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Uma das maiores diferenças e vantagens do mercado legal é que podemos saber exatamente o que tem na maconha que estamos consumindo. Venha entender como e porque esses testes são feitos!

Você tomaria um remédio que nunca foi testado? Mesmo no caso de uso adulto de substâncias, a gente acredita que a testagem é uma das maiores garantias de Redução de Danos. Infelizmente, no mercado irregular criado a partir de políticas de drogas proibicionistas e punitivas, usuários e usuárias não contam com o respaldo de certificados e análises sobre o conteúdo de suas substâncias de escolha – o que, é claro, torna tudo muito mais perigoso para a saúde.

Nos recentes mercados legalizados, podemos ainda não ter uma posição 100% unânime sobre o valor medicinal-terapêutico da cannabis ou as ramificações do uso recreativo adulto legal, mas a maioria concorda que os produtos derivados da plantinha devem ser submetidos aos mesmos testes de qualidade e segurança que qualquer outro alimento ou droga no mercado! Portanto, laboratórios de teste surgiram para ajudar a atender aos requisitos de qualidade, segurança e rotulagem para produtos de cannabis legalizados em diferentes jurisdições.

Mas com a legalidade e aceitação do uso de cannabis ainda obscura em muitos lugares, esses laboratórios muitas vezes operaram à margem da legalidade, sem colaboração ou orientação de agências estabelecidas, como a Food & Drug Administration (FDA) ou o Departamento de Agricultura (USDA), sobre como desenvolver e validar métodos analíticos específicos para produtos que contém maconha.

Apesar de um começo difícil, a indústria de testes de cannabis amadureceu rapidamente em um período relativamente curto de tempo, e muitos laboratórios competentes e certificados estão agora fornecendo dados quantitativos confiáveis para produtores e consumidores. No entanto, como a maioria dos laboratórios de teste de cannabis desenvolveu seus próprios métodos, com pouca validação cruzada entre os laboratórios, muitos especialistas acreditam que há uma necessidade de métodos analíticos padronizados.

Vamos entender melhor quais são os principais testes e certificações da cannabis no mercado legal? Para isso, vamos contar também com uma ajudinha da educadora canábica Luna Vargas, que tem experiência no mercado legal canadense e ajuda na formação de budtenders. Vamos lá!

Platanção de cannabis em fazenda legalizada na Califórnia
Platanção de cannabis em fazenda legalizada na Califórnia

O que tem nessa cannabis?

Como você já deve saber, a maconha é uma plantinha recheada de compostos com diferentes propriedades sensoriais, psicoativas e medicinais. Seus tricomas têm um conteúdo oleoso, cheio de canabinoides, terpenos, triglicerídeos e outras substâncias. Mais de 480 compostos foram identificados como exclusivos da cannabis, incluindo mais de 70 canabinoides. Na planta fresca, THC e CBD existem em suas formas ácidas, THCA e CBDA. Outros canabinoides, como canabinol (CBN), cannabigerol (CBG), canabicromeno (CBC), tetrahidrocanabivarion (THCV) e canabidivarina (CBDv) também estão sendo isolados e estudados.

O THC é o principal componente psicoativo da cannabis, enquanto o THCA (a forma nativa da planta) não tem efeitos psicoativos. O CBD, que não-intoxicante, é valorizado principalmente por seus efeitos terapêuticos – mas também pode influenciar as propriedades psicoativas do THC! Os canabinoides produzem seus efeitos fisiológicos agindo de maneiras distintas sobre os receptores endocanabinoides, principalmente no cérebro e no sistema imunológico. A partir disso, podem reduzir náuseas, convulsões, inflamação e dor, e ajudar a tratar doenças como esclerose múltipla, epilepsia, glaucoma, doença de Crohn e câncer.

Nos últimos anos, os cultivadores de cannabis para uso adulto têm tentado maximizar o conteúdo de THC, já que níveis mais altos equivalem a preços mais altos. Os níveis de THC de hoje, muitas vezes 20% ou mais, são muito mais elevados do que aqueles em cepas de maconha da década de 1970, que continham apenas 4-6% do componente.

Os níveis de CBD são geralmente baixos em cepas usadas só pela chapadeira (por exemplo, 2%). Em contraste, muitas cepas de cannabis medicinal contêm níveis mais altos de CBD (por exemplo, 14%) e níveis mais baixos de THC (por exemplo, 1%), e muitas cepas têm como alvo proporções específicas dos compostos.

