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Usar maconha é pecado? Talvez sua religião diga que sim, mas nem sempre foi o caso. Venha mergulhar nessa temática tão polêmica com a gente.

Hoje em dia, muita gente pensa que maconha e religião são assuntos que não se misturam — mas nem sempre foi assim. Desde os rituais antigos com a planta até a primeira Bíblia feita com papel de cânhamo: a cannabis teve, e ainda tem, contribuições riquíssimas para o nosso desenvolvimento social e espiritual.

Enquanto muitas religiões (e pessoas religiosas) enxergam a maconha e outras substâncias com maus olhos, algumas as usam como ferramentas de libertação, expansão mental e até mesmo forma de nos aproximar do divino. 

E, embora a relação ainda seja espinhosa, temos alguns exemplos lindos de pessoas religiosas que buscam acabar com esse preconceito. Um dos casos mais conhecidos é o do Padre Ticão, que lutou durante sua vida por garantir o acesso de todos à medicina canábica. Saudades dessa figura tão emblemática para a nossa luta!

Vamos entender a história da maconha junto de algumas das maiores religiões do mundo, e como isso se reflete nos dias de hoje? Vem com a gente!

Maconha em religiões antigas

A maconha tem um passado extenso, e já foi muito usada por religiões antigas do oriente bem antes do cristianismo se estabelecer. Algumas das menções mais notáveis são:

Religiões da China antiga e cannabis

Os xamãs taoístas usavam a maconha para revelar o futuro, acreditando que a planta tinha a capacidade de fazer seu espírito viajar no tempo. No taoísmo, religião que surgiu por volta do século IV a.C., o consumo da planta era reservado a oficiais religiosos e não compartilhado com pessoas comuns — o que explica um pouco sua exclusão de textos antigos. 

Por volta de 200 d.C., a Dinastia Han da China Imperial abraçou o confucionismo, abandonou o taoísmo e, com ele, a cannabis.

Bhang, bebida hindu a base de cannabis feita durante os festivais religiosos.
Bhang, bebida hindu a base de cannabis feita durante os festivais religiosos.

Maconha na religião indiana

Acredita-se que foi apenas em 200 d.C. que o uso religioso da maconha começou a se estabelecer na Índia. Como já contamos por aqui, diz-se que os deuses enviaram o cânhamo por compaixão pela raça humana, para que pudessem obter prazer, perder o medo e aumentar os desejos sexuais. 

Até hoje, não há dúvida de que a maconha ocupa um lugar sagrado na fé hindu. Na prática, a divindade hindu localmente favorecida recebia (e ainda recebe) o bhang como oferenda — uma bebida à base de cannabis feita durante os festivais religiosos. Os membros da comunidade também participam, compartilhando tigelas de maconha entre si.

Tradições religiosas tibetanas e maconha

O Tibete é uma nação historicamente budista, e divide muitas tradições com a Índia — sua vizinha. No Budismo Mahayana, um dos dois principais ramos da religião, diz-se que Sidarta Gautama (o Buda) comeu apenas uma semente de cânhamo por dia durante seis anos para ajudar em seu caminho para a iluminação. 

Buda às vezes é retratado segurando uma tigela de “soma”, ou folhas de cannabis. Os praticantes budistas costumavam consumir a planta para facilitar a meditação ou aumentar a consciência durante as cerimônias religiosas.

Cannabis na religião grega antiga

Antigas culturas da Cítia e da Assíria eram conhecidas por queimar incensos de maconha em suas cerimônias religiosas. Heródoto, um historiador grego do século V a.C.. conhecido como o “Pai da História”, escreveu:

“Do mencionado cânhamo tomam, então, a semente os citas impuros e contaminados por algum enterro jogando-a aos punhados sobre as pedras penetradas pelo fogo, enquanto eles ficam dentro de sua estufa. A semente levanta uma fumaça cheirosa e desprende tanto vapor que não há estufa alguma entre os gregos que supere isso. Ao mesmo tempo, os citas gritam de prazer, como se estivessem se banhando em água de rosas e esta função lhes serve de banho, porque nunca se habituaram a tomar banho”. 

