Redução de Danos

Energy Control: Análise química de substâncias e redução de danos

Quer entender como a testagem de substâncias contribui para reduzir os seus danos? Vem ler essa entrevista com a galera do Energy Control, centro de análise em Barcelona.

Se você frequenta festas da cena eletrônica, já pode ter se deparado com um estande de Redução de Danos com testagem de substâncias. Por si só, essa já é uma ferramenta incrível para garantir a qualidade do que será consumido!

Mas a verdade é que essa é uma base primordial da RD — e não apenas pela análise. Os testes são um gancho fundamental para se conectar com usuários e usuárias e trazer informações que podem fazer a diferença entre um uso mais seguro e um uso potencialmente arriscado. Ela é uma porta de entrada importante para fazermos uma verdadeira e completa apologia ao cuidado.

A testagem de drogas é uma área muito interessante, que vem evoluindo bastante em diversas partes do mundo. Um dos exemplos mais legais que tivemos o prazer de conhecer de perto foi o Energy Control, iniciativa espanhola de Redução de Danos, que foca na informação e no gerenciamento de riscos e prazeres.

Quer conhecer essa realidade e descobrir as tecnologias por trás da análise química de substâncias? Vem com a gente mergulhar nesse universo em expansão!

Como surgiu o Energy Control?

Nuria Calzada trabalha há 22 anos no Energy Control. Ela contou para a gente como tudo começou, e como funciona o projeto — que nasceu há 25 anos em Barcelona. O centro nasceu quando houve um boom na cena da música eletrônica, e o uso de substâncias como o ecstasy passou a crescer na Espanha. 

Energy control trabalha reduzindo danos do consumo de drogas na Europa
Fonte: energycontrol.org

Segundo ela, os profissionais perceberam que muitos problemas surgiam pela desinformação e falta de conhecimento. Os usuários eram pessoas que não se identificavam com os dispositivos que existiam e com as respostas que encontravam. Havia uma barreira enorme no tratamento com esses indivíduos, pois se confundia o uso com a dependência, quando cerca de 90% das pessoas não passam por uma relação necessariamente problemática. 

“Essas pessoas não eram visíveis para a sociedade, por isso não existem, e [dizia-se] que todo uso de drogas é problemático e precisa de tratamento, quando essa não é a realidade.”

A estratégia desde o início foi ir às festas e encontrar os consumidores, em 1997. E em 98 já iniciaram os testes com Marquis. As margens de erro da técnica são muito grandes, mas, no momento, foram muito úteis e simbolizaram o início de algo maior. 

Em 2005, o Energy Control abriu um serviço fixo. Levar a testagem além dos festivais abriu novas possibilidades: hoje, o trabalho de análise é feito de forma preventiva, com visitas agendadas. E a testagem evoluiu!

As principais técnicas de testagem de substâncias

Cristina Gil, que trabalha com as análises no Energy Control, contou para nós um pouco mais sobre cada técnica utilizada — desde o início das operações até hoje.

Testes colorimétricos

Foi como tudo começou! Os testes colorimétricos permitem fornecer informações qualitativas e rápidas sobre a presença ou ausência das substâncias ativas de speed, ecstasy, cocaína, ketamina, heroína, GHB/GBL, LSD e Nexus (2C-B). O laboratório utiliza os testes Marquis, Mandelin, Mecke, Scott, p-DMAB, Liebermann e GHB.

A desvantagem do método é que ele não é tão específico, e os resultados são apenas qualitativos — não quantitativos. 

Teste Colorimétrico
Fonte: energycontrol.org

Cromatografia em camada fina (TLC)

A Thin Layer Chromatography, ou TLC, é uma técnica qualitativa mais precisa que os testes colorimétricos. Ela permite analisar uma gama muito mais ampla de substâncias, diferenciando entre derivados de ecstasy (como MDEA, MDA, etc.), derivados de anfetaminas (como anfetamina, metanfetamina e mefentermina), cocaína, ketamina, opiáceos, canabinoides, LSD, NPS, e a detecção dos adulterantes mais comuns. 

A vantagem com essa técnica é que é possível determinar as diferentes substâncias presentes na amostra. A desvantagem, no entanto, é que não se pode determinar o seu grau de pureza.

Cromatografia em camada fina
Fonte: energycontrol.org

Espectrofotometria Ultravioleta (UV)

Essa técnica permite conhecer a concentração do princípio ativo na amostra, desde que não adulterado. Ela quantifica substâncias como MDMA, MDA, 2C-B, 6-APB, 4-FA, (2,3,4)-MMC e alprazolam. O resultado que a UV nos proporciona permite ajustar a dose da substância a ser consumida e reduzir os riscos derivados de uma dose excessivamente alta!

