Redução de Danos

A interação da maconha com outras drogas

Enquanto muitos nem consideram a cannabis uma “droga”, nós acreditamos que precisamos conhecer não apenas os seus efeitos, mas também quais os riscos de usá-la em combinação com outras substâncias. Vamos falar sobre isso? Vem com a gente!

Quantas vezes você já ouviu, de amigos ou conhecidos, que cannabis é uma medicina natural e não oferece riscos? Ou mesmo que maconha não é uma droga? Por mais que a nossa relação com a planta seja de muito amor, acreditamos que não podemos romantizá-la!  Assim como todas as substâncias, existem riscos e benefícios associados a esse uso —  e à interação da maconha com outras drogas.

Muitos se espantam quando percebem que existem riscos na combinação da maconha com outras drogas, principalmente substâncias psicodélicas. Essa crença de que a maconha não é uma droga, ou é uma “droga fraca”, leva muitas pessoas a terem uma falsa sensação de segurança no seu consumo, em especial quando existe o poliuso de substâncias.

Na nossa nova série “Cannabis e outras drogas”, queremos trazer um diálogo mais saudável sobre o assunto. Somos, antes de tudo, uma plataforma de Redução de Danos antiproibicionista. Isso se estende para além da nossa luta a favor da legalização da maconha. Acreditamos que a Guerra às Drogas e suas ações puramente punitivas já mostraram que não são suficientes, e que o uso de drogas, nos mais diversos contextos, sempre existiu e sempre existirá na humanidade. O que precisamos é conversar, trazer informações e educar, usuários e não usuários. Só assim poderemos reduzir os danos associados ao consumo, e também a política vigente.

Nesse primeiro texto, queremos trazer um pouco mais sobre a interação entre a cannabis e outras drogas, além de levantar uma reflexão sobre a Redução de Danos. Estamos prestando atenção no que é, como é e com o que é consumido? Isso é extremamente importante, e vamos mostrar os motivos!

Vem com a gente.

 

O que considerar como droga?

Normalmente, quando se pensa sobre drogas, é comum, principalmente para um não usuário, que uma imagem pejorativa venha à mente. Afinal, o que é entendido como droga? Somente maconha, álcool, cocaína, heroína, ou tabaco? Ou será que o café, o açúcar e os fármacos fazem parte dessa cadeia de substâncias?

A mídia tem um grande papel na construção de crenças e opiniões. A demonização da droga e a estigmatização do usuário contribuem para o modo como os indivíduos vão ler o complexo fenômeno das drogas. Por mais estranho que isso soe, no início do século XX era possível comprar cocaína na farmácia. Isso demonstra que, já naquela época, existia um reconhecimento do potencial terapêutico da substância.

Ampliando mais ainda a indagação, será que uma droga lícita é segura? E uma droga ilícita? O senso comum acredita que a proibição é embasada na segurança e na saúde pública, mas será é verdade? Como já vimos aqui no blog, não é bem por aí. O proibicionismo pode ter mil e uma razões políticas, econômicas e sociais, mas a saúde não é exatamente uma delas.

Mas vamos dar nome aos bois. A definição atual de droga pela Organização Mundial da Saúde é “qualquer substância natural ou sintética que administrada por qualquer via no organismo afete sua estrutura ou função”. Ou seja, é um termo que abrange desde a sua maconha até aspirina!

 

Como classificar essas substâncias?

A cannabis é uma droga psicoativa, ou seja, ela tem o poder de alterar o estado de percepção de seus usuários. Outras substâncias psicoativas, como ela, passam uma outra classificação, onde são separadas como:

  • Estimulantes: aumentam a velocidade de transmissão de informações dos neurotransmissores. Um exemplo é a cocaína;
  • Depressoras: diminuem a velocidade de transmissão dos neurotransmissores. A cannabis é uma delas;
  • Perturbadoras: confundem e atrapalham transmissão de informação dos neurotransmissores. O LSD entra nesse grupo!

Em literatura sobre a temática, também existem outras três classificações:

  • Substâncias Empatogênicas: uma classe de psicoativos que produzem experiências de comunhão emocional, sensação de ser um com o mundo, de identificação com outro e abertura emocional. Um exemplo é o MDMA;
  • Enteógenas: substâncias, geralmente vegetais, com propriedades psicoativas utilizadas em contextos ritualísticos, sagrados. Dentre elas estão o peyote, ayahuasca e o DMT. O termo foi criado para substituir os nomes psicodélico e alucinógeno;
  • Dissociativas: tipo de substâncias que provocam distorções nas percepções visuais e auditivas, produzindo sentimentos de dissociação. Elas incluem o PCP e a ketamina.

 

InteraçÃO DA MACONHA COM outras DROGAS

Existe o mito de que a cannabis é uma droga leve, como muitas pessoas falam por aí. Isso é o que leva muitos usuários a fazer a mistura de substâncias e nem tratar a cannabis como um fator de risco. Mas a verdade é que a maconha pode ter interação com outras drogas e levar a estados de desconforto!

