GIRLS IN GREEN

Quer fazer sua própria edição do De Férias da Maconha? Seja qual for o motivo que fez você desejar parar de fumar, para “sempre” ou momentaneamente: aqui, damos alguns insights e estratégias de redução de danos para auxiliar na missão!

Se você é usuário ou usuária de maconha, provavelmente já chegou em algum momento onde passou a refletir sobre o seu uso, riscos, e inclusive possíveis consequências negativas ou positivas atreladas a esse uso. Enquanto para muita gente a plantinha pode ser inofensiva, cada um constrói e vive uma relação diferente com ela, e só nós mesmos para sabermos se é hora de dar um pause. Seja para resetar a tolerância, por conta de altos e baixos no relacionamento com a cannabis ou por qualquer outro motivo: quando se toma essa decisão, precisamos começar a bolar uma estratégia para que o momento não seja de dor & sofrimento.

Também precisamos desmistificar essa ideia de que repensar o uso e se abster por um período de tempo automaticamente fará de você menos pertencente à comunidade canábica. Normalmente, a Redução de Danos é compreendida como a polaridade oposta à abstinência, mas isso é um mito! Se tal fizer parte do projeto terapêutico de qualquer indivíduo, é uma mega estratégia de RD! Afinal, é sobre respeitar as formas de uso e relações do indivíduo com cada substância em todas as suas esferas. Você não ganha XP de maconhista a cada beck fumado! Não tenha vergonha de admitir que uma pausa é necessária.

Para descobrir os melhores meios de tirar essas férias da maconha, você precisa se perguntar: seu uso está fazendo sentido nesse momento? Qual costuma ser o seu padrão de uso? Por quê e como você deseja parar? Com essa transparência consigo mesma/o e autoconsciência, fica muito mais fácil dar o primeiro passo!

Neste post, trouxemos um compilado de dicas e truques (além de muitas experiências pessoais) para te ajudar nessa missão. Vem com a gente!

 Beck sendo aceso em meio às árvores na floresta.
Acendendo um beck na floresta, com piteira longa para reduzir danos!

Pensando seus porquês

Decidir que você deseja mudar seus padrões de uso de cannabis é o primeiro passo para suas férias da maconha. Inclusive, a autoconsciência sobre os motivos pelos quais você deseja parar de fumar pode ajudar a aumentar suas chances de sucesso. Ter a compreensão sobre por que queremos mudar pode validar nossa decisão de quebrar hábitos e nos motivar a buscar novos métodos de enfrentamento.

Resumindo: seus motivos para dar um tempo podem ajudar a fortalecer sua decisão de parar e traçar metas para conseguir cessar o uso de forma mais tranquila!

Talvez você tenha começado a usar a maconha para relaxar ou controlar a ansiedade. Talvez ajude você a lidar com a dor crônica ou a insônia. Mas, com o tempo, alguns desafios podem surgir e levar você a esse ponto de pesar os prós e contras.

As pessoas costumam pensar em reduzir ou pausar o uso quando ele começa a afetar sua vida em alguns aspectos, como:

  • Afetando o humor, a memória ou a concentração;

  • Tornando-se algo para fazer em vez de uma solução para um sintoma específico;

  • Diminuindo a energia para o autocuidado;

  • Gerando desconfortos ou crises de ansiedade;

  • Gerando custos muito altos para sustentar;

  • Se tornando empecilho para conseguir empregos (afinal, vários exigem testes toxicológicos).

Os motivos podem variar, mas entendê-los vai fazer toda a diferença!

Qual o seu padrão de uso?

Depois de identificar qual o(s) motivo(s) da sua pausa, precisamos passar a outro degrau de autoconsciência bastante importante: a identificação dos seus padrões de uso de substância. Aqui, vamos utilizar as definições que o doutor em psicologia da educação e professor da PUC-SP Marcelo Sodelli pontua em seu livro Uso de Drogas e Prevenção. De acordo com ele, existem quatro principais padrões de uso:

  • Uso experimental: pode acontecer por vários motivos, desde a curiosidade até pressão por grupo de amigos e busca de aceitação social.

  • Uso ocasional ou esporádico: já não é mais experimental, pois o usuário conhece os efeitos da substância. Mas seu uso é mais controlado e limitado a contextos específicos, como shows e festas.

  • Uso habitual: já é um uso mais frequente, que pode ser semanal ou até diário. Ele não é mais restrito a situações sociais. Embora possa causar alguns desconfortos, a substância não afasta as pessoas de suas relações e obrigações sociais, como estudos, trabalho e relacionamentos afetivos.

