GIRLS IN GREEN

No sexto texto da nossa série, vamos falar sobre uma das drogas psicodélicas mais famosas do mundo, seus usos e efeitos da mistura com a cannabis. Quer embarcar nessa jornada psicodélica conosco? Vem!

Um grande responsável pelo boom da psicodelia no mundo da música foi o LSD. Woodstock, o festival musical hippie de rock mais famoso de todos os tempos, foi regado pela dupla ácido e cannabis, o que ajudou a moldar toda essa cultura que marcou – e ainda marca – gerações. Até hoje vivenciamos a marca que a substância teve no movimento de contracultura – além de ser um instrumento poderoso para quem deseja uma trip bem visual ou mesmo uma um acesso em uma viagem quase direta ao inconsciente.

Foi no dia 19 de abril de 1943 que o Dr. Albert Hofmann tomou LSD pela primeira vez intencionalmente, 77 anos atrás. Três dias antes, ele havia absorvido uma pequena quantidade da substância psicodélica pela ponta dos dedos por ingestão acidental. Dessa vez, ele tomou 250 µg de LSD intencionalmente e, temendo passar mal, voltou do laboratório para casa. Durante seu passeio de bicicleta, ele experimentou os efeitos do LSD, tornando esta a data da primeira viagem de ácido – e, portanto, o BIKE DAY!

Tal substância é usada desde em contexto de festa, até na psicoterapia feita com o uso de psicodélicos. Hoje, existem muitos e muitos estudos que demonstram o poder terapêutico em diferentes esferas, principalmente em relação a distúrbios da psique e problemas relacionados ao nosso cérebro. Mas como esse uso é feito? E quais são os efeitos, os riscos, os contextos e, claro, as estratégias de redução de danos?

No nosso sexto texto da série “Cannabis e outras drogas”, vamos falar um pouco mais sobre os efeitos e formatos do LSD, consumo seguro, Redução de Danos e suas interações com a cannabis, além de celebrar esse maravilhoso Bike Day. Vamos aprender mais sobre isso?

 

 

Imagem ilustrativa da Alice tomando uma gota de lsd
Imagem ilustrativa

O que é o LSD?

LSD é a sigla para dietilamida de ácido lisérgico, que vem do fungo do centeio. Sim, é isso mesmo que você leu: o LSD vem do pão, ou mais exatamente do fungo Claviceps purpurea, ou esporão-do-centeio, que infestava os plantios do grão. Na Idade Média, existem relatos no qual a intoxicação causada pelos alcalóides do fungo (ergotismo), levavam o nome de “Fogo Sagrado” ou “Fogo de Santo Antônio”. Dos mais de 40 alcaloides que são produzidos pelo fungo, e que após isolados puderam ser amplamente estudados, os medicinais vão desde tratamento de dores de cabeça e enxaqueca, hemorragia pós-parto e várias desordens psicológicas. Um dos principais deles é a ergotamina. 

Quem “redescobriu” a ergotamina do LSD foi o químico suiço Albert Hoffman, enquanto trabalhava para a Sandoz procurava por algo que pudesse estimular a circulação sanguínea. 

Primeiro a usar, Hofmann não tinha noção da dosagem correta. De acordo com ele, seus colegas de trabalho e objetos apresentavam distorções e mudanças ópticas, ele não conseguiu mais se concentrar no trabalho. Quando foi para casa e deitou em sua cama, disse que entrou praticamente em um transe, em um estado mental similar à embriaguez. “Com os olhos fechados, figuras fantásticas de extraordinária plasticidade e coloração surgiam diante de meus olhos”.

Foi no início dos anos 60 que a substância saiu do laboratório e passou a ser uma “droga de rua”, isto é, consumida pela população no geral. Ela se popularizou pelos meios de comunicação e por conta de escritores como Aldous Huxley, famoso escritor do livro “As Portas da Percepção”, que conta sua experiência psicodélica com a mescalina. Além disso, músicos famosos, como Jimi Hendrix, Beatles, Janis Joplin e inúmeras bandas de Rock Psicodélico usavam do LSD como fonte de inspiração para inúmeras músicas que escutamos até hoje.

O principal guru, no entanto, foi o professor americano Timothy Leary, que considerava o LSD “um caminho imperial para uma nova consciência”.

Atualmente, podemos encontrar o LSD em várias formas diferentes. O mais comum é naquele papelzinho colorido, o famoso blotter. Outras formas incluem cápsulas de gel, líquido e gelatina. Cada forma conterá diferentes quantidades e purezas de dietilamida do ácido lisérgico. Segundo o Professor David Nutt, ex-conselheiro do Governo Federal Americano quanto às drogas, a substância é uma das que menos oferece perigos para o usuário e para a sociedade em geral.

