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As extrações com solvente podem ser lindas e parecerem uma extração inofensiva, mas existem riscos associados a produção e ao uso dessas substâncias. Venha entender melhor os motivos e estratégias de redução de danos

Quem já nos conhece sabe do nosso amor pelo haxixe e pelas extrações. Aqui no blog e no Instagram, falamos muito sobre os tipos, processos e formas de uso de hash – principalmente trazendo técnicas que preservam a segurança do usuário e, é claro, respeitam os princípios da Redução de Danos. Mas vocês também já podem ter percebido que quase sempre abordamos temáticas referentes a extrações sem solventes, e existe um motivo bastante simples para isso: acreditamos que essas são as formas mais seguras de fazer e consumir haxixe de qualidade.

Ao contrário das extrações sem solvente, o hash com solvente deve ser tratado com mais cautela. Afinal, por conter materiais tóxicos e inflamáveis, tanto sua confecção quanto o uso podem ser desafiadores e perigosos – ainda mais em um mercado irregular, como é o caso do Brasil.

Então, decidimos organizar essa postagem com informações importantes sobre extrações com solvente para que, se você estiver pensando em produzi-lo ou consumi-lo, faça isso com todos os cuidados necessários para preservar a sua saúde e o seu corpo.

Vamos lá?

Foto de extração com solvente
Extração com solvente Fonte: nyu

O que são essas extrações?

As extrações com solventes não são exatamente uma novidade: estudos indicam que soldados no conflito entre Estados Unidos e Vietnã extraíam o tetrahidrocanabinol (THC) em um concentrado líquido usando solventes pesados, como acetona ou petróleo. Esses usuários, então, espalhavam o produto em um rolo de papel ou saturavam o tabaco com o concentrado líquido. Outra forma de óleo de haxixe chamada “smash” também fez uma breve aparição em 1967 nos Estados Unidos.

Hoje, essas extrações são frequentemente criadas a partir de um processo que envolve o butano, daí o termo BHO – butane hash oil ou butane honey oil. O nome geral é esse, mas os extratos também ficam mais conhecidos por uma terminologia mais específica que descreve a consistência do produto, como, por exemplo, shatter, honeycomb, wax, crumble… Revistas como a High Times ajudam a tornar as técnicas e produtos mais conhecidos, apresentando o concentrado como um método mais fácil de utilizar partes antes perdidas da planta de cannabis e afirmando que o BHO, por ser um concentrado canábico, tem propriedades superiores de alívio da dor. Mas não podemos esquecer dos resquícios de solventes nas amostras que serão consumidas, e esse é um dos assuntos que vamos abordar hoje nesse conteúdo.

O BHO venceu barreiras. Hoje em dia faz parte do mercado legal de alguns estados na Califórnia, ao mesmo tempo que sua popularidade cresceu muito no mercado não regulamentado, encontrando caminhos para diversos países do mundo. De forma que alguns sugerem que o BHO e seus derivados estão agora entre os produtos canábicos mais comumente usados nos Estados Unidos. 

Aqui no Brasil, a curiosidade rola solra: a gente sabe que as pessoas que desejam poder fazer o seu próprio extrato canábico, ou haxixe em casa (inclusive, já mostramos aqui cinco tutoriais de extrações artesanais para testar). Mas precisamos estar extremamente atentas aos riscos associados tanto à confecção do hash quanto ter um produto seguro para se consumir.

 A primeira extração que a Alice, nossa hash maker e cultivadora, fez na sua vida foi com solventes, inclusive lá pelas bandas de 2011. Naquele tempo, foi transformador se aproximar do universo das extrações. Mas, com um pouco mais de estudos sobre e também um mergulho no universo das informações ela logo percebeu que isso não era algo positivo para a sua saúde e nem seguro de ser confeccionado. Há dez anos atrás a gente não tinha tanta informação assim sobre os riscos dessa produção caseira, e hoje é nossa missão estar aqui informando para reduzir os riscos e possíveis danos!

Shatter, também conhecido como BHO, sob papel manteiga
Shatter, também conhecido como BHO

Como o BHO e outras extrações com solvente são feitas

Essas extrações envolvem a passagem de solventes, como butano líquido, propano ou outros pelas flores ou trim. Os compostos hidrofóbicos, como o THC, nos tricomas da matéria vegetal se dissolvem prontamente no solvente e, em seguida, passam por um filtro com o butano. O butano pode então evaporar da solução ou é purgado ativamente com calor e ou vácuo.

