GIRLS IN GREEN

Você acredita que cannabis causa a dependência? A relação problemática com substâncias é uma temática contemporânea, que também deve ser analisada a partir de um olhar histórico e psicológico. Qual o verdadeiro problema por trás dessa questão? Vem descobrir com a gente!

“Dependência química”? Para o médico canadense e autor Gabor Maté, a chave para compreender o complexo fenômeno das adições não recebe a atenção necessária – de modo que existe uma culpabilização apenas da substância. De acordo com ele, se quisermos entender o a dependência, precisamos entender as dores.  Dores e traumas de um indivíduo que se ocupa demasiadamente com o uso de substâncias.

Uma sensação de paz, de controle, uma sensação de calma muito temporária pode estar atrelada a esse fenômeno.  E por que essas sensações estão em falta na vida desses indivíduos? O que aconteceu?

A maior pergunta em relação ao tema não é o porquê da dependência, mas o porquê da dor.

Hoje, vamos falar sobre esse complexo fenômeno contemporâneo que é a dependência. Inclusive, precisamos começar desconstruindo o termo “dependente químico”, que responsabiliza apenas a substância nesse processo. Também é necessário entender que, embora muitas pessoas pensem que sim, a dependência não é uma escolha, não é necessariamente genético, e não se restringe apenas às substâncias.

Não estamos aqui para dizer que a dependência de cannabis não existe, e sim que devemos analisar essa questão de uma forma mais profunda para entender não apenas a afirmação, e sim suas motivações e possíveis problematizações do assunto

Vamos entender melhor esse assunto? Vem com a gente!

Vista de cima da Alice segurando Baseado com piteira de vidro das Girls in Green, folhas secas no chão
Baseado com a nossa piteira de vidro

O X da questão

Para Maté, nós olhamos a dependência como um problema isolado, e não como o sintoma de uma complexo fenômeno humano.. A raíz desse comportamento normalmente vem de traumas, que, não tratados da maneira correta, podem trazer dores e um desconfortos psicológicos. Esse é um dos motivos para o indivíduo encontrar, em substâncias ou ações, um alívio momentâneo.

Segundo ele, a dependência pode estar em qualquer comportamento que traga um prazer temporário, e que o indivíduo passe a desejar com enorme intensidade. A pessoa, então, também começa a sofrer com os resultados posteriores, mas não para (por não desejar ou conseguir) apesar das consequências ruins. Isso pode incluir drogas, álcool, substâncias de todos os tipos – mas não só elas.

Pessoas também podem ficar dependentes de sexo e pornografia, a jogos de azar e apostas, a compras, ao trabalho, a poder político, a jogos online… Praticamente todas as atividades podem ser viciantes, dependendo da nossa relação com elas.

Qualquer dependência, portanto, se baseia nessa dinâmica: dor, desejo, alívio e consequências negativas. É como se fosse uma forma não saudável de lidar com algo profundo e de grande complexidade.

Segundo o médico, ele mesmo batalhou contra duas grandes dependências: o trabalho e as compras. Chegou um momento no qual ele passou a negligenciar suas próprias necessidades, as de sua família e de seus próprios pacientes por causa de situações relacionadas às dependências que tinha.

“Meus próprios pacientes não riam quando eu contava a eles sobre isso.

Eles balançavam a cabeça e diziam ‘é, doutor, a gente entende, você é como todos nós’.

O ponto é que assim somos todos nós.”

É a partir dessa perspectiva que conseguimos entender um pouco melhor que sim, a cannabis pode viciar. Não necessariamente quimicamente, . Mas o mais importante é agir em cima da dor que traz esse comportamento – e não apenas no comportamento em si.

Uma visão histórica da dependência

O Professor Doutor Henrique Carneiro, um dos historiadores brasileiros que traz um resgate muito completo sobre questões relacionadas às drogas no Brasil, também fala sobre a construção do “vício” na nossa sociedade. Afinal, você sabia que, antes do século XIX, não se falava em adições e dependências, e sim em hábitos?

A primeira vez que o “vício” foi considerado uma doença foi em 1804, quando Thomas Trotter publicou o Essay Medical Philosophical and Chemical on Drunkenness, que é considerado um marco na descoberta (ou criação) do vício. Para Trotter, o hábito da embriaguez seria “uma doença da mente”. Além disso, ao longo do século XIX, a comunidade médica passou a se dedicar ainda mais sobre a natureza dos efeitos e dos usos das drogas, além do isolamento de substâncias puras, como morfina, codeína, atropina, cafeína, heroína e mescalina. Dessa forma, a atividade experimental controlada passou a ser ainda mais fácil.

Esse período foi marcado também por um aumento da intervenção do Estado nessas questões, desde a medicalização das populações até acordos e imposições epidemiológicos com o objetivo claro de atingir a eugenia social e racial. Havia tentativas de evitar a deterioração racial supostamente causada pelos degenerados hereditários, entre os quais se incluíam com lugar de destaque os viciados e bêbados.

Ao mesmo tempo em que existia um esforço em coibir certos tipos de drogas, a extensa popularização de outros trazia um enorme paradoxo. Para Carneiro, as “tecnologias sociais” tornaram-se teorias da propaganda e, no que se refere às drogas, serviram tanto para incentivar a sobriedade como para condicionar o consumo compulsivo.

A partir de então, criou-se não apenas a demonização de substâncias, com legislações cada vez mais proibicionistas, mas também a exploração das mesmas pelo capitalismo como bens de consumo.

Até hoje, podemos ver os frutos da monetização da ideia do vício – com remédios que prometem ser milagrosos no tratamento de adições como o tabagismo, até clínicas e instituições com métodos bastante questionáveis. Tudo isso nos faz pensar que a sociedade, ao mesmo tempo, lucra com o que diz combater, e falha em encontrar um modo digno de lidar com as pessoas que precisam de um verdadeiro apoio.

