GIRLS IN GREEN

Em 2020, 37,6 milhões de pessoas estavam vivendo com HIV no mundo, segundo a UNAIDS. Lutar contra o estigma e trazer informações sobre a condição tem tudo a ver com a Redução de Danos e com a cannabis. Vem entender como!

Assim como a própria maconha, a AIDS e o HIV possuem um histórico regado por estigmas, mitos e preconceitos. Sua própria história converge com a da Redução de Danos – que teve início através dos cuidados, de usuários para usuários, para evitar o contágio através de seringas e materiais compartilhados para o uso de substâncias injetáveis. Infelizmente, desde o seu aparecimento e disseminação na década de 80, poucos passos foram dados e a nebulosidade do assunto se torna um fator de medo para muitas pessoas.

Da mesma maneira como para o uso de substâncias, acreditamos que a informação seja o melhor remédio para a desestigmatização. 

Atualmente, com o aumento das pesquisas ao redor da maconha como ferramenta terapêutica e medicinal, também vemos muitos estudos sobre como a nossa amada plantinha pode ajudar a melhorar a qualidade de vida de quem vive com o vírus! A cannabis já é apontada como um remédio natural contra náuseas, dores, ansiedade, depressão e muitos outros fatores que dificultam os dias de pessoas com HIV.

Mas, primeiro, precisamos entender melhor a doença, seus sintomas e possíveis complicações, e também formas de ajudar a combater toda a desinformação que ainda envolve ela e as pessoas que são afetadas – que, além de sofrer com os sintomas, ainda são alvo de escrutínio por uma boa parte da sociedade em que vivemos. Para isso, contamos com a ajuda do @tudosobrehiv, que faz um trabalho incrível de disseminação de conteúdo sobre a temática!

Vamos falar mais sobre isso?

HIV e AIDS: o que são? 

Primeiro, precisamos entender: HIV e AIDS não são a mesma coisa! Por definição da UNAIDS, HIV é a sigla que se refere ao vírus da imunodeficiência humana, e é ele que pode levar à síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Ainda segundo o órgão, ao contrário de outros vírus, o corpo humano não consegue acabar com o HIV, o que significa que os pacientes, uma vez infectados, vivem com o vírus para sempre.

O HIV normalmente se espalha através de fluídos corporais e afeta células específicas do sistema imunológico, conhecidas como células CD4, ou células T. Sem o tratamento antirretroviral, o HIV afeta e destrói essas células específicas do sistema imunológico e torna o organismo incapaz de lutar contra infecções e doenças. Quando isso acontece, a infecção por HIV leva à AIDS.Embora ainda não exista uma cura para o HIV, cientistas ao redor do planeta seguem trabalhando incansáveis por isso – e permanecem esperançosos. Em vários lugares, vacinas para combater a condição estão sendo desenvolvidas – o que nos deixa pra lá de felizes. Mas, enquanto elas não são aprovadas, com cuidados apropriados, o HIV pode ser controlado. Geralmente, seu tratamento é denominado terapia antirretroviral (ou ARV) e pode prolongar expressivamente as vidas de muitas pessoas infectadas, além de reduzir de maneira significativa as chances de transmissão. Antes da introdução da ARV na metade dos anos 90, pessoas com HIV progrediam para a AIDS em apenas alguns anos. Hoje em dia, alguém diagnosticado com HIV e tratado antes do avanço da doença pode ter uma expectativa de vida igual à de uma pessoa não infectada!

Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2020, apresentado pelo Ministério da Saúde, atualmente cerca de 920 mil pessoas vivem com HIV no Brasil: 89% delas foram diagnosticadas, 77% fazem tratamento com antirretroviral e 94% das pessoas em tratamento não transmitem o HIV por via sexual, por terem atingido carga viral indetectável. Até outubro do ano passado, cerca de 642 mil pessoas estavam em tratamento com antirretroviral, enquanto, em 2018, eram 593.594 pessoas em tratamento.

O dia 1º de dezembro é marcado como o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, e traz ações de conscientização e prevenção.fonte: Arapiraca

Quais os estágios do HIV? 

A progressão do HIV é bem documentada – e, se não tratado, ele é quase universalmente fatal, já que eventualmente compromete e destrói o sistema imunológico do paciente – resultando na síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). Por isso, o tratamento para o HIV é tão importante: ele ajuda em todos os estágios da doença, e pode desacelerar ou prevenir a progressão de um estágio para o outro.