O resultado é um concentrado que pode aparecer em diferentes consistências, de acordo com o método como é feito, temperatura usada, umidade e outros fatores externos. Existem dois tipos principais:

  • Wax: os concentrados tipo wax geralmente não têm uma estrutura completamente cristalizada, geralmente causada por agitação proposital ou alguma interrupção indesejada durante o processo de extração. As subcategorias de wax se dividem em sugar crumbles, wax crumbles e butter wax. As sugar crumbles têm uma superfície cristalizada. Quando perturbada, a textura é “quebradiça” e facilmente se desfaz. Já as wax crumbles são parecidas porque se desintegram facilmente, mas mantêm uma superfície lisa e escorregadia. Entretanto, a butter wax é cremosa e sedosa, e geralmente é a “crema” dos BHO.

  • Shatter: as extrações tipo shatter variam de uma consistência fina e oleosa a uma estrutura frágil e semelhante a vidro quebrado (daí o nome). Muitas vezes, isso depende de vários fatores externos, como temperatura, umidade e técnicas de produção. Os shatter são tipicamente diferenciados por quão translúcidos são, mas isso não reflete necessariamente sua qualidade percebida entre os usuários.

Esse processo pode ocorrer em um ambiente comercial regulamentado (em países/estados onde sua produção é legal) com equipamentos modernos de circuito fechado – ou em uma garagem doméstica com ferramentas tão simples como um tubo de aço, telas e pratos tipo pirex, o que é, para dizer o mínimo, bastante arriscado.

Existem também outros solventes, como álcool isopropílico, CO2 (também usado comercialmente) e outras substâncias de base química, mas o butano é geralmente usado por ser visto como a alternativa mais eficiente para a produção amadora.

Um dos motivos pelo qual essas extrações se tornaram extremamente populares são maiores rendimentos na hora de fazer as extrações. Mas não se deixe enganar, não é porque rende bem que é a melhor opção para consumirmos.

Quais os riscos de fazer hash com solvente?

A segunda etapa do processo, conhecida como purga, envolve a separação do butano e do material resultante. Placas de aquecimento, fornos a vácuo, placas agitadoras, espátulas e outros dispositivos podem ser usados (em diferentes graus de risco) para ajudar os vapores de butano a deixar a extração. É durante essa etapa que problemas como explosões e incêndios repentinos ocorrem com mais frequência.

  • O butano é um gás inflamável mais pesado que o ar. Ele possui um limite de explosão inferior de 1,6% e um limite de explosão superior de 8,75%, o que significa que o ar se torna explosivo quando é misturado com apenas 1,6% de butano. O butano que escapa da substância extraída como vapor eventualmente se acumula na superfície mais baixa disponível e flui até encontrar uma saída que permite sua dissipação. Essas piscinas de vapor são facilmente inflamadas por uma faísca, chama ou eletricidade estática, e são a causa da maioria dos danos associados à produção de BHO.

A produção comercial regulamentada desse tipo de extrato não apresenta o mesmo risco de incêndio, pois utiliza uma máquina que recupera e recicla o butano, ao invés de liberá-lo em uma área na qual pode ser acidentalmente inflamado.

Estados dos EUA viram um aumento nas queimaduras relacionadas com BHO nos últimos anos. Independentemente do status regulatório da cannabis em um estado, a produção caseira de BHO é considerada crime em muitas jurisdições principalmente por se tratar da operação de um laboratório de drogas com regras estritas devido ao risco de explosão.

Essas explosões e queimaduras representam uma situação crescente e subestimada, e já causaram até mesmo incêndios florestais graves. Aqui no Brasil, se você faz parte da cena canábica da sua região, é praticamente impossível nunca ter ouvido falar de um parça que queimou as sobrancelhas (ou a cozinha toda) tentando fazer uma extração assim.

Por isso, nossa dica é: use os restos de trim ou sua cannabis para fazer extrações sem solvente, como o bubble hash, rosin ou até mesmo charas. Dessa forma, você evita os riscos de explosão e até mesmo de usar um haxixe mal purgado, como vamos explicar a seguir.

Extração com solvente
Extração com solvente Fonte: adf

Quais os riscos de usar hash tipo BHO?

Caso o óleo tenha sido extraído em um laboratório regulamentado, não existem tantas chances de que haja um risco grande à saúde ao utilizá-lo. Isso porque, com os equipamentos certos, a etapa da purga de solvente pode ser realizada sem riscos e de uma maneira completa, deixando o produto final sem resquícios de produtos químicos como o butano.

Entretanto, no mercado irregular, além de haver inúmeros riscos de explosões e incêndios, é comum que uma parte do butano usado provavelmente permaneça dentro do produto – a quantidade depende de uma série de fatores relacionados à habilidade do produtor e às condições ambientais, como temperatura e umidade. Assim, os usuários de BHO produzidos por amadores e laboratórios improvisados provavelmente inalam este butano e outras impurezas junto com o THC vaporizado.

