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O uso da cannabis em pacientes de diferentes tipos de câncer foi um dos fatos precursores do uso terapêutico da substância no mundo. Vamos entender mais sobre isso? Vem com a gente!

Quando pesquisamos um pouco sobre a cannabis, descobrimos que os seus usos medicinais e terapêuticos ocorrem desde a antiguidade, nas mais diversas civilizações orientais e ocidentais. Com o proibicionismo, essas práticas se perderam – mas estão, pouco a pouco, sendo resgatadas por pesquisadores e médicos do mundo todo. Já temos listas extensas de distúrbios e sintomas cuja cannabis está dentre os possíveis tratamentos: epilepsia, glaucoma, depressão, e até o câncer, o qual vamos explorar hoje!

Acreditamos que não existe um tópico melhor para iniciarmos essa série sobre cannabis terapêutica. Afinal, o câncer foi a doença que abriu as portas para a erva dentro da medicina contemporânea. 

Além disso, sabemos o quanto é importante falarmos sobre o assunto. Existem muitos tipos diferentes de câncer, e, atualmente, é quase impossível conhecer alguém que não tenha familiares e/ou amigos que sofreram ou sofrem com essa condição. Encontrar formas adequadas de tratamento e formas de amenizar a dor causada é uma das maiores missões da oncologia na atualidade.

Estamos lançando essa série sobre cannabis terapêutica e medicinal para espalhar as informações que já estão em pesquisas e estudos realizados ao redor do planeta. Sabemos que o proibicionismo gerou muita propaganda negativa em cima da substância, e o preconceito existe também dentro da comunidade médica. Esse e os próximos textos irão trazer dados científicos para que tanto pacientes como amigos, familiares e até mesmo futuros profissionais da saúde possam se abrir para uma possibilidade de enxergar a cannabis como uma estratégia terapêutica para inúmeras condições.

Aqui, vamos resgatar um pouco da história da cannabis no tratamento de câncer, quais os seus principais efeitos para pacientes em diferentes estágios da doença e como as pesquisas nesse campo têm avançado nos últimos anos. Vamos descobrir tudo isso? Vem com a gente!

Aviso importante: toda possibilidade de uso da cannabis como medicamento deve ser analisada por um especialista que acompanha o histórico de cada paciente. Esse post não é uma recomendação para a automedicação com a cannabis de qualquer forma. Caso acredite que ela pode beneficiar seu quadro, converse com seu médico.

Plantação de cannabis outdoor, pinheiros e céu azul ao fundo
Plantação de cannabis outdoor

O que é câncer?

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer é um conjunto de mais de cem doenças, que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos, formando tumores. Como se dividem rapidamente, de forma agressiva e incontrolável, elas podem espalhar-se para outras regiões do corpo.

Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células presentes no nosso organismo. Quando começam em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, são denominados carcinomas. Se o ponto de partida são os tecidos conjuntivos, como osso, músculo ou cartilagem, são chamados sarcomas. Outras características que diferenciam tipos de câncer entre si são a velocidade de multiplicação das células e a capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes, conhecida como metástase.

A doença é uma velha conhecida de praticamente todos nós. Nem nossos ídolos conseguem escapar – David Bowie, Alan Rickman, e, mais recentemente, Chadwick Boseman. Segundo o Inca, só no Brasil, são estimados mais de 600 mil casos novos em 2020. Assim como muitos outros distúrbios, o método mais efetivo de lidar com ele é a prevenção, mas existem diferentes tratamentos para cada caso apresentado, em seus diferentes estágios.

A cannabis terapêutica nos tratamentos

Nós já sabemos do potencial terapêutico da cannabis em vários casos, como já mostramos por aqui. Quando falamos do câncer, existem as mais diversas pesquisas buscando descobrir o poder dos canabinoides na luta contra a doença. A planta e as preparações derivadas dela podem fornecer alívio dos sintomas relacionados ao câncer, como dores, náusea e inflamação. Algumas pesquisas até mostraram que alguns compostos de cannabis podem retardar o crescimento do câncer e diminuir os tumores.

