GIRLS IN GREEN

Os concentrados carregam não apenas tricomas, mas também muita cultura e história. Hoje, viemos falar um pouco mais sobre suas origens e as suas rotas – desde a antiguidade até os dias atuais. Vem embarcar nessa viagem com a gente!

Humanidade, final da era glacial. A transição de povos nômades para sedentários possibilitou diferentes avanços para a humanidade, principalmente o desenvolvimento de técnicas agrícolas. E foi mais ou menos por aí, há cerca de 50 mil anos atrás, que a cannabis começou a ser domesticada. Segundo nosso amado professor Frenchy Cannoli, ela foi uma das primeiras plantas a ser cultivada por humanos – que logo descobriram suas fibras, seu óleo e, é claro, o haxixe.

Para quem ainda não é muito familiarizado com o termo, o haxixe (também chamado de hash, extração ou concentrado) é feito a partir da coleta dos tricomas da maconha. Os tricomas, por sua vez, são estruturas que parecem pequenos cogumelos, cheios de canabinoides, terpenos e terpenoides. Esses concentrados são feitos através de vários métodos diferentes, e separam a matéria vegetal (folha, caules e flores) dessas estruturas tão desejadas.

Embora ele não tenha raízes 100% conhecidas, sabemos que sua cultura se iniciou no Oriente Médio e que, até hoje, ele está vivíssimo e evoluiu junto com a tecnologia. Atualmente, são muitos os países que produzem concentrados misturando história, tradição e modernidade, dando origem a produtos da melhor qualidade.

E aí, bateu a curiosidade para saber de onde vem o seu haxixe? Vem com a gente – vamos te contar!

Haxixe feito com técnica do Cannoli
Haxixe feito com a técnica do Cannoli

Oriente Médio: onde nasce o haxixe

É provável que os primeiros contatos com a maconha tenham acontecido na China, ou regiões próximas. Existem três lugares prováveis: Yangtze e Yellow Rivers, na China; nos pés dos Himalaias do Butão; ou nas Hindu Kush Mountains, na Ásia Central. Com a cannabis sendo levada para lugares com maior altitude, em regiões próximas ao Himalaia, potencializou-se o desenvolvimento dos tricomas e do que tem dentro deles.

Mas são vários os mistérios e as incertezas sobre a origem da cannabis e dos primeiros tipos de haxixe. Na região da Hindu Kush, temos a mais antiga tradição dessa forma de consumo e produção. Descobrimos os tricomas, seus cheiros, sabores e potências. Diante de todas essas possibilidades, a cannabis se espalhou pelos mais diversos cantos do mundo. E, por onde passou, se adaptou à cultura do local. E assim, a cannabis também foi se misturando com a gente.

Também precisamos falar sobre a importância de três outros países para o desenvolvimento dessa história: Afeganistão, Líbano e Marrocos. 

Haxixe afegão

O Afeganistão é a meca do haxixe, não só pelo seu antigo legado, mas porque contribuiu para importantes técnicas de separação de tricomas, que aumentaram a qualidade do processo de coleta da resina da maconha. O haxixe foi guardado como segredo por muito tempo. Para além da técnica de fricção com as mãos (já realizada com o charas), eles foram desenvolvendo conhecimentos sobre a colheita, sobre a separação, sobre a prensagem e sobre como guardar a planta.

Foi lá também que eles entenderam como as diferentes qualidades de resina eram produzidas a partir da separação e da quantidade de vezes que o material vegetal é batido. A primeira, segunda e terceira batida produzem qualidades de hash diferentes. Eles também peneiravam o produto para obter uma qualidade melhor da resina, de onde surgiu o famoso dry sift (que literalmente significa peneirar à seco). A resina era comercializada solta, sem estar pronta para consumo – mas os próprios consumidores a preparavam, pois há a cultura da importância de prensar e curar o haxixe.

Essas técnicas requerem tempo e dedicação para obter um hash de ótima qualidade. Diante da demanda do mercado ocidental e do contexto de guerra vivido pelo país na década de 70 e nos dias atuais, muito do haxixe feito para exportação atualmente vem do Paquistão, e não do Afeganistão. Além disso, os tempos difíceis fizeram com que algumas técnicas para qualidade do hash fossem deixadas de lado em prol de suprir a demanda do mercado.

Haxixe do Afegão
Haxixe Afegão

Haxixe no Líbano

No Líbano, sempre houve uma conexão fortíssima com o cultivo de cânhamo (ou hemp), importante material para possibilitar a navegação. Desde a antiguidade, ele era muito utilizado na fabricação de cordas e das velas dos navios dos povos fenícios – afinal, o país é um importante centro de agricultura próximo ao mar.

Mas a cannabis também tem história por lá! Existem tipos específicos de haxixe no Líbano: o branco, o loiro e o vermelho. Quando estão fechados, se parecem muito, mas ao abri-los você percebe as diferenças, que são determinadas também pelas diferenças climáticas e de altitudes. O vermelho é o super tradicional, com tricomas bem maduros, e é a maior qualidade de concentrado que você encontrará por lá até hoje!

