Cultura

A importância da ciência brasileira no mundo da cannabis

Hoje vamos falar um pouquinho sobre como estão os estudos científicos sobre Cannabis no Brasil e como eles repercutem mundialmente. O antiproibicionismo também é uma luta da ciência, para maior compreensão sobre os efeitos da cannabis no corpo humano!

O Brasil é um país com grandes pesquisadores e excelentes universidades. As universidades federais são responsáveis por grande parte das pesquisas e, apesar das falhas na área da educação, é através do ensino que ocorre uma grande mobilidade social no país. A gente tem uma mania de achar que a grama do vizinho é mais verde, né? Mas hoje nós vamos falar sobre como as pesquisas brasileiras têm valor mundial! E, quando se trata de maconha, muitas descobertas de peso foram feitas aqui, no nosso quintal.

Quer saber quem são os principais pesquisadores brasileiros e o que está sendo investigado no Brasil? Vem com a gente que vamos contar tudo!

Descobertas da cannabis medicinal

Na Antiguidade, diversas etnias na Ásia, Oriente Médio e África usavam a cannabis, nossa plantinha querida, como medicamento para as mais diversas condições. Analisando registros da época, percebemos que já havia indicação para o uso da maconha para aliviar o estresse, dores generalizadas e até convulsões. Ainda no século 19, o uso da cannabis medicinal se popularizou também na Europa. Na França, circulavam cigarros à base de cannabis chamados Grimault. Numa realidade como tal, proibição parece um universo paralelo, não é mesmo?

Em 1889, o PhD. EA Birch publicou na revista the Lancet um artigo que defendia a aplicação da Cannabis Sativa L. para o tratamento com dependentes ao ópio. Nesse momento, os estudos relacionados a terapias de substituição estavam começando. Hoje, já existem teses comprovadas que a maconha reduz o desejo do uso de opioides e outras drogas, pois funciona como um antiemético.

O século 20 foi marcado por convenções proibicionistas e ações para reprimir o uso e pesquisas relacionadas à cannabis. Alguns países, como Estados Unidos, Egito e também o Brasil, tomaram frente na defesa da guerra às drogas. Em 1961, algumas das substâncias que alteram o sistema nervoso central, inclusive a Cannabis, foram consideradas pela OMS drogas perigosas e sem nenhuma funcionalidade terapêutica.

Em 1942, o químico americano Roger Adams isolou o CBD pela primeira vez. Adams extraiu o cannabidiol a partir do etanol e depois passou a substância pela destilação sob pressão diminuída, isolando o CBD da mistura de constituintes.

Já o THC foi isolado em 1964. O químico israelense Raphael Mechoulam conseguiu descobrir e isolar o tetrahidrocanabinol. Foi uma descoberta acidental, pois na época era proibido qualquer pesquisa que envolvesse cannabis. Porém, a curiosidade e a vontade de descobrir mais sobre os efeitos da planta motivaram Mechoulam e outros cientistas a continuarem com os estudos. Continuar pesquisando uma substância proibida pode ser considerado desobediência civil, mas essa desobediência faz parte da história da cannabis desde do começo do proibicionismo.

A princípio, Mechoulam supôs que o THC fosse o princípio ativo da maconha responsável pelos efeitos que ela causa. Depois de muito estudo do israelense e de outros cientistas do mundo, hoje sabemos que é muito mais que isso! O THC não é o único canabinoide – existem mais de 400 canabinóides interagindo diretamente com o sistema endocanabinoide.

O Brasil também tem um papel muito importante nas pesquisas com essa planta especial, que tanto trazemos aqui, e seus canabinoides. O psiquiatra e pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Antonio Waldo Zuardi, foi o primeiro do mundo a demonstrar os efeitos calmantes e anti psicóticos do CBD. O primeiro extrato de canabidiol desenvolvido no Brasil também surgiu de pesquisas entre a FMRP e a USP.

O Prof. Dr. Elisaldo Carlini, da UNIFESP, publicou no J ClinPharmacol em 1981 um estudo sobre os efeitos benéficos do CBD para crises convulsivas. O brasileiro também foi pioneiro nas pesquisas sobre o tema.