Espectrofotometria ultravioleta
Fonte: energycontrol.org

GC/MS, LC/MS e HPLC-UV

Essas técnicas são mais avançadas, e possibilitam conhecer a composição de cada droga com muita precisão. Elas são feitas em colaboração com o Departamento de Farmacologia do IMIM (Institut Hospital del Mar d’Investigacions Mèdiques), em Barcelona.

GC/MS, LC/MS e HPLC-UV utiliza técnica avançada para testagens avaliando precisamente a composição de cada droga
Fonte: energycontrol.org

Fourier Transform Infrared Spectroscopy (FTIR)

Uma tecnologia mais nova e rápida, o FTIR mostra diluentes, como manitol, lactose e outros, e complementa muito bem como técnica analítica. 

Fourier Transform Infrared Spectroscopy (FTIR)
Fonte: syntpot.ee

Como essas técnicas se aplicam?

Segundo Cristina, as técnicas podem ser combinadas para uma precisão maior nas análises. Se encontram algo que não sabem o que é, eles cruzam com colaboradores externos. 

“Quando aparece uma substância muito nova que não conhecemos e que não há informação, tentamos conseguir todos os dados possíveis. Se não conseguimos, enviamos a uma universidade que estamos colaborando, que conta com uma ressonância magnética nuclear”. Essa técnica faz um desenho da molécula de cada substância de acordo com a energia que ela produz. 

Parece ficção científica, né?

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O trabalho vai se complementando, aumentando a diversidade de sistemas de análise, para diversificar e tornar a testagem mais efetiva. Mas essa análise para Redução de Danos possui um preço bem elevado, dependendo da técnica. Um destaque positivo, para Cristina, vai para a TLC, por exemplo — ela tem um bom custo-benefício por ser um equipamento versátil, portátil e que permite uma análise com resultados legais. 

A realidade do Energy Control atualmente

No começo, a iniciativa era considerada bastante controversa e tinha muita gente contra. Mas, 25 anos mais tarde e com o apoio do Ministério da Saúde local, o centro transcende a realidade das festas. “Fazemos artigos científicos, pesquisas sociais, fazemos parcerias com universidades, fazemos formações de médicos… fazemos muitas outras coisas além da análise”, pontua Nuria.

O trabalho segue causando um efeito surpresa. De acordo com Nuria, os usuários do serviço destacam a sensação de liberdade para falar do consumo sem se sentir julgado. E, quando falamos em RD, precisamos sempre lembrar que esse é o ponto fundamental: encontrar alguém para falar de drogas de forma sincera e honesta, e que responda como se estivesse falando de qualquer outro aspecto da vida. 

A testagem de substâncias é um gancho, um serviço que aproxima a Redução de Danos de uma população muito mais difícil de se conectar. Isso é feito de maneira livre de estigmas, sem a ideia de que a droga sempre, indiscutivelmente, causa dano. É útil e não dá apenas o resultado da análise em si, mas também entrega diálogo: envolve pautas de redução de riscos e estratégias, se é algo que é melhor não tomar determinada substância, se é necessário ajustar a dose, e outras questões.

“E qual a amostra mais estranha já recebida?” Cristina conta que, certa vez, chegou ao laboratório uma pasta marrom, sem aspecto muito convencional, que continha paracetamol, MDMA, cafeína, ketamina, cocaína, heroína e levamisol. Foi a mescla mais rara, como um combo de tudo que a pessoa tinha no momento. Consegue imaginar o que isso poderia causar?

A análise é uma ferramenta, mas não é tudo

Conversando com a galera do Energy Control, uma coisa ficou aparente: a análise química das substâncias é uma ferramenta que não funciona sozinha! Por isso, normalmente, os centros de análise nunca são meros centros de análise. Esses ambientes contam com redutores de danos habilitados para, na conversa, trazer informação e unir as forças de cada estratégia.

De nada adianta descobrir que sua substância é pura e acabar errando na dose, ou mesmo nos equipamentos e métodos de uso! É importante combinar todas as opções disponíveis para ter uma Redução de Danos verdadeiramente eficaz.

Por isso, a gente admira demais o trabalho que esse espaço faz, e que outros, aqui no Brasil e no resto do mundo, conseguem entregar — mesmo com poucos incentivos. A abordagem da educação pode fazer uma grande diferença, levando o conhecimento para os locais e pessoas que dele precisam.

E aí, gostou de conhecer essas histórias e técnicas? Se sim, não esqueça de dar o seu apoio aos centros de RD brasileiros, como o É De Lei. Toda ajuda conta na luta pela universalização dessa ótica de cuidado em liberdade, com foco na individualidade e na decisão de cada indivíduo.

Segue a gente lá no Instagram @girlsingreen710 para saber mais sobre essa e diversas outras temáticas no universo do uso de substâncias!

Até a próxima!

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