Segundo pesquisas, os nossos receptores endocanabinoides (CB1) estão localizados em várias estruturas importantes para a dor no cérebro, como o cinza periaquedutal, o núcleo do trigêmeo espinhal, a amígdala e os gânglios da base. Tanto eles quanto os receptores CB2, fora do sistema nervoso central, estão ligados a supressão da dor. É importante ressaltar que outros canabinoides além do THC também contribuem para as propriedades analgésicas da cannabis – por isso, os medicamentos full-spectrum sempre são mais adequados.

Quanto à náusea, são realizados testes desde os anos 80 sobre as propriedades da cannabis contra esse sintoma – relatado principalmente durante a quimioterapia. Segundo o British Medical Journal, a cannabis se mostrou mais eficaz do que seis outros antieméticos testados, também capaz de controlar o vômito. Os efeitos colaterais mais comuns encontrados foram a pressão baixa, a ansiedade e a euforia.

As inflamações também são reduzidas com o uso da cannabis, de acordo com estudos. O fato de os receptores CB1 e CB2 terem sido encontrados nas células imunológicas sugere que os canabinóides desempenham um papel importante na regulação do sistema imunológico. Vários estudos mostraram que os canabinóides regulam as células T regulatórias (Tregs) como um mecanismo para suprimir as respostas inflamatórias. O sistema endocanabinoide também está envolvido na imunorregulação. Por exemplo, a administração de endocanabinoides ou o uso de inibidores de enzimas que decompõem os endocanabinoides levou à imunossupressão e recuperação de lesões imunomediadas em órgãos como o fígado.

E, embora seja um grande mito que a cannabis possa definitivamente agir para curar o câncer, ela já é investigada como forma de diminuir tumores. Em estudos, THC e outros canabinoides provaram inibir o crescimento tumoral e a angiogênese em modelos animais. O tetrahidrocanabinol ainda inibiu a proliferação de células tumorais in vitro e diminuiu a imunomarcação de células tumorais quando administrado a pacientes. Os canabinoides ainda se mostraram aliados à quimioterapia, diminuindo as células cancerígenas em pacientes com leucemia.

Mão segurando Óleo de CBD e folha se maconha
Óleo de CBD

Em quais fases do tratamento ela é indicada?

O mais indicado, sempre, é ter a recomendação médica e manter um diálogo aberto com os especialistas que estão cuidando do paciente. A verdade é que, com as propriedades descritas acima, a substância pode se encaixar nas mais diversas fases do câncer – desde o seu descobrimento no corpo, para apaziguar a ansiedade; no alívio das náuseas e sintomas adversos causados pela quimioterapia; e até mesmo para diminuir as dores em estágios terminais.

A cannabis pode ser uma boa alternativa para pacientes que já não conseguirão a cura. Segundo a Organização Mundial de Saúde, os cuidados paliativos são “uma abordagem que melhora a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares frente aos problemas associados a doenças potencialmente fatais, por meio da prevenção e alívio do sofrimento por meio da identificação precoce e avaliação impecável e tratamento da dor e outros problemas, físicos, psicossociais e espirituais”. Nesse contexto, a cannabis ajuda a melhorar a qualidade de vida, elevando o humor em momentos críticos e ajudando psicologicamente a enfrentar os tempos difíceis que virão.

Desde 2007, o Ministério da Saúde de Israel aprovou a cannabis medicinal para cuidados paliativos em pacientes com câncer. Isso levou a um estudo prospectivo que analisou a segurança e eficácia da cannabis em 2.970 pacientes e as respostas foram extremamente positivas:

  • Noventa e seis por cento dos pacientes que responderam no acompanhamento de 6 meses relataram uma melhora em sua condição, 3,7% relataram nenhuma mudança e 0,3% relataram deterioração em sua condição médica.

