Cultura

Amor e six star: Alice e Flynn na high times

Confira aqui a tradução dessa matéria incrível escrita por Jimi Devine para a edição especial de 710 da revista High Times.

O que começou em 2018 como uma troca de haxixes acabou mudando o jogo dos concentrados e construiu a fundação da Wooksauce Winery. Por Jimi Devine.

Depois de um casamento e muito haxixe incrível, Alice e Flynn da Wooksauce Winery estão no topo do jogo dos concentrados. Alice emergiu como um dos maiores nomes no meio do hash no planeta. Flynn, embora não seja tão voltado ao público quando Alice, também é extremamente respeitado pelos seus colegas, lutando para chegar ao topo depois de se mudar de Minnesota para o oeste há uma década atrás. Quando suas habilidades se unem na Wooksauce, é bem difícil de superar. 

Quando eles veceram a categoria de haxixe sem solvente para uso pessoal na Emerald Cup em 2022, pareceu mais uma coroação do que uma cerimônia de premiação. Bem antes daquela noite em Hollywood, a Wooksauce Winery já era sinônimo de haxixe seis estrelas. Seis estrelas é a mágica que acontece quando os melhores produtores de hash do mundo ganham acesso ao melhor material. O resultado não é apenas um full melt da mais alta qualidade, mas também uma das melhores expressões da cepa de cannabis usada.

Dito isso, nem todas as cepas lavam bem o suficiente para se tornarem comercialmente viáveis para fazer haxixe. Mesmo se ela for incrível, se os números não batem é um desperdício de material.

Além disso, esse indicador de seis estrelas valida o processo de todos em cada etapa que o hash passa para ser feito. Para o fazendeiro, isso mostra o que é possível com seu fresh frozen. Assim que uma fazenda começa a produzir um material que pode se tornar haxixe seis estrelas, tudo muda para eles. Enquanto freezers ociosos cheios de maconha em todo o estado aguardam para ser processados, fazendas que produzem o melhor material nem conseguem fazer o suficiente dele. Muitos afirmam que o número atual de fazendas que conseguem produzir material seis estrelas é menor que uma dúzia, e outros dizem que cortar esse número pela metade ainda é estar sendo generoso.

Concetrado da Wooksauce Winery. Imagem: Kandid Kush.

Para produtores como Wooksauce Winery, fazer haxixe seis estrelas prova que eles são valiosos o suficiente para ter acesso ao melhor material. E a importância disso não pode ser subestimada, pois a competição é brutal. Existem novas marcas de haxixe aparecendo na Califórnia a cada trimestre, e novas marcas de rosin no mercado paralelo surgem todos os dias. Eu gostaria de estar exagerando. Mesmo que a licença para produzir concentrados sem solvente seja mais fácil de conseguir do que para fazer extrações com hidrocarbonetos porque a água não explode, muitos hash makers nunca passam para o lado legal do mercado. 

Os caminhos duplos da Wooksauce começaram a convergir em 2017 depois que Alice, que é do Brasil, veio para a Califórnia para ir a uma conferência da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS). Depois dessa conferência, ela foi para o norte em Humboldt County onde teve sua primeira experiência com haxixe feito através de matéria fresca congelada. Ela havia experimentado anteriormente haxixe lavado no Brasil, mas aqueles primeiros lampejos de calor em Humboldt foram um daqueles momentos de “falar com Deus” que a colocaram no caminho que a levou a alcançar os mais altos escalões do jogo do haxixe em pouco mais de meia década.

Ela voltou ao Brasil para se formar, mas não ficou por muito tempo*.

“Eu fiquei tipo ‘eu preciso aprender a fazer isso’. Então eu me formei e voltei para cá um mês depois da formatura”, Alice contou a High Times. “Eu voltei para cá e meio que nunca olhei para trás para o meu diploma ou algo relacionado”**.

Ela trabalhou em fazendas de maconha em Humboldt quando voltou. Eventualmente Alice e Flynn se deram conta do quão perto estavam um do outro e planejaram de se encontrar para trocar haxixe. Alice também estava querendo aprender mais sobre liofilizadores e Flynn falou que iria ensiná-la. Uma de suas amigas deu a ela um spray de pimenta no caso do Flynn ser um esquisito. Ele não era, mas ao se conhecerem ela acabou deixando o spray de pimenta cair da bolsa.

“Na minha cabeça eu pensei ‘será que isso era para se certificar de que eu não tentasse fazer nenhuma bobagem?’” Flynn falou da sua reação inicial ao ver Alice entrar no carro. “Essa garota estava pronta”.

No final Alice trocou uma temple ball por um pouco do hash do Flynn. O hash que ela trocou foi de sua primeira grande lavada na Califórnia antes deles se conhecerem. 

Mas os caminhos que levaram àquele momento foram muito diferentes para os dois. Alice começou a fazer haxixe com amigos no Brasil há uma década.

“Eu fiz um suco verde no Brasil, o que significa que eu fiz uma lavada horrível no Brasil. A realidade no Brasil é que cultivamos uma pequena quantidade de plantas,” Alice explicou. “Então levamos alguns ciclos até conseguirmos juntar material suficiente para uma lavada, certo?”

