GIRLS IN GREEN

Quem nunca fechou o famoso “tabeck”?  Misturou um pouquinho de tabaco no seu haxixe ou maconha? Aqui, vamos entender mais sobre ele e a forma como interage com a cannabis quando usados juntos e quais são os possíveis riscos dessa interação.

O tabaco é uma das substâncias mais usadas aqui no Brasil, e a cannabis está bastante ligada a ele por diversos motivos. As duas são plantas de poder e têm seus usos ritualísticos, além de serem utilizadas de forma recreativa, também conhecida como o uso adulto, ou mesmo abusiva. O proibicionismo é uma das explicações para a prática da misturar tabaco com maconha ou haxixe – afinal, tais produtos são caros e muita gente faz esse “mix”para render. Esses são os famosos “tabecks” ou spliffs. A gente sabe que estamos falando apenas da nossa bolha do Instagram, mas 60% dos nossos seguidores contaram que fazem o uso combinado de ambas, mostrando o quanto estão atreladas.

Por isso, a gente acredita que já não é mais possível falar sobre a Redução de Danos da cannabis sem falar do tabaco.

Culturalmente, essas plantinhas são aceitas e formam um padrão de uso bastante comum não só por aqui, mas em diversos outros países. Então, esse texto pode servir pra muita gente, e ficamos super animadas em poder tratar desse assunto por aqui! Falar sobre o uso de maconha e tabaco juntos é tocar em temas profundos, associados a culturas de uso, tradições e hábitos difíceis de largar.  Nesse post da nossa série “cannabis e outras drogas”, vamos desenrolar essa dupla e falar sobre sua utilização, seus riscos e quais são as melhores formas de minimizá-los.

Vamos com a gente nessa!

Foto colorida de uma mão segurando um Beck com haxixe e tabaco
Beck com haxixe e tabaco

O que é o tabaco?

O tabaco trata-se de uma planta cujo nome científico é Nicotiana tabacum, da qual é extraída uma substância chamada nicotina – seu princípio ativo. Há diversos produtos derivados de tabaco: cigarro, charuto, cachimbo, cigarro de palha, cigarrilha, bidi, tabaco para narguilé, rapé, fumo-de-rolo, dispositivos eletrônicos para fumar e outros.

A substância pode provocar o tabagismo, reconhecido como uma doença crônica causada pela dependência à nicotina presente nos produtos à base de tabaco. De acordo com a Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), o tabagismo integra o grupo de transtornos mentais e comportamentais em razão do uso de substâncias psicoativas. Ele também é considerado a maior causa evitável isolada de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo.

A endemia mundial do tabagismo resulta na morte de mais de sete milhões de fumantes por ano. As taxas de abandono do cigarro são muito baixas, de 3% a 12%, e as taxas de retorno ao uso são altas, de 75% a 80% nos primeiros seis meses e 30% a 40% mesmo após um ano de abstinência. Uma das seis principais táticas adotadas pela Organização Mundial da Saúde para conter a epidemia do tabaco é promover a cessação do hábito.
Mas nem todos que fumam desejam parar!

Maconha e tabaco
Maconha e tabaco

Epa, pera aí! Se causa tanto mal, por quê não querem parar?

Bom são vários fatores que levam a pessoa a continuar a utilização de uma substância como o tabaco. Em primeiro lugar, o uso da nicotina é prazeroso (Benowitz, 2010). Além disso, ela tem os seguintes benefícios:

  • Em estudos em humanos, a administração aguda de nicotina pode ter efeitos positivos sobre os processos cognitivos, como melhorar a atenção, coordenação motora fina, concentração, memória, velocidade de processamento de informações e alívio do tédio ou sonolência.

  • Alguns usuários de nicotina se beneficiam dos efeitos da automedicação para o alívio do estresse, ansiedade, depressão e outras condições médicas e de saúde mental, incluindo esquizofrenia e doença de Parkinson. (Niaura, 2016, p. 3).

  • Mesmo sendo uma substância estimulante, muitos fazem o uso da nicotina para relaxar. É interessante observar essa relação, como também ocorre com a cannabis e com outras drogas, que está relacionada ao conceito de set and setting – ou seja, o efeito é ligado diretamente à intenção do uso, ao estado físico e mental do usuário, ao seu condicionamento e ao ambiente onde o uso é feito.

Além de tudo isso, também precisamos falar sobre o hábito de fumar o tabaco. A dependência, isso é, o uso da substância de uma forma abusiva e pouco saudável, é ligada à fisiologia, mas não apenas a ela.

A verdade é que acender o cigarro pode se tornar um momento praticamente ritualístico: ele está sempre ali para você, como uma companhia, e pode se vincular também a outros hábitos diários – como o cafezinho, o pós-almoço, a pausa da tarde, a cervejinha depois do trabalho, e muitos outros. Por isso, se desvincular da substância é complicado não apenas pelos sintomas físicos da abstinência, mas também pela falta simbólica que ele provoca.

E esse uso é sempre ruim?