Foi no início do século 21 que o sistema endocanabinoide começou a ser compreendido pela ciência. Os pesquisadores descobriram canabinóides internos, produzidos pelo próprio corpo humano, anandamida (N-araquidoniletanolamida) e 2-araquidonilglicerol (2-AG), e também receptores desses canabinóides, batizados de CB1 e CB2.

Uma vez que se tornou conhecimento que existe um sistema endocanabinoide, que está diretamente ligado com o sistema nervoso e com receptores que se conectam com os canabinoides, surgem hipóteses sobre o potencial de modular essas conexões cerebrais para curar doenças, e é nesse caminho que estão indo as pesquisas na atualidade.

Planta de maconha com céu azul ao fundo
Planta de maconha

Principais pesquisadores brasileiros

Em 2020, o MEC anunciou cerca de R$ 200 milhões em investimentos à universidades federais para serem aplicados em melhoria de infraestrutura e tecnologia. Por outro lado, as regras de concessão de bolsas Capes para pesquisa de mestrado e doutorado foram alteradas e, com isso, estima-se que 25% dos pesquisadores contemplados perderam a bolsa.

Entre falhas, negligências e acertos do Governo Federal, temos que admitir que infelizmente a educação no Brasil ainda não é inclusiva. Porém, isso não quer dizer que ela não seja de qualidade. A USP é a terceira melhor universidade da América Latina e tem pesquisadores renomados em todas as áreas e com as pesquisas relacionadas a maconha não seria diferente. Vamos falar um pouquinho sobre alguns pesquisadores brasileiros de muito impacto mundial!

Antonio Zuardi é graduado em Ciências Biológicas, Modalidade Médica e Medicina. Se tornou doutor em Psicobiologia pela Escola Paulista de Medicina em 1980 e professor Livre-Docente em Psiquiatria em 1987 pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Zuardi pesquisa sobre o potencial terapêutico de derivados da Cannabis sativa; instrumentos de avaliação em Psiquiatria; ansiedade; esquizofrenia; avaliação de serviços de atenção em saúde mental e psicofarmacologia clínica.

Elisaldo Carlini é formado em Medicina pela UNIFESP e mestre em Psicofarmacologia pela Yale. Carlini é o criador do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime). O médico está no sétimo mandato como membro do Expert Advisory Panel on Drug Dependence and Alcohol Problems, da OMS. Ele também não é favorável a nenhum uso de droga de forma recreativa, inclusive da maconha, porém ele compara que proibir o uso da cannabis medicinal seria o mesmo que proibir o uso de morfina para pacientes com muita dor. Ambas são substâncias que alteram o sistema nervoso central, mas que podem melhorar a qualidade de vida de pacientes com diferentes enfermidades.

Sâmia Joca é outro nome muito importante para as pesquisas relacionadas a cannabis no Brasil. Graduada em Farmácia-bioquímica pela UFPR e doutora em farmacologia pela USP, atualmente é livre-docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP e pesquisa sobre os mecanismos de ação de antidepressivos; neurobiologia da resposta ao estresse; canabinoides; neuro imunofarmacologia; neuroplasticidade e epigenética.

Francisco Guimarães possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é doutor em Farmacologia pela USP. Hoje é professor titular da FMRP e suas pesquisas têm ênfase em Neuropsicofarmacologia, principalmente nos temas de óxido nítrico; ansiedade; glutamato; serotonina; canabinoides e estresse.

Alline Campos é graduada em Farmácia pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutora em Ciências Biológicas e Farmacologia pela USP, realizando parte dos seus estudos na Universidade Complutense de Madri. Alline também fez estágios de pós- doutorado em
diferentes universidades no Brasil e na Europa. Atualmente, é professora doutora do Departamento de Farmacologia da FMRP, onde desenvolve pesquisas na área de Neuropsicofarmacologia focada no estudo dos eventos plásticos do Sistema Nervoso Central nos mecanismos de ação de psicofármacos. Uma das publicações da pesquisadora éBiological bases for a possible effect of cannabidiol in Parkinson’s disease

Isaac Karniol é médico, doutor em Ciências pela Escola Paulista de Medicina com a tese “Efeitos de amostras de Cannabis sativa, delta-8 e delta-9 transtetraludrocannabinol no homem e animais de laboratório”, pós doutor pelas universidades de Copenhague e Londres e livre-docente em Psiquiatria Clínica é outro ícone da ciência brasileira. Hoje, Isaac é professor titular do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.

