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A psilocibina tem se tornado uma das substâncias psicodélicas mais pesquisadas por seu potencial no tratamento de depressão, Alzheimer e muitos outros problemas. Aqui, vamos mostrar os estudos mais recentes e promissores sobre ela!

Se você ainda não ouviu falar sobre a psilocibina, chegou a hora de se atualizar: a substância, presente nos cogumelos mágicos, já é um dos psicodélicos mais pesquisados no mundo por suas propriedades terapêuticas. Muito conhecidos por causarem experiências psicológicas intensas, conhecidas como “viagens”, há um impulso crescente dentro da comunidade científica para estudar essa substância como possível tratamento para condições psiquiátricas. De acordo com artigos da Universidade de Harvard, eles podem ser potencialmente mais eficazes e ter menos efeitos colaterais do que os medicamentos tradicionais.

E se engana muito quem pensa que isso é novidade: entre 1950 e 1960, diversas pesquisas envolvendo psicodélicos foram usadas para investigar seus efeitos em problemas como uso abusivo de álcool e alguns tipos de transtornos mentais. O proibicionismo levou a uma pausa de quase 40 anos nesse trabalho, mas os cientistas estão começando a retomar as pesquisas.

Ainda segundo Harvard, alguns ensaios marcantes de 2014 e 2016 já mostraram que o LSD e a psilocibina, respectivamente, melhoraram o humor e a ansiedade em pacientes com várias doenças potencialmente fatais por até um ano após o tratamento. Ainda existem muitos outros estudos em andamento testando seus potenciais – e eles parecem ser muitos. O Instituto Johns Hopkins Medicine, um dos maiores centros de pesquisa e aplicação de medicina do mundo, criou até um Centro de Pesquisas sobre Psicodélicos e Consciência. Incrível, né?

Aqui, queremos falar um pouco mais sobre as descobertas mais recentes e os estudos que estão sendo conduzidos para entender todo o poder desses pequenos (e muitas vezes injustiçados) fungos. Vem com a gente descobrir esse mundão!

Alerta: esse post tem fins educacionais e informativos e não é, de maneira alguma, um incentivo à automedicação de qualquer espécie.

Cogumelos mágicos e cannabis

Retomando: o que é a psilocibina?

A psilocibina, presente nos famosos cogumelos mágicos, é um alcaloide psicodélico que ativa principalmente os receptores de serotonina, mais concentrados no córtex pré-frontal do cérebro – área responsável pelo nosso humor, cognição e percepção.

Após a ingestão, a psilocibina é absorvida e metabolizada em um processo que dura em torno de 30 minutos, com uma duração que varia de quatro até seis horas. Seus efeitos mais comuns são sensações de alegria e euforia, despertar espiritual, desrealização, despersonalização, entre outros.

cultivo caseiro cogumelos

Psilocibina no tratamento de depressão

Uma das maiores promessas dentro da pesquisa voltada aos cogumelos mágicos e seus efeitos é a possibilidade de uso como um tratamento para depressão.

Esse estudo bem recente, de novembro de 2021, publicado no Translational Psychiatry, indica que a psilocibina tem mostrado um potencial incrível para o tratamento de transtornos de humor, que muitas vezes são acompanhados por disfunção cognitiva, incluindo o que os pesquisadores chamam de rigidez cognitiva. Em uma pesquisa aberta com 24 pacientes com transtorno depressivo maior, foram testados os efeitos duradouros da terapia com psilocibina sobre a flexibilidade cognitiva, flexibilidade neural e concentrações de neurometabólitos em regiões do cérebro que apoiam a flexibilidade cognitiva e implicadas nos efeitos agudos da psilocibina. A terapia com psilocibina aumentou a flexibilidade cognitiva por pelo menos 4 semanas após o tratamento, embora essas melhorias não tenham sido correlacionadas com os efeitos antidepressivos relatados anteriormente.

Também esse ano foi publicada uma revisão bastante interessante sobre três pesquisas (inclusive a mencionada acima) focadas no uso da substância como tratamento em quadros depressivos, destacando ela como algo promissor nessa área da farmacologia.