  • “Dependência”: o uso já não está relacionado ao prazer que a substância causa, mas sim ao desprazer que sua falta traz. Ela passa a ser o centro da vida do usuário, que pode se desvincular de relações, estudos, trabalho, prejudicando sua vida cotidiana.

Quando falamos da cannabis, também precisamos lembrar que existe o uso terapêutico e/ou medicinal, que também pode pedir por pausas, tempo para resetar os receptores cannabinoides e diminuir a tolerância! Em muitos desses casos, essa pausa deve ser feita com a orientação de profissionais.

Entender o seu padrão de uso é essencial para definir qual será sua aproximação na hora de fazer a pausa. Enquanto em usos experimentais e esporádicos parar do nada pode ser bem mais tranquilo e gerar poucos ou nenhum desconforto, usuários habituais ou em relação de “dependência” com a substância podem enfrentar vários obstáculos diferentes. O mesmo acontece com quem toma café todos os dias por bastante tempo: tentar tirá-lo da rotina pode causar várias dores de cabeça (literalmente).

Mas precisamos deixar aqui uma observação: não é porque você é um usuário crônico que o uso está te prejudicando, e não é porque você é um usuário esporádico que ele não vai te prejudicar! Acreditamos que é essencial fazer essa identificação para ser mais realista quanto a sua pausa e quanto ao que o seu organismo consegue lidar no momento, mas isso não significa que você, por utilizar a substância constantemente, vai precisar parar se não desejar.

Quem já tomou qualquer tipo de remédio de uso contínuo, principalmente ansiolíticos e antidepressivos, deve saber que o desmame das substâncias é feito de maneira gradual, respeitando o tempo do corpo para se acostumar com essa falta. Por isso, usuários crônicos, sugerimos essa abordagem para quem deseja sentir menos os efeitos da abstinência.

Parafernália, piteiras e dois baseados bolados na mão da Alice
Baseados bolados e várias piteiras sempre com foco na RD!

Abstinência de maconha?

Sim, ela existe!

Nem todo mundo experimenta sintomas de abstinência de cannabis, mas para aqueles que têm, eles podem ser desconfortáveis. A Alice, quando ficou de férias da maconha, descreveu vários sintomas interessantes lá no nosso Instagram.

Os sintomas comuns incluem:

  • Dificuldade em dormir e/ou sonhos muito vívidos;

  • Ansiedade;

  • Irritabilidade e outras mudanças de humor;

  • Dores de cabeça;

  • Pouco apetite.

Os sintomas de abstinência geralmente começam um dia ou mais após você parar e desaparecem em cerca de 2 semanas. Um profissional de saúde pode ajudar a controlar os sintomas graves, mas a maioria das pessoas pode lidar com os sintomas por conta própria:

  • Beber menos cafeína para melhorar o sono;

  • Usar a respiração e outros métodos de relaxamento para lidar com a ansiedade;

  • Beber muita água!

Dicas para parar com sucesso:


Primeira dica: apaga o beck! 

Brincadeiras à parte (ou nem tanto), pausar o uso de maconha não é tão simples quanto aquela simpatia para parar de fumar que sua avó mandou no seu WhatsApp. Separamos algumas sugestões que já nos ajudaram a fazer pausas quando precisamos enfrentar essa jornada.

Esconda seus apetrechos

Deixar seu corre e a parafernália de fumar à vista pode tornar mais difícil ter sucesso com a sua pausa. Passar adiante, pedir para um amigo guardar ou esconder em uma caixinha no fundo do seu armário são ideias para impedir o acesso imediato, o que pode ajudar a evitar escorregões durante o período de abstinência.

Faça um plano para lidar com os gatilhos de uso

Os gatilhos podem ter um impacto poderoso. Mesmo depois de decidir parar de consumir maconha, sinais específicos que você associa ao uso podem levar à fissura. Esses gatilhos podem incluir: dificuldade para dormir, estresse no trabalho, ver amigos com quem você costumava fumar ou até mesmo assistir aos programas de TV que você costumava assistir enquanto estava chapada/o.

Tente criar uma lista de atividades que você pode usar quando esses gatilhos forem acionados, como: tomar melatonina ou um banho quente para ajudá-lo a dormir, maratonar de novo sua série de comédia de TV favorita para diminuir o estresse, ou ligar para um amigo de confiança que apoia sua decisão.

Varie sua rotina

Se o seu uso de cannabis acontecia com frequência em horários de rotina, mudar um pouco seus comportamentos pode ajudá-lo a evitar o uso. Afinal, usar substâncias é uma ocupação, e você terá de criar novos hábitos para preencher essa lacuna, e não deixá-la em aberto.

Se você tem o hábito de fumar logo pela manhã, experimente criar novos rituais para o momento, como meditar, dar um passeio ou tomar café da manhã fora de casa.