Imagem explicando a diferença entre um Portador de HIV X AIDS
Portador de HIV X AIDS

Esses estágios são:

  • Infecção aguda: entre 2 e 4 semanas depois da infecção pelo HIV, o paciente pode se sentir doente, com sintomas similares aos da gripe. Essa fase é denominada síndrome retroviral quanaguda (ARS) ou infecção HIV primária, e é a resposta natural do corpo à infecção por HIV. No entanto, nem todo mundo desenvolve ARS – e algumas pessoas podem ser assintomáticas – e aí entra a importância da testagem. Nesse período, o vírus usa células do sistema imunológico, conhecidas como células CD4, para fazer cópias de si mesmo e destruir essas células no processo. Por esse motivo, a quantidade de células CD4 pode diminuir rapidamente.

  • Fase assintomática (latência clínica, inatividade ou dormência): nesse estágio, o HIV ainda está ativo, mas se reproduzindo em níveis muito baixos. É importante lembrar que ainda é possível transmitir HIV para outras pessoas durante essa fase mesmo passando por um tratamento antirretroviral, em que os riscos são bastante reduzidos. Entre o meio e o fim desse período, a carga viral do paciente começa a crescer e a contagem de células CD4 passa a diminuir. Enquanto isso acontece, ele pode apresentar sintomas do HIV – uma vez que o sistema imunológico se torna fraco demais para proteger.

  • Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS): essa fase ocorre quando o sistema imunológico está seriamente danificado e o paciente se torna vulnerável a infecções e cânceres relacionados a infecções – as chamadas doenças oportunistas. Quando o número de suas células CD4 cai abaixo de 200 células por milímetro cúbico de sangue (200 células/mm3), é considerado que você progrediu do HIV para a AIDS. (A contagem normal de CD4 fica entre 500 e 1.600 células/mm3).

Como o HIV é detectado? 

A única forma de saber se você está infectado com HIV é por meio do teste – por isso, é importante realizá-lo periodicamente!

A verdade é que o HIV possui alguns sintomas, mas não é possível confiar 100% neles, já que muitos dos pacientes podem ser assintomáticos por muitos e muitos anos. Algumas pessoas infectadas com o HIV relatam ter sintomas semelhantes aos da gripe de 2 a 4 semanas após a exposição. Eles geralmente envolvem:

  • Febre;

  • Aumento dos gânglios linfáticos;

  • Garganta inflamada;

  • Erupção cutânea ou assadura;

Para informações sobre onde encontrar um teste de HIV, consulte o site do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Se você testar positivo, você deve consultar o seu médico assim que possível para começar o tratamento!

Como a maconha pode ajudar pacientes vivendo com HIV? 

A maconha tem sido pesquisada e usada para tratar muitas das complicações da doença, que vão desde os sintomas da síndrome de caquexia até os efeitos colaterais associados ao uso de medicamentos antirretrovirais.
Embora existam outros medicamentos de última geração que têm reduzido muito a incidência e a gravidade de muitas dessas complicações, a maconha ainda é popularmente aceita como um meio de aliviar a dor, náusea, perda de peso e depressão que podem acompanhar a infecção. Houve até sugestões de que a maconha pode trazer benefícios de longo prazo ao retardar efetivamente – ou até prevenir – a progressão da doença. Mas preferimos focar no que já temos maiores evidências até agora!

plantas de maconha
plantas de maconha
  • O THC pode aumentar o apetite

A perda de apetite é frequentemente relatada por pessoas com AIDS, mas é essencial que elas se alimentem bem e evitem a perda de peso – que pode levar à caquexia, uma atrofia muscular severa e debilitante. Então, o que fazer? Quando a perda de apetite se torna um problema, a cannabis pode ser usada para promovê-lo!

Uma pesquisa de 2005, feita com 523 pacientes HIV-positivos, descobriu que 27% dos entrevistados usavam cannabis para controlar seus sintomas – e 97% deles relatou que eles experimentaram melhorias no apetite. Já em 2007, um estudo duplo-cego examinou os efeitos da cannabis fumada e do dronabinol oral (uma medicação que contém a forma sintética de THC). Este estudo descobriu que tanto a cannabis quanto o dronabinol aumentaram a ingestão calórica em comparação com o placebo.