  • Um estudo da Imperial College de Londres, publicado em 2016, avaliou os efeitos da psilocibina no controle de depressão resistente a tratamentos convencionais. No ensaio, 12 pacientes (seis homens, seis mulheres) com depressão maior moderada a grave, unipolar e resistente ao tratamento receberam duas doses orais de psilocibina (10 mg e 25 mg, com 7 dias de intervalo) em um ambiente de suporte. Os resultados mostraram uma diminuição significativa nos sintomas depressivos em acompanhamentos de até seis meses após a dosagem.

  • Mais recentemente, os mesmos pesquisadores da Imperial College de Londres conduziram um estudo duplo-cego com 59 participantes com transtorno depressivo moderado a grave para testar a eficácia da psilocibina em relação a antidepressivos comuns. Os pesquisadores encontraram reduções maiores nos escores de depressão em seis semanas no grupo que utilizou a psilocibina em comparação com o grupo que utilizou escitalopram.

Embora os pesquisadores concordem que mais pesquisas são necessárias, esses dados já são reveladores e bastante animadores para os entusiastas dos psicodélicos!

cogumelo amanita

Psilocibina como tratamento para “vícios”

Uma pequena observação: nós, do Girls in Green, problematizamos o uso dessa palavra – embora a gente saiba que ela é a mais utilizada para descrever relações negativas com substâncias ou outros comportamentos. Sabendo disso, vamos lá!

Um dos primeiros e mais pesquisados efeitos da psilocibina é a sua ação contra o tabagismo e outros distúrbios relacionados ao uso problemático de substâncias.

Por exemplo: esse estudo piloto aberto recente, de 2016, descobriu que duas a três doses moderadas a altas de psilocibina, em combinação com terapia comportamental (TCC) para a cessação do tabagismo, resultou em taxas de abstinência muito maiores do que as normalmente observadas com outros medicamentos ou apenas com a TCC. No acompanhamento de 12 meses, 10 participantes (67%) foram confirmados como abstinentes de fumar. Esses resultados sugerem que, em um contexto de tratamento estruturado, a psilocibina é uma promessa considerável na promoção da abstinência do tabagismo a longo prazo!

Outro estudo de 2014 dá suporte a essas descobertas: nele, 12 de 15 participantes (80%) pararam de fumar tabaco após uma experiência mística com a psilocibina, em resultados acompanhados por seis meses.

O Centro de Medicina Johns Hopkins está realizando estudos para descobrir a efetividade da psilocibina no tratamento de alcoolismo ligado à depressão, e até mesmo ao uso de opioides – o maior causador de mortes por overdose nos Estados Unidos. Estamos ansiosas para os resultados!

cogumelos mágicos

Psilocibina como tratamento para o Alzheimer

Não é apenas a maconha que pode ter propriedades incríveis contra o Alzheimer e seus sintomas! A psilocibina e outros psicodélicos estão sendo investigados como uma possível forma de ajudar pacientes diagnosticados com a doença degenerativa.

Em um estudo novinho em folha, publicado em 2021, pesquisadores sugerem que os psicodélicos podem exercer efeitos ansiolíticos e antidepressivos em pessoas com Alzheimer. A revisão ainda afirma que os modelos animais mostraram um papel importante das substâncias como a psilocibina na modulação da função de aprendizagem e memória com relevância para a doença de Alzheimer e demências relacionadas. Uma série de mecanismos biológicos de ação estão sob investigação para elucidar o seu potencial terapêutico, incluindo:

  • neuroplasticidade aumentada;

  • efeitos anti inflamatórios;

  • alterações na conectividade funcional do cérebro.

Os dados pré-clínicos indicam um potencial para regimes de tratamento psicodélico de baixa ou alta dose para diminuir ou reverter a atrofia cerebral, melhorar a função cognitiva e diminuir a progressão do Alzheimer.

interior da cabeça de um cogumelo

O que mais podemos esperar?