Se você tende a fumar antes de dormir, tente ler, escrever em um diário, beber uma bebida relaxante, como chá ou chocolate quente.

Lembre-se de que mudar as rotinas pode ser difícil e geralmente não acontece da noite para o dia. Geralmente, nosso cérebro leva 14 dias para entender que estamos criando um hábito, e até 21 para consolidá-lo.

Experimente algumas opções e não se culpe se tiver problemas para seguir sua nova rotina imediatamente.

Mulher meditando na natureza, com filtro colorido
Praticar a meditação pode ser de grande ajuda para parar ou diminuir seu consumo

Escolha um novo hobby ou passatempo

Se fumar é algo que você costuma fazer quando está entediado, alguns novos hobbies podem ajudar. Considere revisitar os antigos favoritos, como fazer artesanato, desenhar ou pintar. Se velhos hobbies não interessam mais, tente algo novo, como começar a praticar um esporte ou aprender um novo idioma.

Vamos de terapia, bb?

A terapia pode ser uma ótima opção quando você deseja desenvolver novos hábitos e mecanismos de enfrentamento. Já que é comum recorrer ao uso de substâncias para enfrentar ou evitar sentimentos difíceis, um terapeuta pode ajudar a explorar quaisquer questões subjacentes que contribuam para o seu uso de cannabis e oferecer apoio enquanto você dá os primeiros passos para enfrentar as emoções sombrias.

Eles também podem ajudá-lo a resolver quaisquer problemas em sua vida ou relacionamentos que possam ser resultado do uso de cannabis. Qualquer tipo de terapia pode ter benefícios!

Use maconha… de outras formas

Sabe quem pode ser um ótimo companheiro na hora de parar de consumir cannabis? Isso mesmo, ele, o todo poderoso óleo de CBD full spectrum. Ele pode ajudar a manter seu sono e sua ansiedade numa boa enquanto você faz a sua pausa. Consumido por via oral, ele também é menos nocivo que o ato de fumar e oferece inúmeros benefícios terapêuticos, como já contamos aqui no blog.

Alice mordendo um chocolate com maconha
Edibles ou o bom e velho chocolate com maconha

E não é só o óleo que pode ser uma boa parceria para esses momentos. Pesquisadores australianos testaram o nabiximol – um spray aplicado embaixo da língua que contém 2,7 mg de THC (tetrahidrocanabinol) e 2,5 mg de CBD (canabidiol) – em 128 homens e mulheres “dependentes” de maconha, com idade média de 35 anos, que buscavam ajuda para reduzir o consumo. Eles foram divididos entre o grupo placebo e o que tomava o medicamento de verdade, com até 32 borrifadas permitidas ao dia – na média, foram 18. No fim do trabalho, o grupo que usou o spray com nabiximol teve menos recaídas e relatou fumar recreativamente em 41% dos dias. Já o pessoal que recebeu o placebo acendeu um baseado em 63% dos dias.

Já pensou em microdosagem de cogumelos?

A psilocibina, como já contamos por aqui, pode ajudar a largar alguns “vícios”, como o tabaco, o álcool e – pasme – a maconha. É isso mesmo! Em um estudo de 2017 analisando o uso do tabaco, ela produziu resultados impressionantes que ultrapassam de longe qualquer opção de tratamento convencional. Aos 12 meses após a experiência, 67% dos participantes estavam livres do fumo. A substância, em 2015, também foi eficaz ao tratar um grupo de indivíduos com problemas relacionados ao consumo de álcool. Como a amostragem foi pequena, existem estudos em andamento para apurar melhor essa relação. Então, que tal estudar seu caso e entender se a microdosagem pode ser benéfica?

Acima de tudo, paciência, jovem padawan. Todo mundo já precisou parar de fazer algo que ama por um tempo – e nada é necessariamente para sempre. Você pode usar suas férias da maconha para repensar seu uso e encontrar novas formas de fazê-lo, até mesmo mais alinhadas com a Redução de Danos. Dar um tempo, refletir e seguir em frente é uma das regras da vida, e não é diferente quando falamos da nossa amada plantinha.

E você, conte sua experiência pra gente:
já tentou fazer uma pausa no seu uso de maconha?
Como foi? Deixe seu relato aqui nos comentários e não esqueça de seguir a gente lá no Instagram @girlsingreen710.

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Ana
Ana
11 meses atrás

Que post fantástico! Quanta lucidez! É muito diferente aprender com alguém que entende a importância de parar, seja por um tempo, seja para sempre MAS SABE O QUE ESTÁ FALANDO. A maioria dos posts sobre o assunto demoniza a substância, fala em internação…. é patético! Muito obrigada pelo serviço prestado à comunidade!