Acredita-se que os assírios tenham usado incenso de cannabis já no século 9 a.C., embora ainda não haja evidências arqueológicas para apoiar essa afirmação. Mas o que se sabe é que a planta era comumente queimada durante rituais funerários e para expulsar espíritos malignos dos quartos das crianças.

A maconha no Antigo Testamento

Alguns estudiosos acreditam que as tradições judaicas e cristãs também usavam a maconha. 

Olha só que louco: em 1936, a etimóloga polonesa Sula Benet propôs uma nova interpretação radical do texto hebraico do Antigo Testamento. Segundo ela, um erro de tradução ocorrido na versão grega original do Antigo Testamento confundiu a palavra hebraica para cannabis, kaneh bosm, como cálamo, uma planta tradicionalmente usada para fazer fragrâncias. 

Se a tradução dela estiver correta, isso mudaria fundamentalmente nossa compreensão do Antigo Testamento. Referências a kaneh bosm são feitas em Êxodo, Cântico dos Cânticos, Isaías, Jeremias e Ezequial. No Êxodo, Deus ordenou a Moisés que fizesse um óleo sagrado composto de mirra, canela doce, kaneh bosm e cássia.

Maconha nas religiões modernas

Muita coisa mudou quando falamos das religiões modernas! Enquanto algumas colocam uma proibição moral em relação a todas (ou a maioria) das drogas que conhecemos, outras já reconhecem a maconha como ferramenta.

O efeito psicoativo e recreativo do álcool é celebrado no cristianismo
O efeito psicoativo e recreativo do álcool é celebrado no cristianismo

Cristianismo e maconha

Um dos princípios mais difundidos da fé cristã é a ideia de que o corpo é um templo do Espírito Santo (Coríntios 6:19–20). Por isso, drogas usadas para a cura podem ser vistas como parte natural do estilo de vida cristão. Inclusive, está declarado no Salmo 104:14 que Deus criou ervas para o serviço da humanidade.

Usando esses versículos bíblicos como guia, o uso medicinal de canabinoides não psicoativos (como o CBD) pode ser visto como mais do que aceito pela tradição cristã.

E o uso recreativo? Aqui, é útil olhar para uma das drogas favoritas do cristianismo: o álcool. Ele é uma parte tão integral da liturgia cristã que o primeiro milagre registrado de Jesus foi transformar água em vinho (João 2:1-11). Seu efeito psicoativo e recreativo é celebrado, como nesta frase de Salmo 104: 14–15, que afirma que Deus deu “vinho para alegrar o coração do homem”.

Entretanto, nas tradições cristãs mais conservadoras, a maconha tem sido frequentemente denunciada como pecado ou até mesmo ferramenta do diabo. O notório filme de propaganda antiproibicionista Reefer Madness foi originalmente produzido por um grupo de igreja cristã.

Ainda hoje, alguns líderes cristãos lutam para manter todas as formas de maconha ilegais. 

Ilustração mostrando o uso de haxixe no livro "A Erva: Haxixe Versus a Sociedade Medieval Muçulmana"
Ilustração mostrando o uso de haxixe no livro “A Erva: Haxixe Versus a Sociedade Medieval Muçulmana”

Islamismo e maconha

Não há proibição explícita de cannabis no Alcorão, nem na Sunnah. No entanto, muitos estudiosos podem argumentar que só porque as escrituras são omissas sobre o assunto, isso não significa que a planta seja halal (permitida).

O maior problema com a maconha e o Islã está no efeito intoxicante da planta. A maioria dos argumentos que apoiam sua proibição religiosa são baseados no versículo 219 da segunda surata e nos versículos 90/91 da quinta surata, que sustentam que o vinho deveria ser proibido porque é considerado uma ferramenta de Satanás. Os juristas islâmicos acreditam que, por extensão, todo intoxicante deve cair na mesma categoria.

