Cultura

Como fazer haxixe: Da teoria à prática no curso do ice ao hash rosin

Fazer haxixe é uma arte que envolve diferentes saberes. Para mostrar tudo isso, o Girls in Green organizou a oficina do Ice ao Hash Rosin com parceiros incríveis. Vem saber mais!

Em um contexto proibicionista, as oportunidades de trocar conhecimentos — não apenas teóricos, mas práticos — sobre o universo da maconha e das extrações pode ser uma experiência extremamente desafiadora. Por isso, unimos forças com um time de pessoas e empresas incríveis para realizar oficinas presenciais. De todo nosso amor pela planta, nasceu o curso Do Ice ao Hash Rosin, uma iniciativa que busca capacitar hash makers brasileiras para fazer sua própria medicina em casa.

Quem conhece nosso projeto, sabe que são quatro anos de muita luta pela disseminação de conteúdo de qualidade, de forma gratuita, pela internet. E foi todo esse aprendizado que possibilitou a realização dessa oficina, que mostra como transformar matéria vegetal de qualidade, vindas de cultivo com Habeas Corpus, associações e até mesmo desobediência civil, em uma medicina pura e mágica.

Caminhando para a terceira edição na cidade de São Paulo, o curso Do Ice ao Hash Rosin une coletivos e empresas, como a Overgrow, a associação Accura, a Puffco, a CrocBuds, a Growplant, a Puff Life e a Squadafum — parceiros e patrocinadores do segundo e terceiro encontros. A experiência oferece ao público, que inclui pacientes medicinais e tutores, dois dias de imersão com nossa hash maker, psicóloga, redutora de danos e criadora do Girls in Green, Alice Reis.

Quer entender melhor o que acontece neste rolê? Vem com a gente!

Uma breve história do haxixe

Uma das primeiras temáticas abordadas na oficina é a história do haxixe, e sobre como ela é intrínseca à história da humanidade. Acredita-se que a primeira aproximação com a maconha tenha acontecido nesse contexto do surgimento da agricultura, com a coleta de sementes. Depois, os povos foram descobrindo o uso da fibra, do óleo e de outros insumos relacionados às plantas. 

A cannabis, segundo fontes como Frenchy Cannoli, foi uma das primeiras plantas a serem domesticadas, há cerca de 50 mil anos. Essa relação íntima do desenvolvimento dos seres humanos e da cannabis é refletida no nosso sistema endocanabinoide e na nossa capacidade de produzir canabinoides endógenos.

Mas são vários os mistérios e as incertezas sobre a origem da cannabis e dos primeiros feitios de hashish. Na região da Hindu Kush, temos a mais antiga tradição de fazer haxixe. Além disso, Frenchy Cannoli afirma que o primeiro contato com a resina do haxixe prensada foi queimando-a como incenso. Assim, a psicoatividade passou a ser mais uma forma de contato da humanidade com essa planta. 

Tudo começa no cultivo

Imagem macro da maconha seca da associação Accura
Matéria seca da associação Accura.  Imagem: Anandamidia

Depois, é abordada a importância do cultivo — e do fazendeiro — em todo o processo. O concentrado sem solvente é uma das mais puras e verdadeiras expressões da maconha. Então, não é um exagero quando falamos que, para ter uma medicina de qualidade, precisamos ter certeza de que nosso material está impecável.

Alguns dos principais pontos de atenção são:

Esse último item é pra lá de importante. Afinal, como já falamos aqui no blog, os tricomas são essencialmente o seu haxixe. Entender seu desenvolvimento e a síntese de canabinoides e terpenos é algo que pode transformar todo o seu trabalho — de forma positiva ou negativa. 

Os cuidados com a colheita, com o armazenamento e a cura, quando ela é realizada, também são muito importantes para um hash maker. A cura, por exemplo, pode alterar a composição da matéria vegetal através de um processo chamado oxidação. O THC, ao ser exposto ao oxigênio por algum tempo, se degrada e se transforma em CBN, um canabinoide de ação completamente diferente. Isso também faz o concentrado ficar mais escuro, o que não significa perda de qualidade!

Por isso, é importante saber o que você deseja do resultado para entender quais processos valem a pena na fabricação do seu concentrado.

Da planta à medicina

Imagem macro da maconha imersa em água gelada e muito gelo
Matéria seca sendo hidratada.  Imagem: Anandamidia

Após compreender todas as variáveis relacionadas ao cultivo, passamos aos processos práticos do ice water hash (também conhecido como bubble hash). Utilizando apenas água, gelo, matéria vegetal e bolsas de filtragem, podemos fazer a separação dos tão maravilhosos tricomas — que concentram canabinoides, terpenos, terpenoides, flavonoides e praticamente toda a magia da maconha.

