Redução de Danos

DEPENDÊNCIA: POR QUE ALGUMAS PESSOAS “VICIAM” EM DROGAS?

Enquanto algumas pessoas usam substâncias esporadicamente sem problemas, para outras, a relação acaba sendo mais problemática. Venha entender os motivos!

Nem toda relação com as drogas vai necessariamente ser algo ruim. Existem diferentes tipos de uso, com razões e frequências variadas. Mas, quando as substâncias passam a desempenhar um papel quase vital para um indivíduo, estabelece-se uma forma de dependência. Ela também chamada, principalmente no meio da Redução de Danos, de relação problemática com a droga.

Não é de hoje que o ser humano gosta de usar plantas, animais e outros tipos de princípios ativos para alterar a consciência. Existem até mesmo teorias que sugerem que o desenvolvimento acelerado do nosso cérebro se deu por conta do consumo de cogumelos mágicos (mas assim, nada comprovado exatamente). A verdade é que o uso de drogas é intrínseco à humanidade, e precisamos entender quando ele se torna negativo para não acabarmos caindo nas falácias da Guerra às Drogas e do proibicionismo.

Hoje, queremos trazer à tona esse assunto de tanta importância. Seja para refletir sobre seu uso de drogas ou para se armar de conhecimento: venha com a gente entender as razões pelas quais algumas pessoas desenvolvem uma relação de dependência com as drogas e outras não!

 

Nem todo uso de drogas é problemático

Para começar, precisamos levantar esse ponto. Isso porque o proibicionismo nos fez acreditar que, quando se usa uma droga, já se inicia uma relação de dependência. E não é assim, não!

Toda droga possui efeitos positivos e negativos, e é essencial prestar atenção neles. Mas, quando o assunto é abuso em si, a conversa precisa ser um pouco diferente. O doutor em psicologia da educação e professor da PUC-SP Marcelo Sodelli fala sobre isso em seu livro “Uso de Drogas e Prevenção”. Em sua visão ele, existem quatro principais padrões de uso:

  • experimental: pode ocorrer por diversas razões, desde a mera curiosidade até a influência de amigos e a busca por aceitação social.
  • ocasional ou esporádico: não é mais considerado um comportamento experimental, uma vez que o usuário está ciente dos efeitos da substância. No entanto, seu consumo é mais controlado e limitado a situações específicas, como eventos sociais e festas.
  • habitual: representa um uso mais frequente, que já não se restringe mais a contextos sociais. Mas a substância não interfere substancialmente nas relações sociais, no trabalho ou nas responsabilidades cotidianas, como estudos e relacionamentos afetivos.
  • “dependência”: o uso da substância não está mais relacionado ao prazer que ela proporciona, mas sim à angústia causada pela sua ausência. Ela passa a dominar a vida do usuário, levando ao distanciamento de relações interpessoais e prejudicando gravemente sua rotina diária.

De acordo com o diretor do Instituto Nacional de Saúde (NIH) estadunidente, Dr. George Koob, “uma percepção equivocada comum é que a dependência é uma escolha ou um problema moral, e tudo o que você precisa fazer é parar. Mas nada poderia estar mais longe da verdade”. 

Então, quais seriam as razões por trás da dependência?

 

Entendendo a dependência e seus motivos

As causas por trás da dependência são variáveis. Imagem: Sara Shakeel.

A dependência ou o uso problemático de drogas é uma temática cada vez mais estudada ao redor do mundo. E o consenso hoje é que ela se trata de uma doença crônica multifatorial, que pode envolver, segundo o NIH:

  • a biologia. Os genes com os quais as pessoas nascem respondem por cerca de metade do risco de uma pessoa para a dependência. Gênero, etnia e a presença de outros transtornos mentais também podem influenciar o risco de dependência;
  • o ambiente. Ele inclui muitas influências diferentes, desde a família e os amigos até o status econômico e a qualidade geral de vida. Fatores como pressão dos colegas, abuso físico e sexual, exposição precoce a drogas, estresse e orientação dos pais podem afetar significativamente a probabilidade de uma pessoa desenvolver uma relação negativa com as drogas;
  • e o desenvolvimento. Fatores genéticos e ambientais interagem com estágios críticos de desenvolvimento na vida de uma pessoa para afetar o risco de dependência. Embora o uso de drogas em qualquer idade possa levar à dependência, quanto mais cedo ele começar, maior o risco. Isso é particularmente problemático para adolescentes. Como áreas de seus cérebros que controlam a tomada de decisões, o julgamento e o autocontrole ainda estão em desenvolvimento, os adolescentes podem ser especialmente propensos a comportamentos de risco.

