GIRLS IN GREEN

Afinal, qual a diferença entre cultivar com a finalidade de consumir as flores e cultivar com o objetivo fazer extrações e tipos diferentes de haxixe? Aqui, a gente te conta tudo o que você precisa saber sobre a potência do cultivo de tricomas.

Enquanto aqui no Brasil pode ser muito mais comum o cultivo visando colher os mais incríveis e cheirosos buds, existe um outro lado do cultivo que é focado apenas no cultivo de plantas que sejam boas para fazer extrações e diferentes tipos de haxixe. Em inglês, o nome dessa atividade é resin farming, que podemos traduzir como o cultivo de resina. Na Califórnia, estado americano com uma regulamentação bem aberta para uso de cannabis e derivados, essa prática – que já existia mesmo antes da legalização – ganha cada vez mais forças com a possibilidade de fazer extrações e concentrados canábicos sem o uso de solventes em uma maior escala.

Se você acabou de chegar nesse universo, talvez se pergunte exatamente quais as diferenças entre o cultivo “comum”, digamos assim, e o cultivo voltado à produção de hash. Bom, existem várias, e aqui vamos falar bastante sobre elas. Assim, você pode conhecer essas técnicas, seja para matar sua curiosidade ou mesmo para entender se elas fazem sentido para você que pratica auto cultivo garantindo maiores rendimentos.

Você sabe o que são os tricomas? Sabe que existem diferenças entre eles? Você sabia que não são todas as plantas de cannabis que tem um bom potencial para fazer haxixe?

Vem com a gente mergulhar nessa temática para garantir que você não desperdice nada do seu jardim e direcione seu cultivo para a finalidade que você deseja!

Sacola plástica com flores "fresh frozen"(congeladas frescas)
Flores congeladas frescas, o famoso Fresh frozen

Para começar: conceitos básicos

Para falarmos sobre o cultivo com o foco em fazer haxixe sem o uso de solventes como bubble hash, rosin e dry sift, precisamos entender alguns conceitos bem iniciais para não nos perdermos ao longo do texto.

São eles:

Haxixe, concentrados e extrações sem solvente

O haxixe também é chamado de concentrado ou extração, justamente por ser um concentrado de canabinoides, terpenos e terpenoides feito a partir da extração das cabeças de tricomas da cannabis. Eles podem ser feitos com ou sem solventes – aqui, nós preferimos os sem solvente por serem mais seguros tanto para o consumo quanto para a fabricação. É por esse motivo que hoje vamos falar apenas de extrações sem solvente, como bubble hash, rosin, etc. Aqui, você pode saber mais sobre seus tipos e variedades!

Tricomas

Já os tricomas são estruturas bastante parecidas com “mini cogumelinhos” na planta, que, como já mencionamos, concentram a maior parte dos canabinoides, como THC e CBD, e terpenos presentes nessa erva. Por isso a sua importância, são eles que compõem o haxixe! Em linhas gerais, os tricomas são estruturas microscópicas, recheadas de óleo e grudentas encontradas em plantas. É importante dizer que a produção de tricomas não é exclusiva da cannabis: eles são bastante comuns em algumas espécies, como plantas carnívoras.

Díptico de imagens de tricomas vistos pelo microscópio
Tricomas vistos pelo microscópio

Existem três tipos principais de tricomas, com diferentes tamanhos e localizações na nossa plantinha. São eles: os bulbosos, os sésseis capitados e os tricomas de haste (ou penduncular capitados). Você pode saber tudo sobre eles aqui!

Essas estruturas são especialmente importantes para a produção de haxixes e concentrados – que são feitos com o objetivo de separar os tricomas maduros da planta, e por isso podem ser tão potentes! Além disso, eles protegem as plantas de intempéries e predadores. É deles que se origina a RESINA, por isso, cultivar com foco na produção de tricomas é um processo chamado de resin farming.

Por isso, para nós, que estamos procurando fazer extrações, eles são o foco principal do cultivo. Como eles abrigam os canabinoides, terpenos e terpenoides, eles não são apenas responsáveis pelo rendimento, mas também pelo cheiro e sabor do seu concentrado. Essa é uma trend incrível que conseguimos acompanhar: hoje, os breeders fazem cruzas entre genéticas para alcançar sabores mais diferenciados e gostosos de consumir. É de dar água na boca! Você pode entender exatamente como os terpenos são importantes para isso no nosso texto sobre eles.