Tabela comparativa de drogas, do David Nutt.
Tabela comparativa de drogas, do David Nutt.

Quais são os seus efeitos?

De acordo com o coletivo de Redução de Danos ResPire/É de Lei, o efeito pode variar de acordo com a dosagem, mas geralmente dura entre seis e 11 horas. 

Assim como qualquer substância psicoativa, ele também vai depender muito do seu estado mental no momento do uso e também do seu contexto de uso (o set and setting). Entretanto, os efeitos mais comuns descritos são:

  • Alterações na percepção do tempo e espaço;

  • Distorções visuais de cores e/ou formas;

  • Sinestesia (ou mistura dos sentidos, por exemplo: estímulos visuais evocando impressões sonoras);

  • Sentimentos de euforia;

  • Sentimentos de conexão com outras pessoas ou com o universo;

  • Pupilas dilatadas;

  • Alucinações e delírios. 

Efeitos negativos podem incluir sensações de náuseas, vômitos, tontura, taquicardia, confusão mental, pensamentos paranoicos, sentimentos intensos de medo e/ou ansiedade, entre outros. 

Tabela comparativa entre LSD com Cogumelos mágicos
Comparando LSD com Cogumelos mágicos Fonte: Global Drug Survey

E as substâncias análogas?

Uma das maiores colheitas da proibição 

É preciso ter bastante cuidado: o LSD é uma substância psicodélica da família das lisergamidas, mas existem outras substâncias psicodélicas da família das feniletilaminas, como os Dox (DOB, DOI e DOC) e os NBOMe (25B, 25C e 25I-NBOMe), que são consideradas análogas. Muitas vezes, elas são vendidas como se fossem LSD, pois os efeitos são semelhantes, mas as feniletilaminas possuem risco muito maior de intoxicação quando comparado ao ácido lisérgico. 

A intensidade e os efeitos mudam para cada substância. A duração pode ser de 6 a 11 horas para NBOMe. No uso de DOB, pode ser de 18 a 30 horas.

A única maneira de identificar definitivamente o LSD é fazer testes de laboratório do material. Existem dois testes de campo principais disponíveis. O primeiro é um teste de reagente químico chamado “Reagente de Ehrlich”, que está disponível online em uma variedade de fontes. Não identifica definitivamente o LSD, mas pode identificar que o LSD não está presente.

O segundo é um teste de UV baseado no fato de que o LSD brilha de azul a branco azulado sob luz UV de onda longa (360 nm). Obviamente, outras coisas brilham sob a luz negra também, então apenas o fato de brilhar não significa que seja LSD, mas se não brilhar, o LSD geralmente pode ser descartado. O brilho deve ser aparente tanto na forma de cristal quanto na forma líquida.

A substância causa dependência?

Como substância de uso adulto, o LSD não acarreta dependência física ou síndrome de abstinência, como acontece com a maioria (opioides, cocaína e metanfetamina, por exemplo). Seu uso frequente ou prolongado pode levar à tolerância e, após uma única dose, a estabilidade emocional, física e mental é rapidamente recuperada, segundo pesquisas. Da mesma forma, alucinógenos clássicos em geral, e LSD em particular, exibem toxicidade fisiológica muito baixa, mesmo em doses muito altas, sem qualquer evidência de dano orgânico ou déficits neuropsicológicos associados ao seu uso. 

Sua segurança recentemente levou a considerar o LSD como uma das substâncias psicoativas de uso adulto com menos riscos.

A estrutura do composto do LSD
A estrutura do composto do LSD

E quais são seus efeitos terapêuticos?

No mesmo estudo citado acima, vemos que o LSD foi usado entre os anos 1950 e 1970 para alcançar mudanças comportamentais e de personalidade, bem como remissão de sintomas psiquiátricos em vários transtornos. O LSD era usado no tratamento de ansiedade, depressão, doenças psicossomáticas e dependência. Durante esse tempo, também foi observado que o LSD, junto de um acompanhamento adequado durante sua administração, pode reduzir a dor, ansiedade e depressão em pacientes com câncer avançado. Outros estudos envolvendo amostras maiores de pacientes também estabeleceram sua segurança e resultados promissores em pacientes com câncer terminal. Atualmente, essas pesquisas foram retomadas até mesmo por brasileiros.

Estudos em pacientes esquizofrênicos, no entanto, alcançaram menos resposta à mesma dose e piores resultados clínicos em comparação com pacientes não esquizofrênicos, e efeitos negativos sobre esses pacientes foram descritos, tanto na própria experiência de LSD quanto nos benefícios posteriores. Os dados indicam que a responsividade de pacientes esquizofrênicos à administração de ácido lisérgico é menor do que a de sujeitos livres da condição.

A Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (MAPS) também está dando seguimento a pesquisas sobre o uso acompanhado de LSD durante sessões de psicoterapia. No estudo piloto de Fase 2 concluído em 12 indivíduos encontrou tendências positivas na redução da ansiedade após duas sessões de psicoterapia assistida por LSD. Os resultados do estudo também indicam que a psicoterapia assistida por LSD pode ser administrada com segurança nesses sujeitos e justificam pesquisas futuras.

De acordo com a associação, a MAPS está interessada nesta substância por seu potencial para ajudar pessoas com uma variedade de condições, focando principalmente no tratamento da ansiedade associada a doenças fatais, bem como para usos espirituais, criatividade e crescimento pessoal.

Existem também estudos que descobriram o potencial do LSD em “harmonizar” o cérebro, fazendo uma espécie de reset no órgão – algo muito promissor para indivíduos que sofrem com depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). De acordo com o neurocientista Selen Atasoy, a substância faz ao cérebro algo parecido com um improviso de jazz.  

“Assim como músicos de jazz improvisados usam muito mais notas musicais de maneira espontânea e não aleatória, seu cérebro combina muito mais ondas harmônicas (harmônicos conectomas) espontaneamente, mas de forma estruturada.”

A analogia musical não para por aí – foi mostrado que ouvir música enquanto em LSD na verdade amplifica seus efeitos de reorganização. Ao forçar o cérebro a explorar novos caminhos, é possível que ele consiga construir novas redes que ajudem a superar os traumas.

Como interagem o LSD e a cannabis

Semelhante à interação com psilocibina, muitos relatam que a cannabis pode intensificar sua experiência com o LSD, principalmente aumentando seus efeitos visuais ou introspectivos. Com o LSD, no entanto, a experiência é mais controlada, pois é dosado quimicamente e os efeitos são mais consistentes. Em comparação com a psilocibina, existem menos ‘picos’ e os efeitos ficam mais uniformemente distribuídos ao longo de várias horas.

  • O efeito mais comum é intensificação da viagem, principalmente visualmente.

  • É bem usado para: alívio da náusea, anti-ansiedade, para prolongar a experiência ou para intensificar a experiência.

  • Riscos: ansiedade, paranoia e ficar oprimido pela experiência, especialmente se você não tem experiência com nenhuma substância ou se cannabis te deixa ansioso.

  • Cuidado com outras substâncias: o LSD não interage bem com antidepressivos como Xanax ou drogas depressoras do sistema nervoso central, como o álcool. Os estimulantes também podem ser perigosos: substâncias como a cocaína ou speed aumentam a frequência cardíaca, assim como o LSD, duplicando a carga para o sistema cardiovascular!

    Foto espelhada da Alice na Universo Paralelo
    Alice na Universo Paralelo

    Dicas de Redução de Danos:

– Set e Setting: Consumir sozinha/o em casa é para psiconautas experientes! É sempre mais seguro embarcar em uma jornada psicodélica acompanhada de alguém que não fez o uso. Escolha também um local no qual você se sinta segura.

– Se prepare para sua viagem. Coma bem, se hidrate antes, durante e depois de sua jornada!

 

– Faça sua pesquisa sobre a substância. Se informar é reduzir danos! Sites como www.erowid.org são incríveis para mergulhar em informações importantes e fidedignas sobre o uso de drogas.

– A análise de substâncias é essencial para sabermos o que estamos consumindo. Em contextos proibicionistas isso é um desafio. Comece de leve, observe suas reações. A surpresa pode tanto ser algo bom, quanto ruim! 

– O poli uso de substâncias pode trazer vários riscos. Se informar sobre as interações entre elas é essencial! Tenha cautela!

– Também vale o cuidado ao usar psicodélicos combinados à cannabis, principalmente se você não está habituado a viajar. Ela pode potencializar os efeitos e tornar a experiência mais forte.

– Tenha tempo disponível para aproveitar sua viagem até o fim. Dependendo da substância escolhida, a experiência pode durar horas. Limpe a agenda e relaxe.

– Pense numa intenção para a sua viagem! Isso pode transformar a sua trip!

E aí, curtiu saber mais sobre essa substância que leva os usuários a viagens muito doidas e cheias de vida? Se for utilizar, é sempre bom ter conhecimento de como ela é e como interage com diferentes substâncias para reduzir os seus riscos, tornando o uso mais seguro. Por isso, lembre sempre dessas dicas – para poder ter experiências ricas (e seguras) de psicodelia.

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