Para pacientes com maconha medicinal, o THC alto pode ser desnecessário ou indesejável, especialmente no tratamento de crianças ou condições crônicas que requerem medicação ao longo do dia.

A cannabis também contém aproximadamente 140 terpenos, que são moléculas compostas por várias unidades de isopreno e normalmente têm fragrâncias agradáveis. O perfil particular de terpeno de uma variedade de cannabis influencia seu gosto e seu cheirinho característico – e é por isso que diferentes cepas são nomeadas por seus aromas, como Super Lemon Haze, Grape Skunk e Girl Scout Cookies.

Além de determinar as propriedades sensoriais da cannabis, os terpenos podem aumentar os benefícios médicos por meio de um processo conhecido como “efeito entourage”. Você pode ler mais sobre ele por aqui!

Mas podemos afirmar que, por essas e outras questões, cada tipo de cannabis vai apresentar uma ação diferente em cada organismo. Assim, a testagem e a certificação vem para garantir ao usuário, seja de uso adulto ou terapêutico, que as suas necessidades serão atendidas pelo produto que estão comprando – além de não serem oferecidos riscos à saúde. Esses testes geram um documento chamado Certificado de Análise (Certificate of Analysis, ou COA).

Quais são os principais testes no mercado?

Nos Estados Unidos, como a FDA ainda classifica a cannabis como uma droga de Tabela 1 (com alto potencial para abuso e sem uso médico aceito; esta classe também inclui heroína, LSD e ecstasy), foi adotada uma abordagem “sem intervenção” à regulamentação da cannabis, deixando essas questões para os estados. A exceção são os produtos de maconha que fazem alegações médicas, que são proibidos sem a aprovação prévia do FDA. Os medicamentos à base de cannabis que alegam efeitos terapêuticos devem passar pelo mesmo longo processo de aprovação da FDA que outras drogas, incluindo ensaios clínicos para segurança e eficácia.

Embora o FDA não tenha aprovado a cannabis para qualquer uso médico, a agência aprovou duas drogas (Marinol e Syndros) que contêm uma forma sintética de THC. Ambas as drogas foram aprovadas para o tratamento da anorexia em pacientes com AIDS e para náuseas e vômitos associados à quimioterapia do câncer em pacientes que não responderam aos tratamentos convencionais.

Os requisitos de teste de cannabis variam por estado e país, mas a maioria exige:

->Testes e rotulagem para potência (THC e CBD)

->Testes para a presença de vários contaminantes, como solventes residuais, micróbios, metais pesados e pesticidas.

É importante também ressaltar que esses testes são muito mais profundos e detalhados do que os reagentes que temos no Brasil – entretanto, os kits de testagem com reagentes são super importantes e também podem salvar vidas, viu?

testes na macona gg
Principais testes realizados na cannabis legalizada

Mas vamos falar um pouquinho mais sobre os tipos de cada um deles!

Testes de potência na cannabis

Quando falamos em testes de potência, os principais canabinoides de interesse são THC, CBD e CBN – que é um indicador da deterioração da cannabis devido à idade ou às más condições de armazenamento.

Os dois métodos mais comuns para análise de potência são cromatografia líquida de alto desempenho (HPLC) com detecção de UV e cromatografia de gás (GC) com detecção de ionização de chama (FID). Embora o GC seja mais econômico e mais simples do que o HPLC, este método requer a derivatização da amostra para quantificar as formas livre e ácida de THC e CBD. Isso ocorre porque o calor necessário para a injeção da amostra de GC converte THCA em THC e CBDA em CBD. Portanto, sem derivação, as formas livre e ácida não podem ser distinguidas ou quantificadas.

Certificado de Análise para Cannabis no mercado legalizado
Certificado de Análise para Cannabis no mercado legalizado

Os métodos de derivatização são altamente sujeitos a erros e difíceis de validar, por isso muitos laboratórios estão optando por investir em equipamentos de LC. Em contraste, a HPLC pode quantificar separadamente THC, THC, CBD e CBDA sem derivatização, o que é particularmente útil para produtos de cannabis comestíveis porque eles normalmente serão consumidos sem aquecimento adicional. Para comestíveis, o GC pode fornecer valores de potência erroneamente altos porque a própria técnica converte THCA em THC e CBDA em CBD.

