GIRLS IN GREEN

Nem só de psilocibina são feitos os cogumelos alucinógenos. Aqui, vamos mostrar outras substâncias tão especiais – e responsáveis por seus efeitos – quanto ela.

Quando falamos sobre a maconha, sempre gostamos muito de ressaltar o efeito comitiva. De acordo com ele, centenas (ou milhares!) de substâncias dentro da nossa amada plantinha trabalham em equipe para potencializar seus benefícios e reduzir qualquer reação indesejada. E, no caso dos cogumelos mágicos, essa sinergia também se faz bastante presente e envolve diferentes compostos.

Embora a gente ouça muito falar da psilocibina, não é só ela que aparece nos nossos amados fungos psicodélicos. Moléculas como psilocina, baeocistina, norbeocistina e aeruginascina também podem ser encontradas em muitas das espécies mais comuns, em maior ou menor quantidade. Tudo depende do que nosso querido micologista Paul Stamets chama de “uma constelação de fatores”.

Vamos falar mais sobre isso e entender para que servem os diferentes compostos encontrados nos cogumelos mágicos? 

Foto colorida de uma mão segurando um cogumelo Psilocybe cubensis em fundo liso e beje
Psilocybe cubensis, cogumelo psicodélico que contém psilocibina

Psilocibina e psilocina: as famosas do rolê

Tão parecidas que chegam a confundir um leitor mais desatento, a psilocibina e a psilocina são duas faces de uma moeda, digamos assim. Mas bora aprofundar essa ideia!

A gente sabe que a psilocibina é o composto mais conhecido encontrado em cogumelos psicodélicos. Ela se trata de uma triptamina substituída e pró-droga da psilocina, e o composto responsável por provocar as viagens – ou seja, os efeitos alucinógenos.

A psilocibina é um análogo químico do neurotransmissor serotonina, responsável pelo nosso bem-estar, de forma geral. O composto aparece naturalmente em várias espécies de cogumelos mágicos, juntamente com a psilocina e outros compostos. A psilocibina e a psilocina foram sintetizadas pela primeira vez por Albert Hofmann (considerado o pai do LSD) e sua equipe de pesquisa em 1959.

Mas o que ser uma “pró-droga” da psilocina significa? Que, quando consumida, a psilocibina é rapidamente metabolizada em psilocina. Os dados dos estudos de ligação ao receptor mostram que a psilocina é o principal componente psicoativo bioativo com base em sua afinidade de ligação no receptor 5-HT2A da serotonina. Ou seja: seu corpo transforma a psilocibina em psilocina para que ela possa ser absorvida e você tenha os efeitos que já conhecemos aqui. 

Os cogumelos mágicos contêm naturalmente apenas um pouquinho de psilocina.

Estruturas moleculares da Baeocistina, Norbeocistina e Psilocibina
Estruturas moleculares da Baeocistina, Norbeocistina e Psilocibina

Baeocistina: o que é e para que serve?

Agora a coisa começa a ficar mais complicada. A baeocistina é um derivado ou análogo da psilocibina – quase como uma prima desconhecida dela. Apesar de normalmente estar presente em quantidades menores (cerca de um terço em relação à psilocibina, em algumas espécies), acredita-se que seu efeito seja fisiologicamente importante para quem consome os cogumelos.

Quanto à farmacologia da baeocistina, pouco ainda se sabe. O conhecimento aceito ao longo dos anos é que a baeocistina é, como descreve Paul Stamets, uma “toxina venenosa mortal”. Mas a verdade é que, de acordo com relatos anedóticos de usuários, ela é apenas mais suave do que a psilocibina. Jochen Gartz, no livro Magic Mushrooms Around the World, o autor Jochen Gartz, conta que 4 mg da substância isolada causou “uma suave experiência alucinógena”.

Stamets, que a gente já citou aqui, contou em uma entrevista que tomou 10 mg de baeocistina e não sentiu nada. 

Mas é bastante raro conseguir a baeocistina pura, o que também dificulta bastante as pesquisas ao redor da substância e deixa tudo no mistério. Uma pesquisa de 2020, no entanto, se aprofundou um pouco mais no composto e expôs que, embora ele não traga efeitos psicodélicos fortes o suficiente para ser comparado à psilocibina, sua ação pode aumentar a concentração de psilocibina no sangue – potencializando seu efeito.

Demais, né?!