Ou seja: antes de julgar o uso de alguém, precisamos entender que existem razões profundas para que ele tenha se desenvolvido e se tornado danoso.

 

Sinais da dependência

De acordo com a Johns Hopkins, os sinais de uma possível dependência podem incluir:

  • usar quantidades maiores de drogas ou por períodos mais longos do que o planejado;
  • querer continuamente ou tentar sem sucesso reduzir ou controlar o uso;
  • gastar muito tempo usando ou se recuperando do uso;
  • desejar intensamente a substância;
  • uso contínuo que interfere no trabalho, na escola ou nas responsabilidades domésticas;
  • seguir com o uso mesmo que ele cause problemas nos relacionamentos;
  • abandonar ou reduzir atividades devido ao uso de drogas;
  • tomar atitudes arriscadas, como riscos sexuais ou dirigir sob a influência;
  • continuar a usar drogas mesmo que isso esteja causando ou contribuindo para problemas físicos ou psicológicos;
  • apresentar sintomas de abstinência quando não se utiliza drogas.

Ainda de acordo com o instituto, esses sintomas podem se assemelhar a outros problemas médicos ou condições psiquiátricas. Por isso, é fundamental consultar um profissional antiproibicionista para entender melhor o que está acontecendo.

 

Quais as melhores formas de abordar a dependência?

Redução de Danos e educação são soluções a se explorar. Imagem: SlimeSunday.

Nós acreditamos no poder da Redução de Danos, criada justamente para trazer um olhar mais humanizado àqueles que sofrem com o uso problemático de alguma substância. Ela envolve um conjunto de estratégias que partem do pressuposto de que o uso de substâncias sempre vai existir. Mas os indivíduos devem ter total noção de como elas podem afetar a sua vida. Só assim é possível prevenir e remediar efeitos negativos.

Ao contrário da política proibicionista, que busca punir, reprimir e promover a abstinência, a Redução de Danos (RD) se caracteriza pelo pragmatismo e por uma proposta metodológica de cuidado em saúde. Isso tem como objetivo a redução de riscos e danos em relação ao complexo fenômeno do consumo de drogas, sejam elas ilícitas ou não.

A RD trabalha a partir de um conjunto de práticas relacionadas ao cuidado e bem estar dos usuários, os quais não necessariamente possuem como objetivo a abstinência. Sabe-se que as pessoas podem ter diferentes formas de se relacionar com as drogas. E, como dissemos anteriormente, ela nem sempre é negativa!

Além da distribuição de materiais para uso seguro, informação e educação do usuário, a RD estuda terapias de substituição. Também é necessário um acompanhamento psicológico, principalmente para entender a origem do comportamento e como agir diretamente nela. Caso seja um trauma, por exemplo, é preciso pensar em maneiras de lidar com a situação de maneiras não-destrutivas. 

A verdade é que a situação da adição é difícil, mas pode ser tratada, principalmente através do acolhimento e de um olhos individualizado a cada realidade. Somos sujeitos únicos!

 

FAQ

 

O que é a dependência das drogas?

Segundo Marcelo Sodelli, a dependência é quando o uso de drogas não está mais relacionado ao prazer que ela proporciona. Mas sim à angústia causada pela sua ausência. A substância passa a dominar a vida do usuário, levando ao distanciamento de quem se ama e de seus interesses.

O que causa a dependência?

A dependência é um problema crônico multifatorial. Ela pode envolver fatores biológicos (gênero, etnia e genética); ambientais (família, amigos e situação socioeconômica); e relacionadas ao desenvolvimento (adolescentes podem ser mais propensos, por exemplo, pela formação cerebral).

Quais os sintomas da dependência?

A dependência geralmente apresenta sintomas como uso abusivo de substâncias pro longos períodos de tempo e em grandes quantidades. Outros sinais envolvem o afastamento da rotina e de atividades do dia a dia, bem como de relações pessoais.

Como é tratada a dependência?

Nós acreditamos na abordagem da Redução de Danos, que busca acolher e entender o indivíduo por trás do usuário. Isso significa que cada abordagem é única, dependendo exclusivamente do paciente e dos fatores relacionados ao uso.

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