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FOLHA DE COCA E SEUS USOS TRADICIONAIS

Antes da Guerra às Drogas tomar conta do mundo, diferentes plantas eram usadas e exploradas livremente na medicina, na religião e em outros aspectos de sociedades ancestrais. A coca é uma delas. A folha de coca começou a ser usada há milênios na América do Sul por diversas propriedades. Ela só foi processada e transformada em cocaína pela primeira vez em 1859.

Então, por que tanto tabu pra cima dela?

A verdade é que, como muitas outras plantas, a folha de coca foi criminalizada pelo proibicionismo. Quem sofre são populações locais que precisam lutar para defender o direito de usar um elemento fundamental de conexão com sua própria cultura. Ela é um elemento tão tradicional e importante quanto os cogumelos mágicos, o peiote, o tabaco e outras plantas (e fungos) de poder.

Então, para ajudar a desmistificar seus usos, trouxemos um artigo cheio de informações sobre essa iguaria. Bora saber mais sobre ela e tirar os preconceitos da coca? Vem com a gente!

 

O que é e para que serve a folha de coca?

A coca é uma planta nativa da América do Sul, especificamente das regiões andinas. Seu nome científico é Erythroxylum coca. Ela é conhecida por suas folhas, que contêm substâncias alcaloides, e é mais famosa pela cocaína. Essa molécula é extraída e processada através de diferentes processos químicos. Aqui, já falamos sobre ela e seus subprodutos.

As folhas de coca têm uma longa história de uso pelas culturas indígenas dos Andes, remontando aproximadamente três mil anos a.C. Elas são tradicionalmente mastigadas, geralmente junto com um alcaloide contendo substância chamada “llipta”. Entretanto, também são usadas para fazer chás e infusões. 

Nas culturas andinas, a coca até hoje desempenha papéis importantes em rituais religiosos, sociais e medicinais. Ela é considerada uma planta sagrada e é usada em cerimônias xamânicas, como oferendas aos deuses, e para aliviar a fadiga nas altas altitudes.

Além disso, as folhas de coca têm propriedades estimulantes e podem ajudar a combater o mal da altitude, comum em regiões montanhosas. Elas também são usadas para aumentar a energia e a resistência física, especialmente em áreas onde o trabalho físico é comum.

 

Origens do uso da folha de coca

folha de coca
O uso da folha de coca, em chás ou mastigada, é milenar.

A utilização da coca, como já mencionamos anteriormente, remonta a milênios atrás na América do Sul, quando as civilizações pré-colombianas habitavam o continente. Vestígios de suas folhas foram encontrados em túmulos antigos no Peru. No Chile, múmias que datam de aproximadamente 4 mil anos atrás foram analisadas e tinham traços de cocaína em seus cabelos.

Embora haja poucas descrições detalhadas dos rituais ancestrais envolvendo a coca, eles eram diversos e abrangiam:

  • práticas em oráculos e oferendas;
  • integração social;
  • curas realizadas por xamãs;
  • iniciações e rituais tribais.

Em seu livro “Almanaque das drogas”, Tarso Araújo aponta que as civilizações andinas eram altamente relacionadas à coca. Ela desempenhava diversos papéis, incluindo como remédio, afrodisíaco e até mesmo uma forma de moeda de troca que sustentava sua economia. 

O conhecimento do mundo sobre a coca só surgiu após a chegada dos espanhóis. Eles não compreendiam os usos rituais e mágicos da planta, o que levou à sua proibição entre os anos de 1560 e 1569. No século XVII, durante a inquisição espanhola, ela foi associada até mesmo à bruxaria. No entanto, os povos indígenas rejeitaram as imposições da Igreja Católica e lutaram contra essas medidas colonialistas.

 

O uso tradicional de coca e seus significados

Segundo o Instituto Chacruna, “a coca é o meio pelo qual as comunidades direcionam energia para o trabalho individual e coletivo, enquanto oferecem alívio para problemas físicos e metafísicos.”

De acordo com o artigo, para as culturas tradicionais, ainda hoje, a coca é muito mais do que uma planta ou fonte de renda. Ela é vista como algo sagrado e fundamental para a cultura. Junto com outras plantas de poder, ela representa um sistema social indígena que valoriza o equilíbrio entre necessidades individuais e coletivas, a conexão entre o mundo humano e natural e a influência de forças que podem ser vistas — e outras que são mais misteriosas. 