Além desses efeitos mais investigados, também temos muitas pesquisas sendo desenvolvidas no momento. Para vocês terem noção: só no Centro de Pesquisas sobre Psicodélicos e Consciência da Johns Hopkins, os pesquisadores estão se concentrando em como os psicodélicos afetam o comportamento, humor, cognição, função cerebral e outros marcadores biológicos de saúde. Estudos atuais e futuros buscam mais evidências sobre a psilocibina no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (PTSD), síndrome da doença de Lyme pós-tratamento (anteriormente conhecida como doença de Lyme crônica), anorexia nervosa e uso de álcool em pessoas com depressão maior. 

Estudos recentes sobre microdosagem

Além de estudos mais focados nas macrodoses – ou seja, dosagens de psilocibina altas o suficiente para que o usuário sinta seus efeitos psicoativos de maneira mais intensa -, também temos algumas pesquisas que recém saíram do forno sobre as microdoses.

“Mas meninas, o que são microdoses?” Como o nome dá a entender, as microdoses são uma forma de consumir uma substância psicodélica em pequenas quantidades. Por exemplo, uma dose típica de cogumelos é de um a um grama e meio. Uma microdose seria algo entre 50 e 150 miligramas.

As pesquisas não chegam exatamente a um consenso neste assunto. Como elas ainda são muito novas, há um número relativamente limitado de estudos disponíveis para entender seus efeitos em humanos. A maioria das “evidências” em humanos tem se limitado a pesquisas com aqueles que tentaram microdosar por conta própria – ou seja, aquela famosa experiência empírica dos aventureiros.

Em uma pesquisa internacional, 79% dos entrevistados relataram melhorias em sua saúde mental após a microdosagem. Em outras pesquisas – como essa, publicada em novembro de 2021, os participantes descreveram sentir uma melhora na criatividade e produtividade, além da diminuição dos níveis de ansiedade e depressão. Embora promissores, esses resultados devem ser vistos com cautela. Por se tratarem de pesquisas não padronizadas, não há como confirmar ou impor a dosagem, programação e tipo de psicodélico usado e, de fato, alguns estudos já observaram que as experiências podem variar dependendo desses fatores.

Além disso, esses resultados são suscetíveis ao chamado efeito placebo, no qual apenas o conhecimento de que você está fazendo algum tipo de tratamento pode fazer com que você experimente benefícios, mesmo que o tratamento não esteja diretamente relacionado causalmente aos efeitos.

Para David Nutt, Professor de Neuropsicofarmacologia da Imperial College de Londres e autor sênior de uma revisão de 2019 sobre microdoses, ainda não existe um consenso científico sobre a prática e seus benefícios.

Ou seja: ainda precisamos ser pacientes se quisermos aderir à prática em nome da ciência. Entretanto, existem muitos regimes diferentes para quem deseja experimentar e sentir como elas funcionam (e se elas funcionam) para você. Algumas delas você pode conferir nesse artigo aqui!

microdose de cogumelos

A verdade é que o proibicionismo atrapalhou muito as descobertas que envolvem psicodélicos, e a retomada nas pesquisas mostram que, infelizmente, muito tempo foi perdido. Agora, cabe à nós esperar ansiosamente a confirmação desses efeitos tão positivos – acreditamos que, com eles, ainda mais estudos serão desenvolvidos e iremos finalmente poder desvendar um pouco mais sobre a magia de substâncias como a psilocibina!

E você, curtiu saber de tudo isso? Já usou psilocibina alguma vez? Conta aqui para a gente a sua experiência – e não se esqueça de nos seguir lá no Instagram @girlsingreen710 para estar sempre por dentro das novidades e de conteúdos desenvolvidos especialmente para você.

Até a próxima!

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W.T.
W.T.
5 meses atrás

Infelizmente ainda estamos muito distantes de conseguir testar, por causa da questao da ilegalidade. Sofro com depressao e ansiedade há anos, tentei falar com os medicos sobre alternativas aos remedios convencionais, mas infelizmente só ganhei ‘caras feias’, principalmente em portugal….