A inalação de butano acarreta numerosos riscos, como:

  • convulsões e alucinações;

  • danos cardíacos e/ou arritmias;

  • falência de órgãos;

  • depressão respiratória;

  • inibição vagal e anóxia;

  • cardiomiopatia;

  • lesão renal;

  • lesão hepática;

  • uma variedade de síndromes psiquiátricas.

Nos Estados Unidos, já existem estudos que mostram que a intoxicação por uso de BHO comprado irregularmente pode causar danos pulmonares semelhantes à pneumonia. Segundo os pesquisadores, existem vários fatores que podem contribuir para isso: o uso crônico e a inalação de butano e benzeno, ambos tóxicos, foram cruciais no desenvolvimento do quadro.

Essas preocupações são mais leves quando os consumidores compram produtos de fabricantes certificados, em lugares onde uso adulto, terapêutico e/ou medicinal é regulamentado, mas o interesse e a disponibilidade dessas extrações sugerem que a produção ilegal e amadora é alta e preocupante – inclusive por aqui.

No Brasil, um risco muito real e possivelmente grave é acabar comprando extrações com adulterantes, geralmente solventes pesados e contaminantes. Elas podem estar tanto na forma de BHO quanto em cartuchos de THC para vaporizadores tipo canetinha. Conforme já falamos aqui no blog, os últimos podem ser bem desafiadores pois, segundo o pesquisador canábico Dr. Arno Hazekamp:

“Quando se usa vaporizadores líquidos, com cápsulas pré-enchidas, significa que alguém já tomou várias decisões por você. Não apenas sobre a variedade do produto, mas também a química envolvida na extração, a descarboxilação (se é que houve uma), o resfriamento, a adição de sabores (como falsos terpenos) e a remoção de clorofila. […] Se a extração for bem feita, talvez você tenha os mesmos componentes nos pulmões após a inalação. Mas o problema é que, com a erva seca (vaporizador), você pode tomar essas decisões sozinho e, com os vaporizadores líquidos, essas decisões são tomadas para você. E um dos meus problemas com isso é que você não sabe qual é a qualidade desses líquidos”.

Extração com solvente
Extração com solvente Fonte: leafbuyer

Experiências de usuários com BHO no Brasil

Se em locais onde há uma fabricação e um mercado regular o consumo seguro já é desafiador, no Brasil a missão fica praticamente impossível. Usuários relatam que a realidade está complicada para quem deseja fugir do prensado e consumir uma “crema”, já que não existe qualquer tipo de controle de qualidade para essa questão por aqui.

Para adulterar as extrações com solventes, vários químicos pesados e tóxicos para a saúde são utilizados, como:

  • sílica;

  • resina de árvore (pine resin);

  • pó de goma arábica;

  • outros produtos, que vão de gel à plástico.

Ainda segundo relatos que recebemos, existem pessoas que pegam 1g de BHO puro e conseguem transformar em até 7g com adulterações pesadas.

Além de tudo, não é fácil de perceber as adulterações. Isso porque a maioria dos materiais utilizados para fazê-las são inodoros e insípidos (ou seja, sem cheiro e sem sabor). Sua temperatura de ebulição também é bem similar à dos concentrados, o que faz com que ele derreta e vaporize da mesma forma.

Por isso, nossas dicas são:

  • Aqui no Brasil, sabemos que tudo – desde a cannabis até os concentrados – são provenientes do mercado irregular, a não ser em casos onde o usuário faz o auto cultivo e produz seu próprio óleo ou hash. Nesses casos, nossa dica é ficar longe de extrações prontas feitas com qualquer tipo de solvente. Muitas coisas são utilizadas para preparar a extração ou até mesmo para “fazê-la render”, e ela pode conter muito mais do que restos tóxicos de butano. É bom ficar de olho. Além disso, para vaporizar, prefira equipamentos confiáveis que queimem ervas secas ou extrações sem solvente (dry sift, charas, hash afegão, ice, rosin…).

  • Tenha atenção à procedência de tudo o que você utiliza – já que não existe um controle de qualidade, essa é a melhor forma de fazer o uso mais seguro possível.

  • Quer se aventurar no mundo das extrações? Legal! Comece (e, se possível, fique) com as sem solventes químicos. A vida real é diferente do Breaking Bad, e se explodir é coisa séria. A Redução de Danos não diz respeito apenas ao consumo, mas a todos os processos relacionados à substância. Se você não pode comprar ou fazer com segurança, deixe para lá ou encontre outra alternativa, ok?

Você já tinha ouvido falar sobre esses riscos relacionados ao BHO e a extrações com solventes? Conte para a gente a sua experiência e a sua opinião sobre o texto – vamos adorar saber o que você pensa sobre a temática.

Até a próxima!

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