Alice, Felipe e Jorge despejando o conteúdo do balde nas bolsas de filtragem
Processo de filtragem do Ice water hash. Imagem: Anandamidia

Um processo de qualidade depende de alguns fatores chave, como:

  • A temperatura;
  • A qualidade do material;
  • O tempo das lavagens;
  • A agitação;
  • A secagem.
Imagem macro dos tricomas filtrados na bolsa de filtragem
Tricomas filtrados na bolsa. Imagem: Anandamidia

Trabalhar com temperaturas mais baixas é o que facilita o congelamento e a separação dos tricomas do resto da matéria vegetal, que é considerada um contaminante. Por isso, é necessário unir precisão e delicadeza: o cuidado para não macerar a planta com o gelo é o que garante um haxixe limpo, sem contaminantes — como a clorofila — que diminuem a qualidade do resultado.

Depois de fazer o bubble hash, podemos transformá-lo em rosin. Para isso, é realizada uma segunda filtragem — dessa vez, utilizando prensas que aplicam pressão e temperatura para “quebrar” a membrana do tricoma e extrair seu óleo. Quando bem feita, essa prensagem dá origem a um produto de ótima qualidade, com sabores e efeitos bem preservados.

Imagem macro do Rosin recém prensado no papel manteiga
Rosin recém prensado . Imagem: Anandamidia

O rosin ainda pode ser transformado em badder, em uma terceira técnica especial. Com um pouco de calor ou cura fria, esperamos a separação da camada de terpenos de uma amostra e a reincorporamos, batendo como se fosse chantilly. Além de uma textura linda, o produto ainda fica mais estável, facilitando sua conservação mesmo em ambientes mais quentes. Ou seja: ótima ideia para a realidade do Brasil.

Mão com luva de látex, segurando o rosin recém prensado em um papel manteiga
Rosin. Imagem: Anandamidia

Tudo é adaptável!

Um dos maiores ensinamentos do curso é que um hash maker não precisa de um investimento milionário em equipamentos para produzir uma medicina rica em benefícios. Nossa realidade é muito diferente da que vemos no mercado legal, onde os produtores contam com cold rooms com temperaturas extremamente baixas, freeze dryers para a sublimação da água presente nas amostras de ice, e máquinas para fazer haxixe em escala industrial.

Sim, isso facilita tudo! Mas a falta disso não impossibilita ninguém de ter resultados mais do que positivos.

Por exemplo:

  • Lavar sua matéria no inverno ou na hora mais fria do dia, com a ajuda de um ar condicionado portátil, pode driblar o problema do calor;
  • Colocar seus equipamentos, como colheres de coleta e bandejas, no freezer antes de começar a lavar também pode ajudar a manter a integridade dos tricomas;
  • Lavar à mão, com baldes e colheres ou até mesmo remos (como faz a Alice), é uma opção totalmente viável;
  • Até mesmo sua geladeira frost free pode ajudar na secagem do haxixe, ou caixas de pizza.

Às vezes, o que salva é a gambiarra — e é isto!

Autonomia também é Redução de Danos

Enquanto tantos brasileiros e brasileiras não possuem acesso à produtos à base de maconha, ter a autonomia na produção de seus próprios remédios também reduz danos. Dessa forma, é possível garantir a independência tanto do mercado irregular, onde é impossível garantir a qualidade dos produtos, e também da burocracia e dos preços abusivos da importação.

Acreditamos que, acima de tudo, espalhar essa sementinha pode ser importante não apenas para o público em geral, que se interessa no assunto, poder experimentar, se capacitar e disseminar o conhecimento. 

Garantir o acesso a associações, pacientes e seus familiares é dar uma ferramenta potente a quem necessita. Por isso, o curso também conta, em cada edição, com vagas sociais.

E aí, curtiu saber um pouco mais do que acontece nas nossas oficinas presenciais? Nós adoramos essa oportunidade de espalhar uma cultura tão rica e cheia de detalhes, mas demonizada por tantos. Nosso maior desejo é que, com a regulamentação, seja possível expandir esses espaços de trocas valiosas — tanto com o público quanto com tantos parceiros especiais que apoiam esse trabalho.

Quer saber mais sobre a terceira edição? Aqui, temos todas as informações sobre ela.

Não esquece de seguir a gente lá no Instagram @girlsingreen710! Caso não possa participar da oficina, também lembramos que temos aqui no blog uma extensa coleção de artigos. São mais de 400 posts, sobre haxixe, Redução de Danos, Política de Drogas e diversas outras temáticas desse universo tão rico.

Até a próxima!

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