GIRLS IN GREEN

A gente conhece bem o estereótipo do maconhista esquecido, mas será que ele é verdadeiro? Vamos entender a relação entre a maconha e nossas memórias.

Quem nunca fumou um baseadão que fez esquecer da vida que atire a primeira pedra. Ficamos chapadas e chapados justamente por conta dos efeitos psicoativos da maconha, que interagem com nosso cérebro (e o resto do corpo) através do nosso sistema endocanabinoide — e isso é um fato. Mas e quando o assunto é maconha e memória, como podemos entender essa relação?

À medida que nossa compreensão da maconha aumenta, pesquisas nos trazem evidências crescentes de que a maconha afeta as nossas lembranças. Mas nem sempre essa influência é negativa! Embora certas formas de memória possam ser prejudicadas pelo uso da nossa plantinha favorita, em outros casos, a cannabis pode ajudar com distúrbios relacionados à ela. 

Vamos mergulhar nessa temática e entender melhor, através dos estudos que já temos, se a maconha é mesmo a inimiga da memória como tantos pintam por aí. 

Vem com a gente!

Para começar: o que é memória?

A memória é das nossas funções cerebrais mais importantes: é ela que nos ajuda a tomar decisões, interagir com outras pessoas e criar laços, manter nosso senso de identidade e lembrar de tudo que aprendemos. E a sua formação acontece através de processos bastante dinâmicos: nosso cérebro está sempre ativo registrando o que acontece.

E olha que interessante: assim que um grupo específico de neurônios é ativado pela segunda vez, uma memória nasce. Essa reativação fortalece as sinapses, que são basicamente “trocas” entre os neurônios. Quando relembramos algo, reativamos novamente aquele grupo específico de neurônios que formou a memória.

Mas, enquanto recentes, as memórias são bem frágeis e podem ser corrompidas por vários fatores, que incluem o uso de substâncias e até a falta de sono. Com o tempo, elas ficam mais fortes à medida que são consolidadas em nosso cérebro. Se as memórias acumuladas não são reativadas, acabam se perdendo — por isso que praticar seus conhecimentos é tão importante nos processos de aprendizagem.

Os cientistas classificam as memórias de diferentes maneiras, mas normalmente concordam que existem dois tipos principais: as memórias de curto prazo e de longo prazo. Diferentes partes do cérebro são responsáveis ​​pelo processamento e armazenamento de cada tipo:

  • O hipocampo é o principal responsável pela memória e aprendizado de curto prazo, enquanto o córtex pré-frontal desempenha um papel crítico na memória de longo prazo. 
  • No entanto, há uma constante interação entre essas duas regiões do cérebro, que funcionam em conjunto quando uma memória é trazida à tona.
foto colorida da Alice dando um dab e soltando a fumaça
Alice dando um dab

E como a maconha pode afetar a memória?

A maioria das pesquisas sugere que os efeitos da maconha na memória são provocados principalmente por sua ação no hipocampo. Essa região do cérebro conta com vários receptores CB1, e desempenha um papel importante na memória e no aprendizado. Mas o THC e o CBD podem afetar o hipocampo de maneira diferente:

O THC, conhecido por suas propriedades chapantes, tem uma forte afinidade pelos receptores CB1 e se liga a eles quando consumido. Após a ligação, esse canabinoide pode prejudicar temporariamente a memória de curto prazo e o aprendizado, dificultando a concentração, o armazenamento e a recuperação de informações.

Já o CBD parece ter um efeito diferente. Pesquisas recentes mostraram que o canabidiol pode aumentar o fluxo sanguíneo no hipocampo, o que é associado a um melhor desempenho da memória.

Os pesquisadores do estudo acima também especulam que o aumento do fluxo sanguíneo cerebral pode ajudar a tratar indivíduos com declínio cognitivo, como a doença de Alzheimer, na qual há defeitos no controle do fluxo sanguíneo.

Memória de curto prazo e maconha

A memória de curto prazo é o mecanismo que processa e armazena temporariamente as informações que acabamos de receber. Lembrar o nome de alguém que você acabou de conhecer, por exemplo. 

Essa memória de curto prazo também inclui a chamada memória de trabalho, que manipula e aplica essas memórias de curto prazo. Um exemplo de memória de trabalho é quando ouvimos e entendemos uma história que nos é contada simultaneamente.

Ao que tudo indica, o THC pode prejudicar a memória de curto prazo.