Precisamos, então, saber se esse uso concomitante é recomendado, se sua interação traz riscos, e até se o seu efeito diminui a ação da outra droga — principalmente no caso de medicações de uso contínuo!

Dá uma olhadinha nessa tabela de interação da maconha com outras drogas:

interação da maconha com outras drogas

Ela mostra exatamente como uma droga pode interagir com a outra, se a mistura é perigosa e se pode ser potencialmente fatal. Podemos observar que:

  • O uso da cannabis juntamente com substâncias como cocaína, NBOME e LSD, cogumelos ou DMT pode ser perigoso.
  • O uso da cannabis juntamente com substâncias como álcool, ketamina, ecstasy (MDA ou MDMA) e GHB, de acordo com essas informações, apresenta baixo risco para a saúde. Mas uma substância pode aumentar os efeitos da outra. Por isso, se você quiser cortar o efeito de uma delas, o uso concomitante deve ser evitado. Melhor esperá-los passar.
  • O uso da cannabis juntamente com benzodiazepínicos apresenta baixo risco para a saúde. Entretanto, pode fazer uma ou ambas apresentarem efeitos diminuídos.

Com outros tipos de droga, como antidepressivos, sedativos, opiáceos e medicamentos diversos, também é necessária uma análise dos riscos antes de fazer o uso concomitante!

 

Com drogas que diminuem a glicose no sangue

Há evidências que sugerem que a cannabis pode diminuir a resistência à insulina, melhorar o processo metabólico e ajudar no controle dos níveis de açúcar no sangue. No entanto, ainda são poucos os estudos que examinam especificamente como canabinoides interagem com drogas que têm efeitos conhecidos no açúcar no sangue (como a insulina). É possível que a cannabis funcione favoravelmente com elas. Mesmo assim, o melhor a fazer é monitorar continuamente os efeitos para mitigar os riscos potenciais e ajustar a medicação de forma adequada.

 

Com drogas que diminuem a pressão

Uma das principais características do THC é que ele ativa simultaneamente os receptores CB1 e CB2 do nosso sistema endocanabinoide. A ativação de ambos os receptores induz uma resposta ao estresse cardiovascular. Ela pode reduzir o fluxo sanguíneo nas artérias coronárias. Embora os relatos de reações adversas sejam relativamente raros, os pacientes que estão tomando medicamentos para a pressão arterial devem estar cientes de que a cannabis pode agravar seus efeitos!

 

Com drogas que afinam o sangue

Tanto o THC quanto o CBD podem aumentar o efeito de drogas usadas para afinar o sangue (por exemplo, varfarina ou heparina), ou drogas conhecidas por apresentarem seu próprio risco de afinar o sangue (por exemplo, ibuprofeno, naproxeno, etc), possivelmente diminuindo o metabolismo dessas drogas.

 

Com opiáceos

Examinando os efeitos subjetivos da cannabis vaporizada em conjunto com opioides, o Dr. Donald Abrams, um oncologista da UC, San Francisco, e sua equipe publicaram um pequeno estudo em 2011. Eles não encontraram nenhuma mudança significativa nas concentrações sanguíneas dos opioides após a exposição à cannabis. Além disso, os pacientes relataram uma redução de 27% na dor após a administração da planta. Não existem relatos de reações adversas no consumo concomitante das substâncias, embora deva ser observado.

 

Com sedativos

Muitos sedativos, como álcool, benzodiazepínicos, alguns antidepressivos, barbitúricos como o fenobarbital e narcóticos como a codeína, influenciam os neurotransmissores GABA no sistema nervoso central, produzindo um efeito calmante. Da mesma forma, certas strains de cannabis podem produzir efeitos sedativos.

Quando combinados, a cannabis produz um efeito aditivo. Ao mesmo tempo, ela não parece elevar os níveis sanguíneos ou potencializar as ações de outros sedativos. Portanto, embora não seja tão péssimo quanto misturar álcool com sedativos, a combinação ainda é arriscada. Os usuários devem ter extremo cuidado ou evitar a combinação completamente.

 

Qual a conclusão de tudo isso?

Nosso maior conselho é: em caso de dúvidas, converse com alguém. Entenda e se informe sobre as substâncias que você costuma consumir. Outra dica é fazer qualquer uso concomitante com cuidado, em pequenas doses. Assim, você pode entender como as substâncias reagem no seu organismo e ter uma ideia do que funciona ou não para você.

Conheça organizações e plataformas de Redução de Danos. Nelas, o objetivo é dialogar sem julgamentos e preconceitos. Diferentes das políticas punitivistas, a RD acredita que “bem ou mal, as drogas lícitas e ilícitas fazem parte desse mundo e escolhe trabalhar para minimizar seus efeitos danosos ao invés de simplesmente ignorá-los ou condená-los” (Harm Reduction Coalition, 2002-2003).