Uma pesquisa mais recente, de 2018, afirmou que o vapor da planta (usado para simular como as pessoas normalmente consomem cannabis) resulta em refeições mais frequentes, embora sejam menores. Portanto, acredita-se que de alguma forma engane os sensores de apetite do cérebro para que sintam a fome. É importante ressaltar que essa pesquisa foi feita com ratos – mas trouxe um resultado bem alinhado ao das outras, feitas diretamente com pacientes.

  • Ajudar contra náuseas

Esse efeito já foi muito explorado também por conta de outras doenças e tratamentos – como o caso da quimioterapia para pacientes com câncer. No caso do HIV, a náusea é um sintoma comum e, à medida que a doença progride, suas causas podem se tornar cada vez mais complexas. Ela pode surgir devido a problemas gastrointestinais, disfunção hepatorrenal, distúrbios do sistema nervoso central ou como resultado de tratamentos usados para a doença.

O canabidiol alivia vômitos e náuseas ao ativar indiretamente um receptor de serotonina específico no núcleo dorsal da rafe (um local específico na linha média do tronco cerebral).

Além disso, a pesquisa com pacientes de 2005, já mencionada anteriormente, descobriu que 93% dos usuários de cannabis HIV-positivos relataram melhorias na náusea após fumar. Outro estudo de 2005 mostrou também que, entre os pacientes com náuseas, aqueles que usaram cannabis eram mais propensos a aderir às suas terapias antirretrovirais do que os não usuários.

  • Promover melhora na saúde mental

Ansiedade, depressão e transtornos do humor são uma característica comum do HIV e da AIDS, e podem se desenvolver devido a uma combinação de pressões fisiológicas, psicológicas e sociais negativas. O estudo de 2005 com pacientes descobriu que 93% dos entrevistados experimentaram alívio da ansiedade depois de usar cannabis, enquanto 86% relataram uma melhora na depressão também.

O estudo duplo-cego de 2007 sobre cannabis e dronabinol, já mencionado acima, também revelou que ambas as substâncias melhoraram o humor dos entrevistados e causaram um “efeito de boa droga” – aumentando os sentimentos de amizade, estimulação e autoconfiança.

Mas aqui, a gente também pede um pouquinho de cuidado! Doses mais altas de THC já foram associadas a crises de ansiedade e pânico, além de serem potencialmente prejudiciais para pacientes com histórico de psicose e esquizofrenia na família.

  • Ter propriedades analgésicas

O HIV e a AIDS podem causar dores severas e debilitantes, incluindo dores nas articulações, nervos e músculos. Um estudo de 2011 com 296 pacientes em desvantagem socioeconômica descobriu que 53,7% tinham dor intensa, 38,1% dor moderada e 8,2% dor leve. Mais da metade dos indivíduos tinha uma prescrição de analgésico opioide, e as dores mais intensas também se correlacionaram com a incidência de depressão.

A pesquisa com pacientes de 2005 descobriu que 94% dos entrevistados sentiram alívio das dores musculares como resultado do uso de cannabis. 90% também relataram melhora na neuropatia (dor nos nervos) e 85% na parestesia (sensação de queimação e formigamento).

O fato de que a cannabis pode fornecer alívio significativo de longo prazo da dor crônica em pacientes com HIV e AIDS é incrível, principalmente por ser uma opção mais segura e barata para substituir o uso de opioides – que podem causar relações de uso negativas e até overdoses.

  • Reduzir a neuropatia periférica

Uma forma específica e particularmente comum de dor associada ao HIV e à AIDS é a neuropatia periférica, na qual um ou mais nervos do sistema nervoso periférico são danificados e causam dor, espasmos , parestesia, perda muscular e coordenação prejudicada. Foi demonstrado que a cannabis pode ajudar a melhorar os sintomas da neuropatia periférica no HIV e na AIDS, bem como em outras condições em que aparece, como o diabetes.

Um ensaio randomizado publicado em 2007 descobriu que a dor foi reduzida em mais de 30% em 52% do grupo de usuários de cannabis e em apenas 24% do grupo de controle, e que não houve efeitos adversos graves. O primeiro baseado fumado pelos pacientes usuários de cannabis reduziu a dor em uma média de 72% em comparação com 15% no grupo do placebo. Já em 2009, um estudo duplo-cego mostrou que, de 28 indivíduos, a neuropatia foi reduzida em mais de 30% em 46% do grupo de usuários de cannabis e 18% do grupo de controle.