Flor de maconha cultivada outdoor
Flor de maconha cultivada outdoor

Vamos falar sobre genética?

A principal diferença entre cultivar para flores e para resina é que, enquanto a flor já pode ser utilizada diretamente após a colheita e ser fumada, no cultivo para resina elas são criadas para serem “processadas” e se tornarem hash. Por isso, elas devem conter algumas características específicas para se ter um bom rendimento de concentração, e vamos abordar isso ao longo do texto.

Grande parte da forma que você cultiva com foco na produção de hash é encontrar a genética ideal. Se você não tiver a genética ideal, você não terá um resultado satisfatório – tanto no rendimento quanto na qualidade e na presença de compostos terapêuticos como terpenos.

Para ajudar você a entender bem essa questão, vamos trazer alguns exemplos práticos do grow da Alice e do Flynn, nossa jardineira e hash maker oficial. Existem duas strains que eles gostam muito de cultivar em casa: a Cookies and Cream e a Smarties.

  • A Cookies and Cream já é cultivada há oito ou nove anos pelos Flynn;

  • A Smarties é mais recente, e é cultivada por lá há cinco ou seis anos.

Essas genéticas específicas foram guardadas através de plantas mães dessa mesma espécie – sim, é o mesmo corte que já é cultivado há anos, de forma que dá para ter um conhecimento bem extenso sobre a planta, já que o material genético é sempre idêntico!

E comparando, em uma questão de genética e rendimento, a Cookies and Cream coloca metade do peso de flor por metro quadrado cultivado em relação à Smarties – mas a quantidade de hash que sai delas é igual. Interessante isso, não?

Então, é preciso avaliar com muita cautela, experimentar strains diferentes e entender qual é a melhor para você e para sua finalidade. Saber calcular números e rendimentos é a chave para tornar o universo das extrações algo mais acessível. Imagina se você usasse todas as plantas do seu cultivo para fazer uma extração e o rendimento fosse inferior a 2,5%? Que tristeza, vontade de sentar e chorar.

Entender o rendimento é essencial principalmente porque, nas extrações sem solventes (que são nossas favoritas) ele geralmente é menor do que nas com solventes. Isso porque os solventes químicos provocam uma reação que muda a estrutura química dos tricomas, enquanto as sem solvente os mantêm intactos – do jeitinho que a Mãe Natureza quis. Na nossa opinião, isso gera uma medicina muito mais pura e segura para consumo, pensando na nossa saúde e na de terceiros.

Ter esse conhecimento é muito transformador para não desanimar: é preciso fazer experiências com autonomia para compreender não apenas o que é possível no proibicionismo, mas também se vale a pena fazer uma extração  da planta para transformá-la em concentrado ou não.

Então, na hora de procurar por genéticas que podem ser interessantes para o seu cultivo de resina, alguns pontos principais são:

  • RENDIMENTO: strains que apresentam tricomas maiores rendem mais na hora de fazer hash; e, dentre essas, as que têm períodos de floração menores são as escolhas principais.

  • FACILIDADE DE SEPARAÇÃO: quanto mais fácil os tricomas se soltam da matéria vegetal, menor a possibilidade de contaminação do seu hash. Por isso, genéticas com essa característica são ideais!

  • CHEIRO E SABOR: como já falamos acima, os terpenos são os maiores responsáveis pelos cheiros e sabores do hash, e diferentes combinações podem resultar em um concentrado com mais gás, mais cítrico e até com gostinho de frutas específicas.

  • E claro, algumas características gerais do plantio de maconha, como a facilidade do cultivo, resistência a pragas e tempo de maturação – assim como os efeitos, cheiro, sabor e prazer na hora do consumo.

O cultivo é a chave para fazer hash. São intrinsecamente conectados. 

Foto comparativa de 3 diferentes buds, provenientes de diferentes Strains de Cannabis
Diferentes buds de diferentes Strains de Cannabis Fonte: Weedmaps

Nem toda strain é ideal para concentrados

Ali em cima, citamos o que procurar em uma genética para hash. Aí, já podemos compreender que nem toda strain vai servir bem a quem deseja se aventurar nas extrações sem solvente. Alguns especialistas afirmam, inclusive, que cerca de uma em cada três genéticas atendem bem aos produtores sem solventes. No futuro, à medida que mais breeders criarem strains que funcionam bem para processamento sem solvente, esse número certamente aumentará, e já vem aumentando.