Planta de maconha contra o sol, céu azul ao fundo
Planta de maconha contra o sol

Como a Redução de Danos pode ajudar

A Redução de Danos nasce justamente para trazer um olhar mais humanizado aos indivíduos que sofrem com o uso problemático de alguma substância. O conjunto de estratégias da RD partem do pressuposto de que o uso de substâncias sempre vai existir, mas que os indivíduos devem ter total noção de como elas podem afetar a sua vida – evitando, através do conhecimento, uma possível adição.

Ao contrário das formas de cuidado possíveis dentro da política proibicionista – que tem como base medidas repressivas e punitivas em relação aos usuários de drogas ilícitas, bem como tratamentos baseados na abstinência – a Redução de Danos (RD) se caracteriza pelo pragmatismo e por uma proposta metodológica de cuidado em saúde. Isso tem como objetivo a redução de riscos e danos em relação ao complexo fenômeno do consumo de drogas, sejam elas ilícitas ou não.

A RD trabalha a partir de um conjunto de práticas relacionadas ao cuidado e bem estar dos usuários, os quais não necessariamente possuem como objetivo a abstinência. Sabe-se que as pessoas podem ter diferentes formas de se relacionar com as drogas.

O uso delas não é certamente problemático. A natureza idealista do modelo proibicionista acredita no ideal de sociedade livre das drogas, demonstrando uma ideia extremamente utópica, inatingível e até mesmo indesejável.

Além da distribuição de materiais para uso seguro, informação e educação do usuário a partir de uma visão baseada na autonomia de cada um, a Redução de Danos também estuda terapias de substituição – na qual a cannabis é muito usada.

Você sabia que, no mundo todo, a erva já é pesquisada e traz números de sucesso na prevenção a overdoses? Ela é utilizada como porta de saída de substâncias como o álcool, os opioides e até mesmo o crack. Isso porque os seus riscos são mais baixos, e ela acaba também reduzindo os sintomas de abstinência e fissura.

Além das terapias de substituição, também é necessário um acompanhamento psicológico, principalmente para entender a origem do comportamento e como agir diretamente nela. Caso seja um trauma, por exemplo, é preciso pensar em maneiras de lidar com a situação de maneiras não-destrutivas. A verdade é que a situação da adição é difícil, mas pode ser tratada – principalmente quando há uma atenção maior ao indivíduo, e não à substância a qual ele está envolvido.

Alice segurando dois blocos de piteira e um baseado com piteira longa da parceria com a bem bolado, para reduzir danos
Baseado com piteira longa da parceria com a bem bolado, para reduzir danos

Quanto ao uso da cannabis em si

Quando é feito um uso contínuo da cannabis ou concentrados com altos índices de canabinoides, é preciso estar atento: caso essa utilização seja interrompida, é possível observar sim alguns sintomas. O uso da cannabis pode levar ao desenvolvimento do uso problemático, que assume a forma de dependência. Dados recentes sugerem que 30% daqueles que usam maconha podem ter algum grau de dependência, e que pessoas que começam a usar maconha antes dos 18 anos têm quatro a sete vezes mais probabilidade de desenvolvê-lo do que os adultos.

Pessoas que usam a erva frequentemente relatam que, ao interromper o uso, sentem:

  • Irritabilidade

  • Mau humor

  • Dificuldades para dormir

  • Diminuição do apetite

  • Desejos

  • Inquietação e/ou várias formas de desconforto físico.

Esses sintomas atingem o pico na primeira semana após parar de fumar e duram até 2 semanas. A dependência acontece quando o cérebro se adapta a grandes quantidades da substância, reduzindo a produção e a sensibilidade aos seus próprios neurotransmissores endocanabinoides.

Uma relação problemática pode surgir em relação a praticamente todo tipo de hábito – e até mesmo em relacionamentos, sejam amorosos, familiares ou de amizade. Estamos suscetíveis a isso, principalmente quando não tratamos corretamente do que nos traz dor.

Se você está sentindo que sua relação com a cannabis não está sendo saudável, é necessário buscar ajuda. Procure uma assistência terapêutica – seja em psicólogos, psiquiatras ou em próprios centros de assistência psicossocial (os CAPS). Falar sobre isso, entender as causas por trás do uso, como ele faz sentido ou não para você e como ele está sendo prejudicial são formas importantes de tratar o comportamento.

Não esqueça que a diferença entre remédio e veneno pode ser, muitas vezes, a dose. Buscar ajuda, seja em profissionais ou em pessoas que você confia, é essencial para encontrar um meio termo saudável no uso.

Gostou de aprender mais sobre essa temática tão importante? Nós acreditamos que, por trás de uma adição, existe algo muito maior do que nos fizeram acreditar, desde cedo, no modelo proibicionista. Esperamos que vocês tenham curtido!

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Carol-neo@hotmail.com
1 ano atrás

Muito interessante! Obrigada por trazerem este conteúdo.

lucoligar@yahoo.com.br
1 ano atrás

Sou professor da área farmacêutica e ainda ontem a noite falava sobre redução de danos. É sempre gratificante ler textos muito bem escritos e fundamentados como os de vocês! Continuem sempre! A Vitória não será por acidente!

Carol
Carol
1 ano atrás

Muito interessante! Obrigada por trazerem este conteúdo.

Lucas
Lucas
1 ano atrás

Sou professor da área farmacêutica e ainda ontem a noite falava sobre redução de danos. É sempre gratificante ler textos muito bem escritos e fundamentados como os de vocês! Continuem sempre! A Vitória não será por acidente!