Cultura

Consumo de maconha, redução de danos e mulheres no mercado canábico

No dia 23 de maio demos uma entrevista para as mulheres do Jardim Babilônia, uma produtora de eventos multiculturais no Vale do Paraíba. Falamos sobre alguns dos assuntos que mais amamos, cannabis, mulheres, sexo e redução de danos!

O que é a Girls in Green?

“Hoje nosso principal propósito é disseminar o conteúdo de qualidade, focado em estratégias de redução de danos.”

O Girls in Green é uma empresa criada e composta por mulheres canábicas que atua como uma plataforma digital online de educação para temas canábicos e assuntos relacionados, sempre baseado nos princípios da redução de danos e com o foco no cuidado. Além disso, também atuamos como agência de comunicação e estratégia para marcas que querem trabalhar com marketing de conteúdo em seus produtos.

Hoje nosso principal propósito é disseminar o conteúdo de qualidade, focado em estratégias de redução de danos. Por sermos mulheres usuárias de cannabis para diversas finalidades, baseamos nosso conteúdo em experiências que vivenciamos, juntamente com estudos científicos – tudo isso sem julgamentos  (afinal, queremos ir em contracorrente com a postura proibicionista) e através de diferentes canais de mídia para sermos o mais acessível que podemos.

Temos um foco nas pessoas. Queremos criar um espaço seguro para que os usuários possam se abrir, criar laços e terem a garantia de que serão respondidos, tanto para assuntos pessoais como com dúvidas de conteúdo. Nós fazemos o nosso melhor para oferecer uma resposta rápida, acolhedora e com embasamento científico

Como é a produção do material educativo do Girls in Green?

Todo material produzido pelo Girls in Green é feito de forma autoral. A empresa começou comigo e com a Alice, a gente encontrava um tema que achava interessante ou importante para a pauta, estudava muito – normalmente em inglês por que o material é mais completo e produzia então, o conteúdo.

Eu sou formada em Relações Internacionais e trabalhei durante 9 anos em empresas internacionais, então cuidei mais das pautas políticas, econômicas e de mercado do Girls in Green enquanto a Alice, que é formada em Psicologia e é Redutora de Danos desde 2012. Ela sempre trabalhou com a temática das drogas, especialmente contribuindo nas mais diversas áreas voltadas para a  Redução de Danos e trouxe isso para o projeto de uma forma estrutural, que permeia tudo que a gente escreve.

Atualmente nós somos em 6 mulheres na empresa, eu e a Alice cuidamos mais do gerenciamento das coisas, ela do conteúdo e das redes sociais e eu da parte administrativa, comercial e do site e além de nós temos 2 jornalistas, uma cuidando da pesquisa – tem novidade nessa parte vindo ai – e outra que contribuí para a produção dos textos e temos também uma especialista em marketing digital e uma tradutora para o espanhol que veio pra somar com a gente nessa nova língua que estamos explorando – acabamos de lançar o nosso site em espanhol também!

Como foi seu primeiro contato com o mercado canábico? Como isso mudou sua visão em relação ao consumo de maconha?

O primeiro contato veio antes de eu saber que aquilo era o primeiro contato de verdade, por que no Brasil quem já foi pegar prensado em alguma boca de fumo, teve contato com o mercado existente no momento. Isso já deveria ser o primeiro alerta de que tem algo muito errado com a maneira com que a nossa sociedade enxerga essa planta milenar!

> “Conversando com um local – que tava pleno tomando seu café no coffee shop – fiquei impressionada de saber que ele não fumava!”

Mas o primeiro contato com o mercado regulado foi em 2014, na primeira vez que fui para a Espanha e Holanda, e conheci Barcelona e Amsterdam que eram um grande sonho meu. Acho que quem gosta muito de maconha no mínimo imagina como que é ir para uma cidade que tem vários cafés ou associações no caso de Barcelona, em que você entra e acha no cardápio qual maconha você quer fumar, compra e faz o consumo lá dentro de forma 100% legal.

E realmente foi lá que minha mente abriu muito, eu passei alguns dias sozinha antes das minhas amigas chegarem e conversando com um local – que tava pleno tomando seu café no coffee shop – fiquei impressionada de saber que ele não fumava! O que ele me passou foi uma visão de mundo “educada” onde a droga é apresentada aos jovens desde cedo pelo que ela é, com os benefícios e riscos do uso e que o preconceito das gerações mais velhas – que ainda existe – não é grande o suficiente para tirar o assunto da pauta da saúde pública e da liberdade de escolha do cidadão.

Não acho a política de drogas desses países perfeita, longe disso, mas realmente essa liberdade muda o jeito que você enxerga o consumo, por que só com educação que ele será feito de uma forma consciente.

Qual é o posicionamento da Girls In Green em relação ao consumo de maconha prensada no Brasil?

A gente sabe que essa é a realidade do Brasil e inclusive já foi a nossa realidade por muitos anos. Como empresa que pratica a produção de um conteúdo consciente e quer promover uma educação holística a respeito do assunto, a gente hoje foca em falar de como é possível “melhorar” o prensado, para tentar minimizar os possíveis danos e assim, pragmaticamente falando, praticar a redução de danos. Produzimos recentemente também, um conteúdo sobre LANDRACES que são essas genéticas nativas – como o famoso “Colômbia” e o manga rosa – que também são tipos de maconha muito consumidos no Brasil e são mais “transparentes” em relação a o que oferecem, por que é possível ver mais claramente que aquilo é um bud de maconha.

