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Bufo alvarius, kambô e sapos psicodélicos

Parte da cultura e da medicina de vários povos, os sapos psicodélicos (como o Bufo alvarius) e a perereca Kambô merecem nossa atenção. Vem entender!

Se a princesa dos contos de fadas beijou um sapo e ele se tranformou em príncipe, pode ser bem provável que ela tenha viajado na onda do Bufo alvarius. Um dos mais famosos tipos de sapo psicodélico, o Bufo alvarius foi a primeira espécie de animal estudado por suas propriedades mágicas. Já o caso da perereca Kambô é bem diferente: seus poderes não envolvem a psicodelia. Entretanto, por serem da mesma classe, acabam sendo colocadas na mesma caixinha.

Mas nós acreditamos que é bem importante falar sobre esses bichinhos, desmistificar as experiências que eles proporcionam e também trazer alertas importantes. Afinal, quem é que nunca viu um filme fantasioso onde alguém dava uma lambida em um sapo e saia alucinando por aí? Assim como os cogumelos, que possuem variações venenosas, esses anfíbios devem ser tratados com responsabilidade e cuidado — para o seu bem e para o deles.

Por isso, vamos trazer algumas informações importantes sobre esses animais tão cheios de mistério, suas principais características e diferenças. Venha entender mais sobre o Bufo alvarius, o Kambô e outros sapos psicodélicos com a gente.

Foto colorida de um sapo da espécie Buffo Alvarius, em paisagem desértica
Bufo Alvarius, sapo do rio Colorado que possui 5-MeO-DMT em seu veneno.

O que é o Bufo alvarius?

O Bufo é um psicodélico poderoso extraído do sapo do rio Colorado (ou deserto de Sonora). Acredita-se que ela seja usada há centenas de anos, embora não existam evidências concretas do uso desse tipo específico de sapo por culturas originárias. De acordo com quem aplica essa medicina, o uso do Bufo ajuda a deixar o ego de lado para permitir uma conexão com fontes divinas.

Maior e mais bonito do que seus parentes terrestres, o Bufo alvarius tem como principal característica sua pele verde oliva lisa e brilhante. Mas o que chama a atenção no animal é o veneno branco leitoso que ele secreta para envenenar predadores, como guaxinins selvagens, pássaros e outras criaturas encontradas na região do deserto de Sonora, que inclui partes da Califórnia, Arizona e norte México. 

Uma das substâncias encontradas nesse veneno (e também encontrada em algumas plantas psicoativas) é o 5-MeO-DMT, um psicodélico extremamente potente. Segundo pesquisas, ele é de quatro a seis vezes mais forte que seu parente mais conhecido DMT (ou dimetiltriptamina). 

Os efeitos alucinógenos do Bufo começam muito rapidamente, em minutos após a ingestão. Depois disso, duram de 20 minutos a uma hora. As pessoas que tomaram Bufo geralmente descrevem sua experiência como uma conexão visceral com a fonte divina. Outros experimentam cores, padrões circulares e uma sensação de conexão com o universo e todos os seres.

Hoje, a ciência está investigando mais a fundo esses relatos. Um número crescente de pesquisadores tem estudado tanto o Bufo quanto outras substâncias alucinógenas como tratamentos legítimos para muitas condições de saúde mental — como ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Foto colorida tirada à noite de uma perereca verde e branca sobre uma folha
O Kambô é uma perereca amazônica: a Phyllomedusa bicolor.

O que é Kambô?

Kambô é uma perereca amazônica: a Phyllomedusa bicolor. Mas ela tem muitos nomes: campu, acaté, sapo-árvore-macaco-ceroso, sapo gigante Maki ou “vacina da selva”. O Kambô é um medicamento tradicional extraído das secreções da pele do anfíbio. Esta perereca noturna habita as bacias amazônica e do Orinoco da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. 

Mais de quinze grupos indígenas diferentes da região amazônica usam essa substância há gerações para curar doenças do corpo e da alma. E, embora seja historicamente classificado como um psicodélico, ela não produz efeitos psicoativos e age de maneira bem distinta do sapo Bufo alvarius.

No caso do Kambô, pesquisas mostram que a substância é carregada com diversos tipos de biopeptídeos poderosos. Um dos peptídeos interage com os receptores opiáceos do próprio corpo, aliviando a dor. 

A cerimônia em si também pode criar um efeito calmante, e pode ser feita em grupos ou de maneira individual. Normalmente, elas começam com a ingestão de líquidos. Depois disso, a aplicação é feita através de pequenas queimaduras na pele. Da ferida, o kambo entra no sistema linfático e na corrente sanguínea, onde dizem que corre pelo corpo procurando por problemas. Isso geralmente resulta em alguns efeitos colaterais imediatos, especialmente vômitos — que são considerados uma forma de limpeza ou purga.

Foto colorida de um homem branco aplicando Kambô no braço de outra pessoa. Atrás, tem um homem de blusa vermelha e casaco azul
A medicina do Kambô é aplicada com uma faca, em feridas que a levam a substância à corrente sanguínea. Fonte: BBC.