Sidarta Ribeiro é um dos nomes mais ativos da ciência brasileira no mundo da cannabis. Professor Titular de Neurociências e Vice-Diretor do Instituto do Cérebro na UFRN é bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília, mestre em Biofísica pela UFRJ, doutor em Comportamento Animal pela Universidade Rockefeller com Pós-Doutorado em Neurofisiologia pela Universidade Duke. Suas pesquisas são amplas e muito além do tema de política de drogas. Sidarta Ribeiro estuda neurobiologia molecular e neurofisiologia de sistema; sono, sonho e memória; plasticidade neuronal; comunicação vocal; competência simbólica em animais não-humanos; psiquiatria computacional; neuroeducação e faz uma ponte entre essas áreas com psicodélico. Sidarta também é investigador associado sênior do Centro FAPESP de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática, membro-coordenador científico do Conselho Consultivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos e do Instituto Chacruna de Medicamentos de Plantas Psicodélicas e por fim, terceiro-secretário da Sociedade Brasileira para o Progresso e Ciência (SBPC). Como podemos imaginar, Sidarta Ribeiro está por trás de muitas pesquisas que estão sendo feitas no Brasil.

Dartiu Xavier também é muito conhecido entre os estudantes e entusiastas dos temas canábicos. Médico e doutor em Psiquiatria pela UNIFESP, foi consultor do Ministério da Saúde e da Secretaria Nacional de Drogas, membro da American Psychiatry Association, da International Association for Analytical Psychology, além de pesquisador- colaborador da Universidade da Califórnia (UCLA). Além disso foi presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica e da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Álcool e Drogas (ABRAMD). Atualmente Dartiu atua como médico psiquiatra em consultório particular e é professor livre-docente da UNIFESP, pesquisando principalmente dependência de álcool e drogas; Redução de Danos; depressão; psicometria; neurobiologia; revisão sistemática e metanálise.

Renato Filev é pesquisador, tem seu Pós-Doutorado no Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da UNIFESP realizado através do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes – PROAD. Atualmente, o pesquisador trabalha como pesquisador convidado no Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID. Renato tem seu foco na Neurociência e a cannabis. Também é membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), e Grupo Maconhabras.

Andrea Gallassi é bacharel em Terapia Ocupacional pela PUCCAMP, mestre e doutora pela USP e pós-doutora pelo Centro de Dependência Química e Saúde Mental pela Universidade de Toronto. Participou da Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas, foi consultora técnica da Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras drogas. Atualmente é professora da Universidade de Brasília e coordenadora-geral do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da UnB. Andrea Gallassi tem mais de 20 artigos científicos publicados em revistas indexadas nacionais e internacionais que debatem sobre o tema álcool e outras drogas.

Luisa Saad é um grande nome quando se trata de pesquisas relacionadas à história da cannabis. Saad é aluna especial do doutorado em História Social da USP e possui mestrado no mesmo tema pela UFBA. Ela pesquisou o processo de criminalização da maconha no pós-abolição, aproximando-se de temas como racismo científico; religiões afrobrasileiras; abolicionismo e cultura. É autora do livro “Fumo de Negro: a criminalização da maconha no Brasil” e integrante da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas.

Com a área diversa de pesquisas em relação à cannabis, fica evidente que esses estudos não beneficiam apenas o contexto da ciência médica. A  cannabis, a história e a antropologia também são áreas de pesquisa muito importantes, pois nos ajudam a entender o papel social da maconha em um período pré-proibicionista e também certas motivações ao proibicionismo.