Ao procurar uma strain viável para extração, estamos procurando uma estrutura específica de bud e um tamanho da cabeça de tricoma que rende bem em um processo de extração sem solvente. Para descobrir isso, uma das melhores formas é a experimentação e sua própria R&D (research and development, chique).

Clones: as grandes estrelas desse rolê

Além de escolher bem a sua genética, você vai precisar de um meio inteligente e até mais barato de propagar as características que você mais gosta nas suas plantas. Para isso, o processo de clonagem de cannabis é perfeito!

Diferente das sementes, com os clones você não tem apenas a mesma genética, mas todo o fenótipo da sua planta favorita. 

Para clonar, você precisa prestar muita atenção nos detalhes. Isso significa que é necessário observar cada uma de suas plantinhas e entender quais são suas melhores propriedades (por exemplo, para hash, o ideal é que sejam as mais tricomadas e terpenadas do seu grow). A partir daí, você pode descobrir um verdadeiro unicórnio no seu cultivo – e você poderá tirar um clone lindíssimo dele.

Quando você encontrar a plantinha ideal, também é importante que crie uma planta mãe dela. A planta mãe é um pé de cannabis cuidado justamente para dar origem a clones e propagar uma genética tida como a ideal. Por isso, ela vai ficar constantemente na fase de vegetação – e, assim, pode durar anos e anos e gerar inúmeras outras mudas.

A partir dos clones das suas melhores plantinhas, você pode ir fazendo experimentos – com nutrientes, luz, umidade e meio de cultivo – para entender exatamente como aperfeiçoá-la. A genética faz só o início do trabalho: o resto é tudo com você!

Homem mostra clones de plantas de cannabis já enraizados
Clones de cannabis já enraizados Fonte: THC Design

Strains boas para serem usadas nos processos de fazer haxixe sem solvente:

strains para haxixe

Como acontece no mercado legal

Nós, do Girls In Green, temos a honra de ter a oportunidade de trabalhar ao lado de parceiros que fazem parte do mercado legal estadunidense – como a Papa’s Select (@papas_select, no Instagram). A Papa’s Select é uma empresa incrível, e uma das poucas que produzem apenas hash sem solvente de extrema qualidade no estado da Califórnia. Para fazer bubble hashes, live rosin, rosin badder e sauces, eles procuram as melhores, mais potentes e terpenadas strains, cultivadas por diferentes fazendeiros de resina – principalmente na área de Humboldt County.

Há três anos eles ganham os primeiros lugares na Emerald Cup nas categorias de Hash e Rosin, trazendo sempre strains diferenciadas e exóticas para a mesa – e, claro, que fazem sentido para fazer hash. Isso vem com muita dedicação: dentro da empresa há uma área completa destinada para lavagens, testes e desenvolvimento de dados para calcular rendimentos para ver se são strains viáveis de girarem dentro do mercado legal. Afinal, são tantas taxas e testes que precisam ser feitos, que as contas precisam fechar!

Nesse ano, eles ganharam a copa com uma strain chamada Strawberry Jelly da Booney Acres Farms! Vamos falar mais disso em um próximo post, que contará mais sobre a marca e os fazendeiros que trabalham com ela.

Ficou com vontade de conhecer melhor sobre esse tema? É com a observação que aprendemos diversos truques interessantes para aplicar no nosso próprio cultivo – então, se você está pensando em cultivar algumas belezinhas para lavar em casa, não deixe de fazer o seu estudo primeiro.

Gostou de conhecer essa realidade? É bem diferente da nossa brasileira, né? Por isso, acima de tudo, devemos lutar pela legalização e regulamentação do uso e cultivo de cannabis aqui no Brasil. Além de a Guerra às Drogas ser um absurdo por ceifar milhares de vidas de inocentes todos os anos, ela ainda nos priva de um direito individual básico. É um dever de todos pressionar os poderes públicos por mudanças nessa política que só traz danos para nossa vida e para a sociedade como um todo.

Vamos nessa?

Esperamos que vocês tenham gostado.

Até o próximo post!

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