Quais as suas diferenças?

O Kambô e o Sapo do Deserto de Sonora não são espécies próximas, nem suas secreções possuem as mesmas propriedades. Além disso, as experiências produzidas por esses animais mostram resultados muito diferentes.

Embora historicamente classificado como psicodélico, o Kambô não cria efeitos alucinatórios ou psicoativos. Em comparação, as secreções parótidas do Bufo alvarius contêm 5-MeO-DMT e bufotenina, que imediatamente induzem fortes experiências psicodélicas. 

Os métodos de aplicação de ambos são bem distintos. Enquanto as toxinas do alvarius são inaladas por meio do fumo, a medicina do Kambô é aplicada em feridas que a levam à corrente sanguínea. 

E é importante mencionar fatores ambientais e culturais. O rápido aumento do interesse gerou preocupação daqueles preocupados com o futuro dessas espécies. Ativistas ambientais pediram pesquisas sobre o impacto que a colheita excessiva e a segurança do habitat teriam na futura população do animal e nas populações indígenas que tradicionalmente trabalham com Kambô. Nesse artigo incrível do Instituto Chacruna, você pode ler mais sobre isso.

À medida que o interesse pelo Kambô se expande, é essencial debatermos problemas de abastecimento e do impacto que o uso pode ter sobre a perereca, seu habitat e as comunidades indígenas. Afinal, problemas similares de exploração aconteceram com outras substâncias sagradas, como a mescalina e a psilocibina.

foto colorida de um sapo Buffo alvarius com padrões coloridos e psicodélicos ao fundo da Fonte:thegoddessgarden
A experiência psicodélica com o Bufo alvarius.

O que diz a ciência sobre os sapos psicodélicos e kambô

É importante entendermos que, pela escassez de pesquisas sobre o Bufo alvarius, kambô e outras espécies de anfíbios poderosos, as informações atualmente disponíveis vêm de pesquisas observacionais, não de estudos controlados. Mas já existem alguns pontos interessantes a se observar em relação a isso:

Estudos observacionais de 2022 mostraram que o 5-MeO-DMT levou a reduções significativas nos sintomas de ansiedade e depressão em cerca de 80% dos participantes. Veteranos dos Estados Unidos que completaram o tratamento envolvendo 5-MeO-DMT encontraram reduções significativas nos sintomas de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, consumo de álcool, ideação suicida e declínio cognitivo associados a lesões cerebrais traumáticas. 

Além disso, outra pesquisa de 2019 concluiu que uma única inalação de vapor da secreção seca de Bufo alvarius pode estar relacionado ao aumento da satisfação com a vida, maior capacidade de atenção plena e diminuição de sintomas psicopatológicos.

Já em relação ao Kambô, um estudo publicado em 2018 mostrou que o efeito farmacológico de neuropeptídeos bioativos, provavelmente agindo em sinergia uns com os outros, resulta em um complexo de sintomas semelhante a um choque anafilático transitório. 

Outro estudo relata que os efeitos psicológicos agudos do Kambô são muito diferentes dos psicodélicos clássicos que atuam nas vias serotoninérgicas. Os cientistas descobriram que as experiências com a substância podem resultar no aumento de energia, resistência e clareza mental após os sintomas iniciais, que envolvem enjôo e exaustão. Além disso, seus efeitos geraram bem-estar e uma maior conexão pessoal e espiritual.

Os autores então concluíram que, embora a experiência do Kambô seja única, os efeitos transformadores de trabalhar com ela podem ser comparáveis ​​aos psicodélicos serotoninérgicos clássicos. Legal, né?

Uma mão de um homem branco usando um relógio metalizado, segura um sapo da espécie Bufo alvarius
Captura e exploração do Bufo Alvarius. Antes de qualquer experiência psicodélica, devemos priorizar as culturas originárias, o meio ambiente e todas as criaturas que o compõe.

Respeito às criaturas e aos saberes ancestrais

Com tudo isso, entendendo o aumento do interesse nesses bichinhos durante o chamado “renascimento psicodélico” que temos vivido, é essencial que deixemos o alerta: para o uso de qualquer uma dessas substâncias, é essencial o respeito. Tanto a vida dos sapos quanto a sagrada cultura ancestral ligada aos seus efeitos devem ser reverenciados, e não acreditamos que essas experiências possam ser resumidas apenas à experiências de psicodelia.

Além disso, outro fator importante é lutar pela proteção dos direitos dos povos indígenas aos seus costumes e territórios. O apagamento e a banalização de suas culturas é um assunto sério, que merece debate.

Então, gostou dessas informações? Esperamos que elas possam ser úteis — e que você dê aquela lida nas fontes linkadas para enriquecer ainda mais seus conhecimentos, pesquisas e debates acerca do assunto. E, para ficar de olho em todo nosso conteúdo, não esqueça de seguir nosso Instagram @girlsingreen710.

Até a próxima!

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mariano albuquerque
mariano albuquerque
1 ano atrás

bom artigo introdutório, mas poucas referências sobre os saberes originários tanto do kambô quanto do bufo.

gratidão pela partilha informacional, é nois