  • Enquanto apenas 18,7% dos pacientes se descreveram como tendo boa qualidade de vida antes do tratamento com cannabis, 69,5% o fizeram seis meses depois.

  • Pouco mais de um terço dos pacientes pararam de usar analgésicos opióides.

Mais à frente, também vamos falar sobre o uso de psicodélicos em pacientes terminais.

Bud de maconha
Bud de maconha

Mas como conseguir a medicação no Brasil?

Em qualquer caso, quando há desejo de fazer um tratamento com derivados da cannabis, é necessário entrar com um pedido de autorização. Desde 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite a importação de medicamentos contendo canabinoides, e você pode revisar o processo aqui nesse post.

Quem desejar, ainda pode entender se o autocultivo é uma opção válida para sua realidade. Aqui no blog, nós já falamos muito sobre razões para adotar o autocultivo, e até tiramos as dúvidas sobre o tema com as advogadas da Rede Reforma. Se, para você, essa alternativa soar melhor, você pode entrar em contato com um advogado de confiança e entrar com pedido de Habeas Corpus individual para se proteger perante à lei.

Esse tratamento oferece riscos?

Como toda substância que altera nosso estado físico e mental, a cannabis oferece sim riscos em alguns casos. E, embora ela seja cada vez mais citada na literatura moderna como uma boa alternativa, ainda precisamos entender quais efeitos negativos podem ser observados com a sua utilização.

Segundo alguns estudos, os canabinoides podem suprimir o sistema imunológico – o que pode ser problemático quando combinado à imunoterapia. Esse tratamento aproveita compostos criados pelo corpo ou sintetizados em um laboratório para melhorar ou restaurar a função do sistema imunológico, para parar ou desacelerar o crescimento de células cancerosas. Já a imunomodulação, causada pela cannabis, regula negativamente a intensidade ou a duração de uma resposta imune e pode até aumentar o limite necessário para iniciar a imunoatividade.

Esta propriedade torna a cannabis ideal para o tratamento de inflamação ou doenças auto-imunes caracterizadas pela hiperatividade do sistema imunológico. Para pacientes com câncer submetidos à imunoterapia, no entanto, não é tão útil.

Além disso, a forma que o paciente consumirá a cannabis também deve ser pensada para reduzir danos. Sob hipótese alguma, por exemplo, a cannabis deve ser fumada – já que, através do processo de combustão, o corpo acaba recebendo outras substâncias potencialmente cancerígenas.

É interessante conversar com o médico e entender as necessidades específicas de cada paciente. Vaporização, uso tópico ou ingestão contam com tempos de ação diferentes.

  • Pode demorar até 90 minutos para sentir os efeitos de um comestível, mas eles podem durar por até dez horas;

  • Quem vaporiza cannabis pode começar a sentir seus efeitos em até cinco minutos, mas ele começa a passar em cerca de duas horas;

  • Já as tinturas geralmente começam a funcionar dentro de 15 minutos. Seus efeitos podem ser sentidos mais rápido se ela for colocada sob a língua em vez de apenas engolida, e podem durar de duas até seis horas.

É doloroso ver o quão pouco, ainda, é falado da cannabis como tratamento auxiliar de doenças como o câncer, que causam o sofrimento de muitas pessoas. O proibicionismo e os mais de cem anos de propaganda anti-cannabis é o responsável não apenas pela criação de mitos e mentiras a respeito da substância, mas também com os poucos avanços das pesquisas, que foram retomadas a tão pouco tempo, mas já mostram os verdadeiros potenciais da substância.

Lutar por políticas antiproibicionistas também é lutar por melhores condições para quem tem um diagnóstico não apenas de câncer, mas de muitas outras doenças. Sabemos que as políticas atuais não são suficientes para sanar a demanda aqui no Brasil, e esperamos que, em breve, possamos ver um acesso muito mais democratizado à substância.

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