Um estudo de 2020 descobriu que uma dose de 15 mg de THC pode prejudicar nossa memória de trabalho. Os participantes foram expostos a uma imagem de seis blocos coloridos e, após um intervalo de um segundo, tiveram que lembrar a localização e a cor de cada um dos blocos. Quem não recebeu maconha teve um desempenho significativamente melhor do que quem tomou a dose.

Mas é importante pontuar que os participantes que receberam uma dose de 7,5 mg não tiveram um impacto perceptível.

Além disso, os pesquisadores entenderam que o THC prejudica o foco. Ou seja: ele pode prejudicar nossa memória de curto prazo justamente por tirar nossa capacidade de concentração e atenção. Entretanto, isso pode gerar também problemas no aprendizado e na consolidação de memórias.

foto colorida da Alice dando um dab e soltando a fumaça
Cannabis na flora

Uso de maconha e memória de longo prazo

No caso da memória de longo prazo, temos um enorme repositório de conhecimento e eventos anteriores que guardamos por meses, anos ou mesmo décadas. Nossas memórias de curto prazo se consolidam e se tornam memórias de longo prazo, que podemos acessar à vontade. Quanto mais relembramos os fatos, mais claros eles se tornam.

Temos bem menos pesquisas sobre os efeitos da cannabis na memória de longo prazo.

Uma revisão de 2021 sugere que usuários crônicos de maconha sofrem de comprometimento da memória de longo prazo. Porém, outro estudo do mesmo ano explorando os efeitos da maconha na memória visual episódica (um tipo de memória de longo prazo) descobriu que quem usa a erva ocasionalmente não apresentava problemas na memória de longo prazo. Nessa segunda pesquisa, os indivíduos usaram a planta pelo menos uma vez por mês durante um período de pelo menos dois anos.

Gravações e análises das ondas cerebrais demonstraram que, embora os usuários de maconha processassem suas memórias de maneira diferente, a qualidade geral de suas memórias era boa. Eles também foram capazes de formar memórias de longo prazo.

A maconha pode ter algum benefício para a memória?

Se você já estava apagando o baseado, calma aí: há também uma quantidade crescente de dados que apontam potenciais benefícios dos canabinoides para distúrbios de memória.

Um dos efeitos positivos mais consolidados é a capacidade do CBD de ajudar no “esquecimento” de eventos traumáticos. O CBD pode suavizar as memórias de medo, reduzindo a ansiedade associada a elas. Isso é particularmente útil para indivíduos que vivem com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), cujas memórias negativas podem ser desencadeadas por situações de estresse. 

Os pesquisadores também descobriram que o CBD pode ajudar a alterar memórias traumáticas em humanos e impedir que sejam consolidadas. Esses benefícios podem contribuir significativamente para melhorias nos sintomas associados ao TEPT.

Também há fortes evidências de que o CBD pode ser positivo para as memórias episódicas. Em um estudo recente, o canabidiol aumentou a memória episódica verbal dos participantes em 10% em comparação com aqueles que receberam placebo. A pesquisa ainda descobriu que esse canabinoide não parece impactar negativamente a atenção ou memória de trabalho.

Além disso, de acordo com pesquisas preliminares em camundongos, o THC é consideravelmente mais eficaz do que os medicamentos aprovados para a doença de Alzheimer, caracterizada pelo agravamento da perda de memória e atrofiamento do tecido cerebral. O CBD também parece ajudar na regeneração no hipocampo, e vários ensaios clínicos explorando os efeitos do THC em pacientes com Alzheimer já estão em andamento.

Você pode ler mais sobre maconha e doenças neurodegenerativas por aqui!

foto colorida da mão da Alice segurando um baseado com um filtro dos sonhos ao fundo
Baseado com piteira de vidro e filtro dos sonhos

Ou seja…

Os estudos nos trazem apenas investigações sobre essa relação tão complexa entre a maconha e a nossa memória. Mas é indicado que usuários crônicos façam pequenos períodos de pausa, conhecidos como T-breaks, para “resetar” sua tolerância. Esse tempo em abstinência também ajuda a memória, o foco e a atenção a se normalizarem. Que tal tentar?

Esperamos que vocês tenham gostado desse conteúdo! Para mais informações, leia as pesquisas indicadas nos hiperlinks ao longo do texto. A gente gosta muito de trazer evidências científicas para esse tipo de artigo, porque aqui levamos a ciência bem à sério.

Para mais informações sobre maconha, haxixe e Redução de Danos, siga nosso Instagram @girlsingreen710.

Até a próxima!

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