  • Aqui no Brasil, uma de nossas maiores referências é o ResPire. Esse projeto nasceu em 2010 no Centro de Convivência É de Lei e levou a abordagem da Redução de Danos para o contexto das festas. Com esse projeto, são realizadas ações com o objetivo de reduzir os efeitos indesejados após o consumo de drogas, desenvolver vínculo com esses usuários, estratégias de auto cuidado, e também realizar a prevenção e promoção de saúde dentro do ambiente para diminuir as vulnerabilidades e a transmissão de ISTs.

 

Também é importante lembrar!

O efeito de qualquer psicoativo não depende apenas da substância, mas também do “set” e “setting. O primeiro é como o sujeito se encontra psicologicamente no momento da experiência (incluindo sua personalidade e expectativa). Já o segundo é o local em que o sujeito se encontra — não apenas o ambiente geográfico, mas também o sociocultural em que o indivíduo e a substância estão inseridos. Esses elementos possibilitam, por exemplo, que o tabaco, que é um estimulante do sistema nervoso central, seja muitas vezes usado “para acalmar”.

Segundo o autor Escohotado, “o uso de drogas depende do que elas oferecem química e biologicamente, e também do que representam como pretextos para as minorias e maiorias. São substâncias determinadas, mas os modelos de administração dependem muito do que se pensa sobre elas em cada tempo e lugar. Concretamente, as condições de acesso ao consumo são tão decisivas como aquilo que é consumido”.

 

Falar sobre a interação da maconha com outras drogas é essencial para conseguirmos entender, como um todo, como são as relações humanas com essas substâncias alteradoras de percepção! Além disso, quebrar o estigma é o que nos aproxima das pessoas que são usuárias. Assim, podemos inclusive identificar sintomas de uso problemático e saber como cuidar.

Que possamos expandir as nossas mentes e aprender que, para fazer de Redução de Danos, precisamos acabar com preconceitos contra realidades diferentes das nossas. Principalmente aqueles plantados em nossas mentes por uma sociedade proibicionista e punitivista. Vamos falar mais sobre isso?

No próximo texto da série, vamos contar para você o que são e como agem as plantas de poder. Fica de olho!

 

Editado em: 30 de novembro de 2023.

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fer30ferreira@hotmail.com
3 anos atrás

Olá! Seria interessante se vcs colocassem as referências bibliográficas no final da matéria para que possamos ler e também pq isso dá mais credibilidade 😉

laisilek87@gmail.com
3 anos atrás

Oiê, poderiam fazer um texto sobre síndrome amotivacional?
Adoro o conteúdo de vocês e adoraria a visão e opinião de vocês sobre o assunto ♥️

E
E
2 anos atrás

Maconha não é um alucinógeno? Tipo igual lsd e êxtase?

julia
julia
1 ano atrás
Reply to  E

não

fer30ferreira@hotmail.com
3 anos atrás

Olá! Seria interessante se vcs colocassem as referências bibliográficas no final da matéria para que possamos ler e também pq isso dá mais credibilidade 😉

laisilek87@gmail.com
3 anos atrás

Oiê, poderiam fazer um texto sobre síndrome amotivacional?
Adoro o conteúdo de vocês e adoraria a visão e opinião de vocês sobre o assunto ♥️

fer30ferreira@hotmail.com
3 anos atrás

Olá! Seria interessante se vcs colocassem as referências bibliográficas no final da matéria para que possamos ler e também pq isso dá mais credibilidade 😉

laisilek87@gmail.com
3 anos atrás

Oiê, poderiam fazer um texto sobre síndrome amotivacional?
Adoro o conteúdo de vocês e adoraria a visão e opinião de vocês sobre o assunto ♥️

Fernanda
Fernanda
3 anos atrás

Olá! Seria interessante se vcs colocassem as referências bibliográficas no final da matéria para que possamos ler e também pq isso dá mais credibilidade 😉

Laís Ilek
Laís Ilek
3 anos atrás

Oiê, poderiam fazer um texto sobre síndrome amotivacional?
Adoro o conteúdo de vocês e adoraria a visão e opinião de vocês sobre o assunto ♥️

Lívia
Lívia
1 ano atrás

Vocês estão de parabéns, o conteúdo está bem massa! E essa tabela simplificou demais nossa vida, as que encontramos por aí costumam ser muito grandes e confusas.
Estava dando uma olhadinha na tabela de interações e notei que a legenda mostra a setinha para cima como “baixo risco e efeitos diminuídos”, mas acredito que deveria ser “aumentados”, não? É o caso, por exemplo, da combinação maconha e MDMA, que oferece baixo risco e potencializa os efeitos. No entanto, segundo a legenda, os efeitos são diminuídos. Vale a pena dar uma olhadinha nessa questão.😉
Vocês arrasam, obrigada pelas infos! 💖

Elizabeth Carneiro
Elizabeth Carneiro
1 ano atrás

Gostaria e fazer parte do grupo de RD.

Inês
Inês
4 meses atrás

Gostaria de entender mais sobre o assunto, afinal usar cocaina é depois canabis pode matar?