Seus métodos também são um pouco diferentes. Enquanto no Afeganistão tudo é feito ao sol, no Líbano o haxixe é feito num quarto fechado, onde desde os tempos antigos já tentavam separar os diferentes tamanhos de tricomas. O cuidado com o material colhido e a separação em diferentes tamanhos de peneira garantiam essa qualidade excelente do hash libanês.

Inclusive, uma curiosidade mega interessante: lá no Líbano, as minas também trampam com maconha! Nos outros países, por conta de restrições religiosas, os homens são os maiores responsáveis pelo cultivo, colheita e fabricação do hash.

Tablete de Haxixe Libanês, de coloração vermelha, bem característica desse tipo de Haxixe
Haxixe Libanês, é possível perceber a coloração vermelha bem característica desse tipo de Haxixe

Haxixe no Marrocos

a tradição do hash começou um pouquinho mais tarde! Ela está relacionada com a invasão árabe no século VII. Foram os muçulmanos que trouxeram a erva para o Ocidente em suas caravanas. Apesar de proibida desde 1956, quando o reino marroquino retomou seu território dos espanhóis e dos franceses, a maconha sempre foi tolerada. Mas a produção de haxixe em larga escala só começou há pouco tempo: apenas no final dos anos 60 se iniciou a produção de haxixe marroquino em larga escala.

Todo o norte do país se desenvolveu muito por conta da manufaturação e da exportação do haxixe. Depois de um boom nos anos 80 e 90, alavancado por europeus atraídos pela resina, as plantações de maconha chegaram a cobrir mais de 100 mil hectares. A exportação de haxixe para a Europa chegou a mais de 3 mil toneladas ao ano. Em 2005, porém, uma forte seca fez com que a área cultivada caísse quase pela metade. Ainda assim, a produção atual rende 1,5 bilhão de euros ao ano, o equivalente a mais de 10% do total de exportações marroquinas.

Além disso, 70% do haxixe do mundo vem de lá – principalmente da província de Ketama, nas Rif Mountains.

Foto do Processo de fabricação do Dry sift, no Marrocos
Dry sift sendo feito no Marrocos.
Foto: Maria Fernanda Romero

Como o haxixe chega no Ocidente?

Como já falamos, o haxixe moderno mais exportado para a Europa é o marroquino. Mas a história é mais antiga do que isso. Na renascença, a maconha tornou-se um dos principais produtos agrícolas europeus, e era pouco usada como entorpecente. Justamente na época em que a Igreja Católica mais ganhava espaço, importância e influência na sociedade, a cannabis foi fundamental. Veja só a ironia:

  • A primeira bíblia impressa, feita pelo alemão Johannes Gutenberg, foi produzida em papel de cânhamo. Foi ela que permitiu a disseminação de informação, e muitos enxergam esse momento como o nascimento da imprensa moderna.

  • Com a “Santa Inquisição”, os católicos passaram a condenar o uso medicinal/terapêutico  da maconha feito por “bruxas”, que por sua vez foram queimadas por usarem a planta no feitio de remédios.

Na Bélle Époque (final do século XIX), a cannabis era amplamente utilizada como fármaco para dilatar brônquios e curar dores, e o haxixe também virou moda entre os artistas e escritores franceses. Dentre os intelectuais que curtiam uma brisa, podemos citar Eugene Delacroix, Victor Hugo, Charles Baudelaire, Honoré de Balzac e Alexandre Dumas. Eles se reuniam para fumar e comer haxixe e pesquisavam sobre o efeito da droga no tratamento de distúrbios psicológicos.

Entretanto, a partir do século XX, o período marcado pela Guerra às Drogas resultou em mudanças na forma de plantar, de fazer e distribuir haxixe ao redor do mundo, e também na forma de preservar e passar esse conhecimento. Nos Estados Unidos, surgiram diferentes variedades de hash por conta do desenvolvimento tecnológico da região: haxixe ice (também conhecido como bubble hash ou ice water hash) e diferentes tipos de rosin. Enquanto isso, na América do Sul, o mercado irregular se fortificou – poucos países, como o Uruguai, regulamentaram ou caminham para a regulamentação da substância.

Alice segurando um Dry sift antes de ser prensado no Marrocos
Dry sift antes de ser prensado no Marrocos

O haxixe e o mercado norte americano

O haxixe no contexto norte americano de hoje emprega um método de criação dramaticamente diferente. Em vez de usar as mãos, as novas ferramentas e tecnologias são fundamentais para a criação do que é conhecido como bubble hash, ice water hash ou ice-o-lator. Nessa área, quem ajudou muito na disseminação de métodos foi nosso querido Frenchy e o Marcus Bubbleman! A técnica que eles usam envolve um processo em que uma série de sacos de coleta com níveis variados de filtragem, água gelada e gelo. Tanto uma flor seca quanto uma flor congelada, chamada de fresh frozen, funcionam para fazer esse tipo de haxixe.