Norbeocistina, a misteriosa

Desconhecida por muitos (incluindo cientistas e pesquisadores), a norbeocistina é um derivado e análogo da psilocibina. Ela foi isolada pela primeira vez de um Psilocybe baeocystis por Leung e Paul, em 1968. 

No estudo, extrações com solvente forneceram material enriquecido em derivados de psilocibina. Esses produtos químicos foram posteriormente separados por cromatografia para fornecer frações puras de norbaeocistina, baeocistina e psilocibina. 

Recentemente, pesquisadores demonstraram que a norbaeocistina pode ser um intermediário na biossíntese da psilocibina. Além disso, ela é geralmente considerada não psicodélica – mas não há evidências para apoiar essa crença. Além disso, a ausência de propriedades psicodélicas não exclui seu potencial para usos terapêuticos, por exemplo, na modulação de propriedades de drogas e/ou neurotransmissores endógenos (como a serotonina) sem efeito intoxicante.

Interessante, não é?

Ainda segundo alguns autores, a norbaeocistina pode desempenhar um papel essencial na geração e modulação de efeitos psicodélicos específicos. O estado atual da arte para norbaeocistina (e psilocibina) pode ser melhorado isolando cada uma das moléculas individuais e estudando como elas afetam os receptores celulares (por exemplo, serotonina) isoladamente e em combinação com outras moléculas.

Aeruginascina e onde encontrá-la

A aeruginástica é um dos vários compostos encontrados nos cogumelos. Acreditava-se que ela só estava presente em uma única espécie: os Inocybe aeruginascens. Faz bem pouco tempo que descobriram sua atuação também nos cubensis. Ela raramente é mencionada na literatura científica, fóruns de discussão psicodélica ou mesmo em relatos de experiências justamente por isso. A gente diria que isso torna ela mais única.

A estrutura química da aeruginascina é semelhante à psilocibina, e ambos os compostos são análogos estruturais do neurotransmissor serotonina. O químico alemão Gartz foi o primeiro a isolar a aeruginascina, descobrindo que sua quantidade é bem parecida com a da psilocibina nos Inocybe aeruginascens.

E olha só que doido: do ponto de vista da estrutura química, a aeruginascina é semelhante à baeocistina e à norbaeocistina, e também está intimamente relacionada a um composto das secreções de sapo – a bufotenidina. Isso mesmo: o veneno do sapinho que era (e ainda é) utilizado por muitas culturas nativas por suas propriedades medicinais, terapêuticas e psicodélicas.

Uma das únicas informações na literatura científica sobre os efeitos da aeruginascina é de um estudo de 1989 publicado por Gartz. Ele analisou 23 casos de consumo acidental de cogumelos alucinógenos e notou que as pessoas que ingeriram Inocybe aeruginascens relataram apenas experiências eufóricas. De acordo com o químico, as experiências daqueles que usaram cogumelos sem aeruginascina eram marcadas por um “humor disfórico geralmente leve e em alguns casos profundo” acompanhado de psicose, pânico e ansiedade.

Descobertas sobre a sinergia entre compostos

Atualmente, os cientistas ainda não entendem muito bem como os compostos dos cogumelos mágicos interagem entre si e com os receptores de serotonina no cérebro, particularmente o 5-HT2A. É possível que eles desempenhem um papel bem importante no efeito de comitiva geral!

Ensaios clínicos conduzidos pela COMPASS Pathways estão usando psilocibina pura em terapia assistida por psilocibina para depressão. E, por si só, a psilocibina causa efeitos diferentes dos que causaria na presença dos outros compostos ingeridos ao comer cogumelos mágicos. A evidência disso está nas experiências anedóticas (como aquelas no Erowid e BlueLight) de usuários relatando diferentes efeitos da ingestão de diferentes espécies de cogumelos mágicos. Alguns desses efeitos são considerados bons ou desejáveis, como sentimentos de euforia e visualizações incríveis. Outros resultados são menos desejáveis, como fraqueza muscular e paralisia.

Acreditamos que a terapia assistida com psilocibina poderia melhorar se os pesquisadores tivessem uma melhor compreensão da interação entre todos os componentes dos cogumelos mágicos – e esperamos que os cientistas tenham essa visão também!

E aí, gostaram de saber mais sobre esses seres intrigantes que são os cogumelos alucinógenos? A gente espera poder trazer novidades e mais estudos em breve. Enquanto isso, não esquece de seguir a gente lá no Instagram @girlsingreen710 para mais informações sobre o mundo da maconha, dos cogus e de várias outras substâncias.

Até a próxima!

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