Em diversas culturas indígenas e originárias, principalmente das Américas, o tabaco é considerado uma planta de poder. A diferença do uso não está apenas na quantidade (bem mais limitada a ritos e cerimônias), mas também na espécie: enquanto os cigarros convencionais usam a Nicotiana tabacum, os povos usavam, e ainda usam, a Nicotiana rustica – uma variante que contém de 9 a 20 vezes mais nicotina, e que, por isso, causa efeitos ainda mais fortes.

A forma de uso também muda: no contexto de cerimônia de grupos indígenas do Texas, por exemplo, ao ser acesa, a primeira baforada de fumaça é exalada para cima, em direção ao céu. Em seguida, uma baforada é oferecida às quatro direções cardeais, ao solo e, finalmente, a quem acendeu e ofereceu o cigarro como meio de purificação. Ao final desta sequência, procedem às canções, orações e invocações aos ancestrais e suas figuras mitológicas que fazem parte do ritual; além disso, eles compartilham o “cigarro” com outras pessoas que fazem parte da cerimônia, sempre no sentido horário.

Também existem vários outros meios de uso, como a utilização em rodas de rapé ou o fumo no chillum, que são considerados ritualísticos. Esporádicos, não trazem danos sérios à saúde de quem utiliza. Mas mesmo nessas culturas, há uma preocupação com o tabagismo e o hábito de fumar regularmente.

Chillum com haxixe e tabaco, pote cm haxixe e motivos indianos ao fundo
Chillum com haxixe e tabaco

O uso da cannabis junto com o tabaco

Como são duas plantas de uso muito similar, é mega comum que sejam combinadas. Aqui no Brasil, como já falamos ali no início do texto, muita gente mistura até para fazer “render” a cannabis, que nem sempre é fácil de encontrar – ainda mais se é de boa qualidade. Com o hash, o uso é ainda mais comum. Na Europa, por exemplo, geralmente é usado um cigarro inteiro para uma pequena quantidade de hash.

O efeito mais comum relatado ao fumar tabaco junto com a cannabis ou concentrados é a intensificação do efeito, embora alguns relatem que o uso do tabaco na verdade tem o efeito oposto e reduz o efeito. Outro efeito comumente relatado é acalmar o usuário dos efeitos às vezes indutores de ansiedade da cannabis.

Existem também outras pesquisas que ligam o uso de tabaco junto à cannabis a efeitos mais amenos na memória dos usuários, devido à forma como agem no hipocampo. Usuários das duas substâncias, embora também possam ter uma redução no hipocampo, não apresentam problemas na capacidade de reter memórias. A descoberta é bem recente, e surpreendeu bastante os pesquisadores.

O tabaco industrializado e o tabaco orgânico

Quando falamos do tabaco, também precisamos pensar bem na forma como ele é comercializado e produzido. Os dois principais tipos que chegam ao consumidor atualmente são os cigarros industrializados, vendidos em caixas já enrolados e prontos para fumar, ou o tabaco solto, muitas vezes orgânico, comprado para enrolar na seda. E eles têm muitas diferenças!

É quase como pensar no uso da flor da cannabis in natura, orgânica, linda e cheirosa, e num prensado meio mofado. Enquanto o tabaco orgânico é limpo e não contém aditivos, os cigarros já enrolados contam com muitas outras substâncias danosas utilizadas no processamento da planta, bem como conservantes, tintas, aglutinantes e até mesmo aditivos que fazem o cigarro queimar de forma mais rápida.

Aqui, nós falamos tanto sobre o cultivo orgânico da cannabis que seria quase contraditório misturar isso com o cigarro industrial! Por isso, tanto no uso solo quanto no uso combinado, o tabaco orgânico/solto/deslatado é a melhor opção. Mas ainda é preciso ter em mente outras estratégias de Redução de Danos bem importantes.

Foto colorida da Alice segurando um beck e um bloco de piteiras
Piteira longa sempre!

Redução de Danos ao fumar

  • Use FILTROS, de preferência biodegradáveis (redução de danos ambientais na mãe natureza também é importante). Além disso, é preciso desmistificar o fato de que o filtro diminui a quantidade de THC absorvido. O que ele faz é mudar um pouco a consistência da fumaça, o que de nenhuma forma implica em efeitos menos intensos!
  • Use sedas de qualidade, se não o papelzinho pode fazer mal sim.
  • Use piteira longa para ajudar no resfriamento da fumaça.
  • Se for usar com maconha/haxixe, use pouco tabaco, só o necessário para carburar. Melhor um beck fino com pouco tabaco do que um dedo de gorila tabacado!
  • Use o tabaco natural ao invés do industrializado.
  • O próprio ritual de bolar o próprio tabaco muitas vezes diminui a quantidade de cigarros fumados, o que é uma boa forma de reduzir o hábito.
  • Vaporização ao invés da carburação também é uma forma de reduzir danos.

O vape e a indústria do tabaco

Considerando os efeitos positivos da nicotina, a sociedade poderia se tornar tolerante com o uso recreativo da nicotina com cigarros eletrônicos “para acelerar a obsolescência dos cigarros convencionais”? Esta questão estende o escopo da Redução de Danos do tabaco a questões maiores de aceitação social e regulamentação legal do uso de drogas. Mas também precisamos ficar bastante atentos.

