a cerimônia. Ela sentiu que não tinha outra opção senão concordar. 

A pressão exercida sobre María Sabina foi confirmada por ela em uma entrevista a Álvaro Estrada em 1976. Entretanto, a sábia curandeira afirmou que, mesmo que os forasteiros chegassem a ela em outro contexto, ela teria compartilhado com eles sua medicina. Para ela, não havia nada de errado com isso.

 

As consequências desse encontro

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María Sabina e Robert Gordon Wasson. Imagem: The Oaxaca Post.

O encontro com Wasson trouxe uma visibilidade internacional sem precedentes para María Sabina e sua prática com cogumelos mágicos. O artigo escrito por ele, publicado na revista Life em 1957, contava a história da jornada psicodélica vivida com María Sabina. Esse artigo chamou a atenção do público ocidental e acadêmico para a existência e profundidade das práticas xamânicas envolvendo os cogumelos sagrados na comunidade mazateca.

No entanto, essa crescente notoriedade teve consequências ambíguas para María Sabina e seu povo. Por um lado, a exposição trouxe uma maior conscientização sobre a riqueza das tradições indígenas e a espiritualidade associadas aos cogumelos. Por outro lado, também gerou uma exploração desenfreada e insensível da cultura mazateca por parte de turistas, pesquisadores e curiosos.

A cultura mazateca e suas práticas xamânicas foram submetidas a uma espécie de “exotificação”. Os aspectos sagrados das cerimônias eram explorados de maneira superficial, desrespeitando significados mais profundos e espirituais. Isso levantou preocupações sobre a preservação e a integridade das práticas culturais de María Sabina e sua comunidade.

Além disso, o turismo que surgiu após o interesse ocidental também impactou negativamente sua vida e as tradições locais. A busca por experiências espirituais e psicodélicas atraiu pessoas de todas as partes. Mas muitas vezes desconsideravam a importância da cerimônia e a relação respeitosa com os cogumelos sagrados. Essa invasão de turistas desconsiderados criou um desequilíbrio e transformou a prática em algo superficial.

Ao longo do tempo, María Sabina expressou arrependimento e preocupação em relação aos efeitos da atenção internacional. Ela sentia que os valores e a espiritualidade de sua comunidade estavam sendo erodidos. Sua tradição estava perdendo a autenticidade. 

 

E o que podemos tirar de tudo isso?

Refletir sobre a importância do respeito ao abordar psicodélicos, especialmente aqueles associados a povos originários e saberes ancestrais, é fundamental para garantir um diálogo ético e culturalmente sensível. Ou seja: se você se interessa por essa temática, lembre-se de:

  • Reconher a história e a cultura dos povos: os psicodélicos, como os cogumelos sagrados utilizados por povos indígenas, estão profundamente enraizados em tradições culturais e espirituais que remontam a séculos. É crucial reconhecer que essas substâncias têm significados profundos e simbólicos para essas comunidades. Seu uso está ligado a rituais, cerimônias e saberes ancestrais.
  • Respeitar tradições e práticas: ao falar sobre psicodélicos de povos originários, é essencial respeitar as tradições e práticas associadas a essas substâncias. Isso significa não apenas entender sua importância, mas também não desvirtuar ou simplificar essas práticas complexas em busca de uma compreensão fácil.
  • Responsabilidade na divulgação: ao compartilhar informações sobre psicodélicos, precisamos fazer isso de maneira contextualizada. Uma divulgação sensacionalista ou simplista, por exemplo, pode distorcer as práticas e crenças associadas a essas substâncias. Isso acaba reforçando estereótipos e preconceitos.
  • Conscientização dos impactos da exploração: o aumento do interesse ocidental nos psicodélicos pode ter impactos complexos nas comunidades indígenas. Isso pode variar desde o aumento do turismo até a exploração cultural. É fundamental considerar os impactos potenciais e trabalhar para mitigar quaisquer efeitos negativos.

 

Gostou de saber mais sobre María Sabina?

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Esperamos que esse artigo inspire você a entender mais sobre essa mulher incrível. Indicamos o livro “A Vida De Maria Sabina, A Sábia Dos Cogumelos”, de Alvaro Estrada, e o documentário “Maria Sabina, Mulher Espiríto“. Neles, você pode aprender ainda mais sobre sua vida e seus saberes mágicos.

Não esqueça de nos seguir lá no Instagram @girlsingreen710.

Até a próxima!

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