O desejo de identificar canabinoides adicionais levou a um uso mais amplo de duas técnicas cromatográficas mais sofisticadas: a Cromatografia de Ultra Performance (UPC) e Cromatografia de Fluído Supercrítico (SFC). Comparado ao HPLC, o UPC tem a vantagem de uma maior eficiência de separação, o que resulta em melhor resolução, tempos de análise mais curtos e consumo reduzido de fase móvel (e, portanto, menor geração de resíduos perigosos). O SFC tem todas as vantagens do UPC, combinadas com uma preparação de amostra muito mais fácil. O SFC é muito sensível a diluentes não polares, nos quais os canabinoides lipofílicos são altamente solúveis. Este atributo é particularmente útil para isolar canabinoides de uma grande variedade de matrizes disponíveis para produtos com infusão de cannabis.

Dispositivos portáteis também estão sendo usados para testes de potência. A espectroscopia de infravermelho com transformada de Fourier (FTIR) pode fornecer testes pontuais de potência rápidos e fáceis para THC, THCA, CBD e CBDA em flores de cannabis secas e óleos processados. Embora não seja tão sensível quanto a cromatografia, o FTIR pode analisar buds inteiros quanto à potência, terpenos e teor de umidade. Como a técnica não é um método primário, são necessárias amostras padrão com concentrações conhecidas determinadas por outras técnicas, como GC ou HPLC.

Testes de terpenos na cannabis

Os terpenos representam um desafio analítico porque são apolares e estruturalmente semelhantes. Nem a espectrometria de massa (MS) consegue distinguir os terpenos de forma exata, porque muitos têm o mesmo peso molecular e compartilham íons. Um dos melhores métodos para analisar sua presença na planta é usando a técnica de evaporação total (FET) -headspace (HS) -GC-FID.

No FET-HS-GC-FID, uma pequena quantidade de cannabis é colocada em um frasco headspace de 20 mililitros e aquecida para passar os terpenos para a fase gasosa – ou headspace. A técnica FET-HS é particularmente útil para analisar componentes voláteis devido à sua facilidade de implementação e processamento mínimo de amostra. Usando FET-HS-GC-FID, foi possível traçar o perfil de 38 terpenos encontrados na cannabis! No entanto, o método é apenas semiquantitativo devido à volatilidade relativamente baixa de alguns dos terpenos.

Para Luna, esse teste é mega importante – principalmente no caso de produtos full-spectrum. Isso porque só vai ser interessante fazer o uso se o perfil de terpenos for bem variado e forte, já que, como sabemos, são eles que modulam a nossa experiência com a plantinha!

Teste de terpenos no certificado de análises da cannabis
Teste de terpenos

Testes de solventes residuais na cannabis

A extração de cannabis para produzir materiais para uso em óleos, BHOs e concentrados, comestíveis e outros produtos frequentemente utiliza solventes como butano, propano, isopropanol ou acetona. Esses solventes são prejudiciais à saúde e, por isso, não devem estar no produto final. Há uma tendência na indústria de se afastar desses solventes tóxicos e empregar dióxido de carbono supercrítico, etanol ou água nos procedimentos de extração.

Como os solventes são voláteis, o FET-HS-GC-FID pode ser usado para análise de solvente residual. No entanto, a identificação do pico requer que o produtor de cannabis informe com precisão quais solventes foram usados na extração!

O GC/MS pode identificar picos com precisão sem conhecimento prévio de solventes; no entanto, o MS tem uma faixa dinâmica linear que torna difícil analisar solventes que variam amplamente em concentração.

Testagem de solventes residuais no certificado de análises da cannabis
Testes de solventes residuais na cannabis

Testes de pesticidas na cannabis

As regulamentações estaduais sobre pesticidas variam, mas algumas agências definiram amostras positivas como aquelas contendo 0,1 ppm de qualquer pesticida. Existem milhares de pesticidas conhecidos, portanto, atualmente é impossível testar para todos. Reguladores do Oregon, por exemplo, selecionaram um painel de 59 pesticidas para os requisitos de teste do estado.