Nos últimos anos, vimos uma grande polêmica surgir ao redor dos vapes, que são usados hoje para vaporizar tanto plantas in natura quanto cartuchos prontos comprados. Eles foram apresentados pela indústria do tabaco como uma “alternativa saudável” ao hábito de fumar – até porque, obviamente, a queda do número de usuários levou as empresas a encontrarem outras alternativas de faturar. Entretanto, junto com os vaporizadores e seus cartuchos, surgiram doenças pulmonares e até mesmo mortes relacionadas ao seu uso.

Como já falamos aqui no blog, o vaporizador pode ser uma ótima ferramenta, e realmente podem reduzir danos. O problema é o que você coloca no seu vape. No mercado irregular, principalmente, é comum encontrarmos cartuchos com sabores, com óleos e até mesmo “essências” de cannabis de procedência duvidosa. O que foi descoberto é que muitos desses cartuchos usavam substâncias tóxicas para afinar seu conteúdo, e que causam doenças pulmonares gravíssimas.

A nossa dica é ficar com o natural, e procurar vaporizadores que aceitem a erva seca. Dessa forma, você não terá os danos da carburação – processo que ocorre nos cigarros e origina o alcatrão e outras substâncias danosas à saúde.

Ideias para substituir o uso de tabaco

  • Kumbaya: uma mistura de ervas. Muitas pessoas gostam, outras acreditam que roubam o gosto de tabaco.

  • Verbasco: planta terapêutica/medicinal que pode ser utilizada no tratamento de problemas respiratórios, alguns exemplos são asma e bronquite. Outro aspecto importante é que essa erva possui propriedades anti-inflamatórias e expectorantes.

  • Lavanda: é um sedativo natural que pode ajudar a combater sintomas de estresse, tensão, ansiedade, insônia, irritabilidade e outros.

  • Camomila: planta com as flores lindinhas que podem ser utilizadas no tratamento de sintomas de ansiedade. Algumas das propriedades dessa planta são seus efeitos calmantes, cicatrização, antibacteriana, anti-inflamatória.

  • Calêndula: a calêndula tem propriedades calmantes, e é muito usada por suas propriedades anti-inflamatórias, antivirais e antifúngicas. Inclusive, ela é ótima para aliviar os sintomas da TPM (fica a dica, migas e migues)!

  • E outras ervas, como: chá verde, sálvia, etc.

Uma questão de observação

O uso de qualquer substância não deve ser livre de um processo de observação profunda: dos efeitos no seu corpo, do balanço entre risco e prazer, e principalmente do quanto elas trazem benefícios em relação ao número de danos.

Se você usa a cannabis junto com o tabaco, entenda se seu uso de maconha não pode estar ainda mais frequente por conta do tabaco. Observe como o uso do tabaco pode ser associado muito mais a hábitos diários que fazem com que haja um aumento desse consumo.

Nosso papel nesse post não é demonizar o tabaco com a cannabis, mas levantar essas hipóteses para auto observação!

A dependência é descrita como a dificuldade de abandonar um hábito, mesmo quando se deseja fazê-lo. E nós sabemos o quanto pode ser difícil se livrar desses hábitos consolidados. A própria Alice reduziu o uso do tabaco deixando-o mais restritos a situações ritualísticas, com o uso do chillum. É importante sempre colocar seu consumo em uma balança – e se houver abuso de alguma substância, ou seja, uso contínuo e excessivo da mesma, você pode sempre procurar ajuda.

E aí, curtiu esse post? Você também faz uso da cannabis junto com o tabaco? Conta pra gente aqui nos comentários a sua experiência com essa dupla.

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gabrielbmattos.gb@gmail.com
2 anos atrás

Bom demais o texto!! Parabéns

pedroagsant@gmail.com
2 anos atrás

Muito bom o texto, tratou de dúvidas que sempre tive, como a suposta redução do thc por conta do filtro e também sobre os efeitos do uso combinado com o tabaco, sobre isto eu tenho uma dúvida, será que a cannabis quando combinada ao tabaco pode reduzir os danos que são gerados por ele?

Abraços .

kaiqueloiolafotografia@gmail.com
1 ano atrás

Vocês são incríveis. Só conteúdo de qualidade máxima! Parabéns pelo trabalho impecável.

Gabriel
Gabriel
2 anos atrás

Bom demais o texto!! Parabéns

Pedro
Pedro
2 anos atrás

Muito bom o texto, tratou de dúvidas que sempre tive, como a suposta redução do thc por conta do filtro e também sobre os efeitos do uso combinado com o tabaco, sobre isto eu tenho uma dúvida, será que a cannabis quando combinada ao tabaco pode reduzir os danos que são gerados por ele?

Abraços .

Kaique Loiola Brasil
Kaique Loiola Brasil
1 ano atrás

Vocês são incríveis. Só conteúdo de qualidade máxima! Parabéns pelo trabalho impecável.

Vivi
Vivi
6 meses atrás

Sempre com textos maravilhosos e muito bem explicado. Parabéns!!!

Eduardo Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro
3 meses atrás

Muito bom o texto. Eu costumo fumar uns com meu pai antes do trabalho.😎