Redução de Danos, prevenção e desestigmatização

No Brasil, o primeiro caso de HIV foi registrado em 1980, mas confirmado apenas dois anos mais tarde, quando a doença foi reconhecida. E aí começou a estigmatização: por algum tempo, foi chamada de “doença dos 5 H”, porque afetava homossexuais, hemofílicos, haitianos, usuários de heroína injetável e profissionais do sexo (“hookers”, em inglês). Não demorou para que a demonização por parte da imprensa começasse, se referindo à condição como “câncer gay” ou “praga gay”.

Como já mencionamos, o espalhamento dessa doença entre usuários de drogas injetáveis foi o maior marco para a criação do que hoje conhecemos como Redução de Danos. Entre 1986 e 1987, surgem os primeiros centros de distribuição e troca de agulhas e seringas na Holanda e Inglaterra, e a AIDS fez com que se estabelecesse um novo olhar em relação ao fenômeno do uso de drogas. Em decorrência da possibilidade de transmissão do vírus entre usuários de drogas intravenosas, ações preventivas que não tinham como objetivo a abstinência foram instauradas.

Em 1998, já acontecia uma diminuição drástica na incidência dessas doenças entre usuários de drogas intravenosas. Essa estratégia, além de reduzir o dano que a droga trazia, possibilitou uma aproximação com os usuários para tratar de outras questões que não eram apenas o uso da droga em si – possibilitando a criação de vínculos não institucionais e a aproximação para enxergar outras demandas existentes desse grupo de indivíduos. O acolhimento e a educação sem estigmas viraram o foco. Aqui no Brasil, o Centro É de Lei foi pioneiro!

Mas não é só a partir da Redução de Danos que devemos pensar na prevenção. A “prevenção combinada”, defendida por especialistas, envolve intervenções comportamentais (informação, incentivo ao uso da camisinha, redução de danos), biomédicas (tratamento de todos os indivíduos diagnosticados e uso preventivo de antirretrovirais) e também estruturais (enfrentamento ao preconceito, combate à violência sexual e garantia de direitos humanos). Como podemos observar na mandala, existem vários pontos importantes:

Usar preservativo masculino, feminino e gel lubrificante são as melhores formas de prevenir o contágio por meio de relações sexuais.

O diagnóstico e tratamento universal de pessoas com HIV, ISTs, HV e a imunização contra HBV e HPVs também fazem parte do espectro da prevenção combinada, e precisam ser tratados com maior atenção pelo Sistema Único de Saúde.

A Profilaxia Pré e Pós-Exposição (PEP e PrEP) salvam vidas. A PEP é a utilização de antirretrovirais durante 28 dias seguidos, logo após a exposição, que pode reduzir o risco de infecção pelo HIV. É indicado em situações como relações desprotegidas com parceiros não testados, rompimento da camisinha, sexo sem consentimento, violência sexual ou acidentes com perfurocortantes ou material biológico. A profilaxia deve ser iniciada de preferência nas primeiras duas horas e no máximo 72 horas após a exposição. O tratamento, disponível gratuitamente no SUS, dura 28 dias e a pessoa deve ser acompanhada pela equipe de saúde. Já a PrEP consiste no uso regular de antirretrovirais, ou seja, tomar remédio todo dia, para evitar uma eventual infecção. É indicada para indivíduos em um relacionamento com parceiro HIV+, homens que fazem sexo com outros homens (HSH) e não usam camisinha em todas as relações sexuais, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, usuários de drogas ou álcool que apresentam comportamentos de risco, transexuais com comportamento sexual de risco e indivíduos com várias prescrições de PEP. Mas isso não substitui o uso de camisinha, ok?Acima de tudo, acreditamos que é necessário espalhar essas informações para acabar com o medo e o estigma provocados por anos de preconceito e mitos espalhados por aí. A Redução de Danos, o acolher com amor e sem julgamentos, precisa ser voltado com tanta força para as pessoas que convivem com o HIV e com a AIDS quanto para usuários e usuárias! Com esse conteúdo, esperamos trazer um pouquinho mais de luz sobre essa temática tão essencial. E não esqueçam que a prevenção é tudo.

E aí, gostaram do post? Se ficou com alguma dúvida ou quer deixar o seu alô, é só comentar aqui ou seguir a gente lá no Instagram @girlsingreen710!

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