Alice enfatizou de que ela veio de um mundo do haxixe mais tradicional. Ela fumava spliffs (NT: haxixe misturado com flor e/ou tabaco) até se conectar com Flynn. Nós perguntamos à Alice se em seu tempo no Brasil antes de voltar para a Califórnia foi difícil, já que ela descobriu o que poderia ser feito com materiais de alta qualidade.

“Honestamente, depois que eu vim para cá pela primeira vez, eu nunca olhei para trás para tentar fazer nada disso no Brasil. Eu fiquei bem focada na Califórnia. Eu passava seis meses do ano aqui,” disse Alice***.

Eventualmente ela retornou a Humboldt para ampliar sua educação, se mudou com Flynn e os dois se casaram em 2020.

A jornada de Flynn começou em Minnesota. Depois ele se mudou para Seattle para seu primeiro ano na faculdade e ficou chocado com o quão avançado o sistema de maconha medicinal estava no estado de Washington.

“Quando me mudei para Seattle, eles estavam há uns dez anos luz afrente com o que estava acontecendo, eles tinham um sistema medicinal,” Flynn explicou. “Então eu imediatamente me joguei por lá e comecei a comprar trima pelo Craigslist para tentar fazer bubble hash, depois consegui emprego em uma loja voltada ao cultivo.”

Seu chefe na loja dava a ela sua trima mas infelizmente nunca congelava nem um pouco dela. Ao se dar conta de que o material era o mais importante, Flynn começou seu cultivo em 2012. Sua primeira marca lá atrás foi a Flintstones Farms. Em 2014 ele começou a desenrolar a Wooksauce Winery e se aventurar entre Washington e Califórnia.

“No final de 2017, eu me mudei de Washington para a Califórnia e tentei conseguir uma permissão para cultivo em Sonoma. Em Sonoma, as coisas ficaram doidas. A propriedade acabou não dando certo para isso mas por sorte encontrei alguns parceiros que ainda tenho e assim meus negócios em Humboldt começaram,” disse Flynn.

As dores de cabeça em Sonoma também mudaram todo o formato da Wooksauce Winery. 

“Antes disso a Wooksauce Winery só trabalhava como single source,” disse Flynn.

Single source significa que eles cultivavam as flores e também as processavam na própria empresa.

“Agora nós fazemos muito mais colaborações nos últimos dois anos trabalhando com outros fazendeiros e coisas do tipo,” contou Flynn. “Mas isso aconteceu basicamente porque tivemos que parar de cultivar nós mesmos.”

Alice e Flynn ainda chamam Sonoma de lar, mas não esperam cultivar por lá novamente em nenhum período próximo.

Alice e Flynn para o editorial da Hight Times. Imagem: Kandid Kush.

Perguntamos aos dois quais as principais supresas que eles tiveram desde que a Califórnia entrou na era do mercado legal. Uma das maiores surpresas para Flynn foi como o material fresco congelado se tornou mais fácil de encontrar comparado à era do medicinal. Ele também fica feliz em ver a cena dos concentrados sem solvente expandir.

“Na minha opinião, o haxixe sem solvente está se tornando muito mais como uma SKU respeitada em todos os aspectos, a qual até mesmo as Organizações Multiestaduais (MSOs) estão prestando atenção,” Flynn disse. “Como as marcas maiores estão tentando fazer marcas de rosin e agora todas contam com canetas de rosin e todas essas coisas, trazendo isso para um mercado maior.”

Uma das coisas que ambos testemunharam foi a consolidação massiva da indústria. Nós perguntamos se eles têm alguma preocupação com as ondas de consolidação afetando a disponibilidade de materiais enquanto várias fazendas fecham. Flynn apontou que suas parcerias de cultivo em Humboldt fazem com que ele não se estresse com esse pensamento.

“Quero dizer, eu diria que no lado legal é por isso que me sinto abençoado e penso que é ótimo que meu parceiro tenha, você sabe, 10.000 pés quadrados de área cultivada em Humboldt,” disse Flynn.

Alice avaliou as mudanças também. 

“Existe algo sobre os fazendeiros quererem ter um espectro maior de produtos se originando de seu material hoje em dia, o que é algo bem diferente de antes quando eles focavam muito no consumo de flores,” disse Alice. “Agora existem comestíveis, tópicos, também diferentes tipos de haxixe, e eu vejo essa grande tendência de fazendeiros do mercado legal e ilegal querendo fazer uma gama maior de produtos por entender que isso é positivo tanto financeiramente quanto para ter uma variedade maior de produtos saindo.”

Fique de olho na Wooksauce Winery, que irá continuar ganhando troféus em 2023.

Notas do Girls in Green:

*Alice foi para a Califórnia pela primeira vez depois de se formar na universidade.

**Aqui, Alice quis dizer que, depois de encontrar o mundo do haxixe da Califórnia, ela decidiu focar nisso – e acabou não utilizando seu diploma de psicologia no Brasil.

***Fala retirada de contexto. Alice afirma que não seguiu a carreira mais “tradicional” como psicóloga no Brasil, o que não exclui seus trabalhos em Redução de Danos e com o Girls in Green.

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