Mas o THC é realmente um intoxicante no mesmo sentido que o álcool? Na Sunnah, Muhammad proíbe o vinho porque seu abuso pode “prejudicar o intelecto”. O efeito do THC pode variar muito de usuário para usuário e de cepa para cepa. Portanto, cabe a cada crente considerar honestamente se o consumo de cannabis está afetando seu julgamento, caso em que seria haram (proibido), ou se está tendo um efeito positivo na maneira como eles percebem a realidade, caso em que seria halal.

Judaísmo e maconha

Como já falamos acima, quando trouxemos dados sobre o Antigo Testamento, a relação entre a cannabis e o povo judeu remonta a milhares de anos. Mas é mais do que isso: o Talmud inclui uma explicação de como cultivar cannabis. O mais importante estudioso da Torá da Idade Média, Maimonides, descreveu como usá-lo para ajudar com doenças respiratórias. O líder espiritual do século 16 do Cairo, rabino ben Solomon ibn Abi Zimra, falou positivamente sobre os efeitos edificantes da planta.

Hoje, as certificações Kosher para medicamentos de maconha já foram concedidas por rabinos nos EUA e no Canadá, o que abre caminho para o consumo de cannabis medicinal no judaísmo.

Não há nada inerentemente errado com a planta de cannabis dentro da Lei Judaica (como declarado por Deus em Gênesis 1:29: “Eu dei a vocês todas as ervas que dão semente, que estão sobre a face de toda a terra…”). Usá-la para razões terapêuticas, como reduzir o estresse ou ajudar na concentração, pode ser considerado perfeitamente aceitável ​​dentro da tradição judaica, como foi afirmado por vários rabinos contemporâneos.

Jah, Deus dos Rastafaris
Jah, Deus dos Rastafaris

Os rastafári e a maconha

O movimento Rastafari se concentra em Jah, ou Deus, e envolve o uso espiritual da maconha e a rejeição do materialismo e da opressão. O uso de maconha pelos rastafáris foi objeto de escrutínio no século 20. Processos legais prolongados culminaram na Lei de Liberdade e Restauração Religiosa de 1993, que declarou que o consumo de cannabis e outras substâncias é legal sob a lei dos EUA para fins espirituais e religiosos. 

Uso da maconha nas religiões brasileiras

De acordo com o livro Fumo de Negro, de Luisa Saad, a maconha chegou no Brasil junto com os povos africanos escravizados. No seu continente de origem, a erva era tinha utilizações religiosas e sagradas — mas que passaram a ser proibidas e criminalizadas junto a outras práticas. De acordo com ela, os chamados “fumadores das macumbas e do catimbó” eram vistos como pessoas de vícios, e suas religiões eram rodeadas do que chamavam de magias e misticismo.

Com a proibição, a maconha também se retirou dos terreiros. 

Hoje, algumas religiões do Brasil ainda enxergam a maconha como sagrada. Apesar do proibicionismo, algumas linhas do Santo Daime resistem e seguem consagrando a planta, que chamam de “Santa Maria”. O curandeiro Sebastião Mota dizia que, assim como a ayahuasca, a planta estava sendo perseguida, mas que sua esperança era sua liberação dentro dos cultos. 

Nesse texto incrível do Chacruna, você pode entender melhor a ligação entre o Santo Daime e a cannabis.

E aí, conseguiu entender como a maconha e a religião são ligados, apesar dos pesares? Nós acreditamos que a proibição seja a grande responsável pelo preconceito contra essa planta, que já esteve tão ligada aos cultos e à espiritualidade. Esperamos que, com a luta antiproibicionista, ela possa novamente transitar por esses espaços e reconquistar seu lugar sagrado na história.

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Até a próxima!

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