Em muitas culturas, como o Clã Garza do povo Muruy-Muyna (Witoto), da região noroeste da Amazônia, a coca personifica o divino feminino. Ela simboliza o diálogo, a conexão espiritual, a força física e a clareza de pensamento. Conhecida como jibína na língua Muruy-Muyna, a planta ainda representa a própria essência do pensamento virtuoso. 

Lá e em outras partes da região, ela é usada em forma de Mambe (em espanhol) ou jíbie (em Muruy-Muyna). A substância consiste em um pó verde obtido após torra, moagem e peneiração das folhas de coca. Depois, ele é combinado com cinzas secas de folhas de yarumo, que aprimoram o sabor da coca e reforçam seus efeitos. O Mambe, de acordo com saberes indígenas, carrega o espírito benevolente da coca, a energia amável da primeira mulher, que trouxe sabedoria e orientação para o povo.

Outra forma de consumo tradicional é o chá de folha de coca, legal apenas na Bolívia, na Colômbia, no Peru, no Equador, no Chile e na Argentina. Entretanto, alguns desses locais estão lutando para a reclassificação e regulamentação da planta como um todo.

 

Como a coca se compara à cocaína?

A coca in natura é extremamente diferente de sua versão processada.

Embora a cocaína seja proveniente da coca, comparar suas folhas com o pó branco comprado em biqueiras por aí é simplificar demais as coisas. Isso porque, para se tornar a cocaína que muitos de nós conhecemos, a planta passa por uma transformação química que envolve ácido clorídrico e outras substâncias químicas, incluindo diversos agentes diluentes. 

Esse processo químico converte os alcaloides naturalmente presentes na coca em cloridrato de cocaína. Ele é absorvido rapidamente pelo corpo, provocando uma euforia quase imediata e intensa, porém rápida. Nos últimos anos, outro problema enorme com a cocaína é a mistura com fentanil. Esse opiáceo extremamente potente é capaz de causar overdoses mesmo em pequenas quantidades. Por isso, a testagem de amostras é fundamental para garantir a segurança e a Redução de Danos em seu uso.

Já a folha de coca possui uma concentração notável de nutrientes, particularmente cálcio, vitamina A, ferro, fósforo e proteína vegetal. Além de ser levemente estimulante, ela possui propriedades que ajudam a combater sintomas como tontura, náusea e falta de ar que podem ocorrer em grandes altitudes. Sua mastigação também pode auxiliar a digestão.

 

E aí, gostou dessas informações? Esperamos que elas ajudem você a entender melhor essa planta tão incrível que é a coca. Se quiser saber ainda mais sobre Redução de Danos, uso de substâncias e outras temáticas relacionadas, não esqueça de nos seguir no Instagram @girlsingreen710.

Até a próxima!

 

FAQ

 

O que é a folha de coca?

A folha de coca é proveniente da Erythroxylum coca, planta nativa da América do Sul, especificamente das regiões andinas. Ela é usada em chás, infusões, mastigada pura ou processada.

Para que serve a folha de coca?

Nas culturas andinas, a coca até hoje desempenha papéis importantes em rituais religiosos, sociais e medicinais. Ela é considerada uma planta sagrada e é usada em cerimônias xamânicas e para aliviar a fadiga nas altas altitudes.

Quais os benefícios da folha de coca?

A folha de coca possui uma concentração notável de nutrientes, particularmente cálcio, vitamina A, ferro, fósforo e proteína vegetal. Ela é estimulante. Também possui propriedades que ajudam a combater sintomas como tontura, náusea e falta de ar que ocorrem em grandes altitudes. Sua mastigação também pode auxiliar a digestão.

Quais os usos tradicionais de folha de coca?

A coca é usada tradicionalmente há milênios. Embora haja poucas descrições detalhadas dos rituais ancestrais envolvendo a coca, eles eram diversos. Abrangiam práticas em oráculos e oferendas, integração social, curas realizadas por xamãs, e iniciações e rituais tribais.

A folha de coca é ilegal?

O consumo da folha de coca não-processada de algumas maneiras específicas é permitido apenas na Bolívia, na Colômbia, no Peru, no Equador, no Chile e na Argentina. Entretanto, alguns desses locais estão lutando para a reclassificação e regulamentação da planta como um todo.

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