Ao usar flores frescas, o hash resultante às vezes é chamado de “hash vivo” ou ”live plant fresh frozen ice water hash”. Algumas pessoas acreditam que a experiência dos compostos ainda frescos- o aroma e o sabor do hash – é superior à do hash criado com flores secas. Vale lembrar que as concentrações de THCA são mais altas nas amostras frescas.

Nesse método, água e gelo são misturados e agitados- esse processo permite que os tricomas das flores quase congelem, o que faz com que caiam da flor e se acumulem no fundo do saco de filtragem. O material vegetal é retirado de cada bolsa de filtragem para iniciar o processo de secagem. São diferentes bolsas que incluem tricomas e resíduos que são coletados, resultando em hash de pureza variável, dependendo da micragem da tela de cada bolsa utilizada.

Os haxixes com maior concentração de contaminantes (matéria vegetal), de menor qualidade, podem ser prensados – o que dá origem ao hash rosin. Esse processo é uma dupla filtragem que busca o consumo de um óleo canábico extremamente limpo, livre de resíduos e claro, sem solventes!

Embora bem conhecido da maioria dos consumidores americanos de cannabis, o haxixe tem uma história menos conhecida nos EUA do que em outros países com uso generalizado de cannabis. Com a crescente legalização da maconha nos EUA, no entanto, o uso de concentrados de cannabis, incluindo haxixe, está se tornando mais e mais comum. Tanto o bubble hash quanto o rosin são particularmente atraentes para algumas pessoas porque não possuem qualquer vestígio de solventes – ou seja, pode ser uma boa opção para Reduzir Danos quando comparamos com o uso de concentrados com solventes!

Entretanto, na América do Sul, a situação é bem diferente.

Foto de duas Temple Balls feitas de Haxixe Ice
Temple Balls feitas de Haxixe Ice

De onde vem o seu haxixe?

Por aqui, a realidade é outra.

O haxixe se popularizou de forma gritante entre os brasileiros, principalmente na cidade de São Paulo, nos últimos anos. O hash agora é comercializado em grande parte das “biqueiras” do mercado irregular e, por conta do seu custo, seu uso também é cada vez maior entre as classes sociais mais altas.

O haxixe ice é mais predominante entre usuários economicamente privilegiados, e os usuários chegam a pagar cerca de cem reais por grama do produto. Ele pode vir tanto dos Estados Unidos, ou da Espanha, Paraguai, quanto de poucos que se aventuram a produzir a substância no Brasil.

Por outro lado, enquanto alguns curtem as diferentes variedades e alta qualidade do hash, o haxixe encontrado nas camadas sociais menos privilegiadas geralmente provém de um desconhecido modo de extração. A droga é misturada com outras substâncias para que as porções ganhem quantidade e, consequentemente, percam qualidade. Muitas amostras são provenientes do Paraguai – mesmo país de origem dos prensados.

Por isso, é preciso ter bastante cuidado com o que consumimos. Com a falta de controle de qualidade, comum a todos os mercados irregulares, podem surgir haxixes adulterados com químicos – uma grande ameaça para a nossa saúde, né? Além de tudo isso, é sempre fundamental lembrar das dicas de segurança e Redução de Danos para aproveitar esse produto tão rico em história e canabinoides sem riscos.

E aí, gostou de saber mais sobre as origens e rotas do haxixe através da história? É incrível saber que o Marrocos, próximo ao local de surgimento dos concentrados, ainda é o maior produtor do mundo – e faz essa iguaria chegar aos mais diversos países. E, assim, esperamos que a regulamentação esteja próxima para garantir acesso seguro a ele por aqui pelo Brasil também.

Conta aqui pra gente: qual foi o primeiro hash que você experimentou? Pode ser aqui nos comentários ou no nosso Instagram @girlsingreen710!

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Anny tonial
Anny tonial
3 meses atrás

Oi boa tarde, já experimentei o bho que é extraído com gás butano é bem forte a brisa, mas deve fazer bem mal à saúde . Aqui na minha cidade que é fronteira com py é bastante consumido por que muitas pessoas sabem fazer . Ja experimentei tbm o feito com gelo seco que é peneirado nas begs. É o mais puro mas como não tem matéria prima de qualidade nao fica muito chapante. Tem com álcool isopropílico tbm que depois de misturada a maconha, deixa evaporar o álcool e fica só o creme. Esses são os que eu aprendi aqui na cidade funciona mais não recomendo por não ter redução de danos. Eu prefiro pagar 100 reais na g e comprar um que se diz “gorilagold” da “gringa” q é bem mais puro. Heheheehhe
Um beijo sou sua fã, espero ter ajudado em algo bom com minhas experiências . Um dia realizarei meu sonho de poder visitar o paraíso igual vc !!!!