O GC com detector de captura de elétrons (ECD) pode detectar pesticidas clorados no nível de partes por trilhão (ppt), mas a técnica não pode detectar pesticidas não clorados. O GC em combinação com a espectrometria de massa em tandem (GC-MS/MS) pode detectar muitas classes de pesticidas. No Canadá, diferente dos Estados Unidos, Luna conta que a tolerância é zero para pesticidas – tanto na cannabis quanto na comida. Por isso, não vai ser encontrado um COA apontando esse tipo de substância no seu produto.

Testes de pesticidas na cannabis
Testes de pesticidas na cannabis

Testes de metais pesados na cannabis

Metais pesados como arsênio, mercúrio, chumbo, cádmio e cromo podem ser absorvidos plantas de cannabis a partir de solo contaminado. Esses metais podem ser detectados em traços (ppt) por plasma acoplado indutivamente (ICP)-MS ou ICP-espectrometria de emissão óptica (OES). Como as técnicas de análise de pesticidas, os métodos de análise de metais pesados são paralelos aos usados pela indústria de alimentos.

teste metais pesados na cannabis legalizada
teste metais pesados na cannabis legalizada

Testes de microorganismos na cannabis

Durante o crescimento ou armazenamento, as plantas de cannabis podem ficar contaminadas com microorganismos como mofo, bolor, bactérias e leveduras. Bactérias patogênicas, como Escherichia coli e Salmonella, bem como toxinas fúngicas, como micotoxinas e aflatoxinas, podem causar doenças graves, principalmente em crianças ou pacientes imunocomprometidos que estão tomando cannabis medicinal.

Os testes geralmente envolvem uma técnica chamada qPCR [reação em cadeia da polimerase quantitativa], que é rápida. Em seguida, as amostras também são colocadas em placas de mídia padrão e é feita uma contagem total de leveduras e fungos após cerca de três dias. As técnicas de filme de Petri também podem ser usadas para análises microbiológicas.

Teste de microorganismos na cannabis legalizada
Teste de microorganismos na cannabis legalizada

Existe um teste melhor ou pior?

Para Luna, essa questão é um pouco complicada de responder: segundo ela, tem laboratórios terceirizados, que não são das empresas canábicas, porque se a própria empresa se testa não funciona muito bem. E, no geral, até existem alguns parâmetros – mas o governo não regulamenta tão profundamente e não criou standards para poder regulamentar os laboratórios.

Por isso, muitas vezes tem laboratórios que geram testes com diferença na porcentagem de THC e terpenos – e as empresas podem se aproveitar disso, testar amostras em vários laboratórios e pegar o teste que saiu melhor para seu produto. “Essa é uma possibilidade de fazer um teste meio adulterado”.

Mais do que para comercialização

Aqui nos Estados Unidos, a testagem da cannabis é um assunto tão sério que também já virou um mercado completamente novo. Existem diversos laboratórios diferentes, como o SC Labs, que testa para diversas grandes marcas aqui da Califórnia. Mas, embora esses testes sejam essenciais para que a gente saiba o que está comprando em dispensários e tenha certeza de que é o que precisamos, não é só para isso que eles servem.

Com a ajuda desses testes, nosso amado professor Frenchy Cannoli lançou, em parceria com um laboratório, um estudo sobre como envelhecem os haxixes – chamado Trichome Research Initiative. Através dessa iniciativa, amostras da flor e do mesmo concentrado gerado a partir dela foram analisadas através de todo o processo de criação e prensagem do hash:

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Trichome Research Initiative: estudo de French Cannoli sobre como envelhecem os haxixes

Ou seja: esse tipo de testagem tem sido um interessante objeto de estudo para entendermos melhor não apenas o perfil do que é consumido, mas como os canabinoides, terpenos e terpenoides se transformam com o passar do tempo – como um bom vinho. Interessante demais, né?

E aí, gostou de saber todas essas informações? Quando sabemos de tudo isso, chega a dar aquela invejinha – imagina que sonho poder saborear diferentes versões da nossa plantinha favorita e ainda saber exatamente como ela pode interagir com nosso organismo? A parte boa é que essa realidade não está tão distante assim; mas, para que ela chegue, precisamos ficar espertas e espertos, votando por políticos engajados nessa pauta e pressionando as autoridades por uma Lei de Drogas menos punitiva e mais protetiva aos usuários e usuárias.

Até a próxima – e não esquece de nos seguir lá no Instagram, no @girlsingreen710, para estar sempre por dentro das novidades quentinhas

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