Bud de maconha em foto macro com fundo cinza
Bud de maconha

Principais pesquisas feitas no Brasil

Com uma extensa lista de bons pesquisadores brasileiros dentro do tema canábico, fica difícil selecionar quais são as principais pesquisas na área. Então, vamos comentar duas pesquisas atuais e muito inovadoras.

A primeira é uma pesquisa de um grupo coordenado pelo Professor Renato Malcher, neurocientista da UnB e colaborador da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME), publicada em 2017 na revista Frontiers in Neurology. Essa pesquisa constatou que os canabinoides ajudam no tratamento do autismo. Durante nove meses, os pesquisadores acompanharam os efeitos do uso do extrato de CBD em 18 pacientes autistas, entre 6 e 17 anos. O medicamento foi importado dos Estados Unidos com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e continha proporcionalmente 75 partes de CBD para uma de THC.

Do grupo de 18 pacientes, 14 (cerca de 78%) apresentaram melhoras nos principais sintomas relacionados ao autismo e na interação social, o que permitiu para alguns ter ganhos cognitivos. Nove pacientes tiveram impactos positivos de mais de 30% em ao menos um traço do transtorno, enquanto seis apresentaram o mesmo percentual de melhora em duas categorias ou mais. Essa pesquisa trouxe esperança a muitas famílias e também é mais um argumento para a luta antiproibicionista.

Outro estudo realizado na FMRP e coordenado pela Alline Campos analisa medicamentos utilizados no tratamento de depressão e ansiedade. O estudo, que buscava entender o efeito dos receptores encontrados no sistema endocanabinoide e do CBD, foi um dos dez vencedores do prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência em 2015.

Alline concluiu que os remédios à base de cannabis podem ter efeitos mais imediatos que os antidepressivos comuns que têm um tempo de latência, muitas vezes longo. A pesquisadora também afirma que os efeitos colaterais do CBD são menores que os dos antidepressivos.

O sistema endocanabinoide ainda é um grande mistério: médicos, psiquiatras, neurocientistas e neurologistas sabem muito pouco sobre todos os potenciais e poderes desse sistema. Talvez um dia seja possível conseguirmos chegar à cura de todas as doenças moduladas nesta área do cérebro.

Esperamos que a ciência consiga vencer o preconceito gerado em torno da cannabis. Infelizmente, o estigma em torno das drogas no geral faz com que muitas pessoas virem as costas para o potencial terapêutico e mediconal da cannabis. É estranho pensar que o estigma vira uma lente na relação da população  com a ciência, não é mesmo? As políticas proibicionistas contribuem para essa visão negativa em torno da maconha. Ao mesmo tempo que políticas são construídas a partir dessa visão. São inúmeros os obstáculos, por exemplo, para fazer pesquisas com cannabis – seja a logística do acesso à substância como também criam uma burocracia em torno das pesquisas, onde os cientistas precisam de muitas autorizações para conseguir trabalhar e a logística para ter acesso às substâncias dentro das universidades é muito complicada! Abrir espaço para mais pesquisas com cannabis e outras substâncias é fundamental para que estudos em maior escala e em melhor qualidade sejam feitos.

Atualmente, o Governo Federal está em guerra com as federais. Como já vimos, muitas bolsas foram cortadas e os estudantes percebem um sucateamento das universidades. Entretanto, a resistência existe, e os pesquisadores estão se adaptando para continuar com seus trabalhos mesmos sem tanto incentivo federal.

FONTES:

https://maryjuana.com.br/2020/07/usp-tem-a-maior-producao-cientifica-mundial-sobre-canabidiol/

https://jornal.usp.br/ciencias/canabidiol-desenvolvido-na-usp-chega-as-farmacias/

https://www.gov.br/pt-br/noticias/educacao-e-pesquisa/2020/07/mec-anuncia-repasse-de-quase-r-200-milhoes-a-universidades-federais

https://amame.org.br/historia-da-cannabis-medicinal/

http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2017/04/estudo-da-usp-sobre-o-uso-de-maconha-como-antidepressivo-ganha-premio-internacional/

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