O complicado do prensado é não saber direito o que pode estar ali com os buds, na maioria dos relatos que a gente escuta de quem lavou o pren, a água sai escura e você consegue tirar muita folha, semente, galho, enfim uma série de coisas que não são massas de serem fumadas. E falando em lavar o prensado, muito importante aqui falar sobre a secagem, por que fumar maconha (boa ou ruim) com mofo é uma das piores coisas que podem ser feitas pro nosso corpo. Estamos pra lançar um conteúdo só sobre isso inclusive, por que na cena internacional isso já está sendo até estudado em laboratórios e coisas do gênero.

Quais aspectos a redução de danos abrange?

A redução de danos transcende a política, é um conjunto de estratégias pragmáticas de cuidado – tanto pessoal e coletiva. O objetivo é minimizar os possíveis riscos e danos causados pelo uso de drogas.

Um dos principais aspectos da redução de danos é não preconizar a abstinência, é aceitar a decisão do indivíduo caso ele queira continuar usando a sua substância de escolha e criar estratégias de cuidado a partir disso.

Aqui no GG a gente pensa na RD como um pilar na nossa atuação, voltada para o cuidado, respeitando as diferenças e construindo estratégias em conjunto com quem é usuário. O mais lindo é pensar que isso é feito de uma forma extremamente horizontal, de usuárias para outros usuários e não usuários.

Quais são os métodos acessíveis de redução de danos?

> “As estratégias de redução de danos tem que conversar com a realidade que cada sujeito se encontra, pensando na mais diversas interseccionalidades.”

Aqueles que fazem sentido para você estratégias de redução de danos tem que conversar com a realidade que cada sujeito se encontra, pensando na mais diversas interseccionalidades. Então se alguém fuma prensado, e essa é a possibilidade, pensar em estratégias para prensado – lavar, usar piteira longa. Ou chegar no ápice, pensando em um produto orgânico, vaporização, temperaturas a serem consumidas.

Tem que ser algo no qual você se identifique e queira fazer – ache viável e prático também. Esse é o motivo no qual a redução de danos é tão horizontal, é construída em conjunto, e a gente só precisa fazer o que faz sentido para a gente. A idéia é não impor nada.

A redução de danos é sobre danos físicos ou também sobre danos psicológicos, partindo o princípio de que nem sempre o consumo é consciente?

A redução de danos é para qualquer tipo de dano voltado para o cuidado e saúde. Se a gente pensar bem, em tempos de coronavírus, ações como as da RENFA distribuindo água e sabão na rua também são uma estratégia de redução de danos em pandemia.

Nesse caso, os danos podem ser causados nas mais diversas esferas. Seja psicológica, física, social, no contexto da família…

Sobre o consumo consciente, podemos partir da premissa que o consumo não é consciente principalmente quando pensamos nas informações que foram disseminadas sobre a cannabis ao longo de todos esses anos de proibição. Nosso papel aqui é informar para ir na contracorrente disso, e produzir conteúdos com informações verdadeiras para servirem de estratégias de RD para um consumo consciente.

Se informar é reduzir danos.

Na Jamaica vocês tiveram contato e produziram um conteúdo com mais mulheres que atuam no mercado canábico, qual foi o sentimento de saber que existem tantas mulheres nesse mercado, em posições importantes?

Somos em duas, e por muito privilégio ambas tiveram muitas experiências internacionais e hoje a Alice inclusive mora no “polo” da maconha, no norte da Califórnia. Digo isso, por que realmente tivemos oportunidades incríveis dentro do mercado canábico de conhecer outras mulheres que desde o início são nossas inspirações no Girls in Green. Lá nos Estados Unidos, o mercado da cannabis é o que tem o maior percentual de mulheres no poder, muito acima da média nacional de outras indústrias, o que sempre mostrou pra gente que as mulheres vieram pra mostrar o nosso poder, e com o mercado da cannabis a gente tem a oportunidade de fazer isso desde o início, de ocupar essa posição de liderança e não precisar, como em outros mercados, correr atrás depois.

O que foi mais incrível na Jamaica foi ver a variedade de mulheres, lá conseguimos entrevistar desde CEOs importantes, de fundos de investimento milionários, como também ativistas de direitos humanos, a Ministra da Cultura – todas poderosíssimas e com histórias dignas de um livro.

E o sentimento que sai disso é o de muita gratidão. Gratidão de ter essa oportunidade de conhecê-las e uma gratidão ainda maior de podermos comunicar essas vozes para mais pessoas, de termos uma plataforma que pode além de expressar o que a gente pensa, também abre a porta para que outras histórias e outras inspirações.

Como mulher brasileira, que nasceu e vive no Brasil, pessoalmente posso dizer que tenho muito orgulho de trabalhar com cannabis e militar pela legalização, também sei do privilégio e responsabilidade que vem com essa posição, por que como eu falei, acho que agora é a nossa hora de sair na frente, de tentar um mercado regulado que seja justo, que não seja dominado por homens brancos e que por favor, venha com a consciência de que precisamos reparar anos de danos causados pela Guerra às Drogas.

Qual sua dica para as mulheres que querem iniciar os estudos ou trabalho no mercado canábico?

Estudar muito. A verdade é que pra entrar em um mercado pautado pelo proibicionismo e que tem tantas mentiras sendo faladas até hoje, não é fácil e perpassa por muitos preconceitos. Ter conhecimento, ter informações, saber contra argumentar, quebrar tabus e mitos é a maneira que a gente encontrou de fazer isso para a nossa vida. Nenhuma de nós nasceu já trabalhando com isso e também não tivemos o apoio incondicional da nossa família e amigos desde o início. Hoje em dia, isso já é bastante diferente, estamos trabalhando com cannabis a 5 anos e evoluímos demais desde o inicio, assim como aceitação disso no nosso meio.

Defina em uma palavra o lubrificante de maconha.

Gozei!

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